A competitividade (ou falta dela) pelo olhar do professor Nuno Cristóvão

Treinador e selecionador nacional do futebol feminino, entre 2000 e 2004, não concorda com a redução do número de equipas na Liga BPI. E dá o exemplo da Dinamarca que caiu no ranking mundial, desde que cortou nos clubes na divisão principal.

Benfica-Braga, Liga BPI
Foto: FPF

Volta e meia, o tema anda na ordem do dia: a competitividade no futebol feminino. Quatro divisões no campeonato nacional. Uma 1.ª Liga com 10 equipas, eram 12 na época passada. A criação de uma 4.ª divisão disputada por 70 clubes. Nuno Cristóvão, treinador de equipas femininas do Carcavelos, Sporting, Torreense, 1.º de Dezembro, Racing Power, Futebol Benfica, e selecionador nacional do futebol feminino, entre 2000 e 2004, analisa o assunto.  

“Para já, não sou a favor da diminuição do número de clubes na 1.ª Liga, passar de 12 para 10. Em vez de haver mais investimento, vai haver menor investimento”, refere. “Isto só tem uma vantagem: é o selecionador nacional ter mais tempo para poder treinar as jogadoras da seleção. Mas depois tem um problema.” Ou seja, as datas, os momentos marcados para estágios e jogos das seleções. “Como hoje é tudo datas FIFA, portanto, há datas muito precisas para as jogadoras serem dispensadas dos seus clubes, todas as jogadoras que não pertencem às competições portuguesas só vêm naquele momento. E, muitas vezes, como não têm condições para sair no próprio dia em que fazem o último jogo, normalmente só vêm no dia a seguir e, muitas vezes, nem sequer conseguem fazer o primeiro treino desse período.”

Esse é um dos aspetos, mas há outros. “Ainda é menos competitivo para quem joga para o título. Neste momento, toda a gente sabe quem vai ser o campeão nesta época, e ainda só passaram algumas jornadas. Isto é competitivo? Não é competitivo.” Nuno Cristóvão avança com um exemplo. O exemplo da Dinamarca. “A Dinamarca, que era uma potência do futebol feminino europeu, quando reduziu o número de equipas da 1.ª divisão para, teoricamente, continuar a dar uma alta competitividade às melhores equipas, começou a cair em termos do ranking mundial.” 

O cenário não se alterou. A Dinamarca continua a ter 10 equipa na 1.ª liga. “Desde que isso aconteceu, nos primeiros anos ainda havia dois clubes a disputar o título de campeão, de então para cá foi sempre o mesmo.” Para Nuno Cristóvão, temos de aprender connosco, mas também olhar à volta, para outras histórias, para o que tem acontecido em outros países a que Portugal se quer equiparar. 

Neste momento, toda a gente sabe quem vai ser o campeão nesta época, e ainda só passaram algumas jornadas. Isto é competitivo? Não é competitivo

Nuno Cristóvão

O orçamento é outro aspeto. Quando foi responsável por uma equipa da 1.ª divisão, o Torreense, Nuno Cristóvão tinha um determinado valor para a equipa técnica e jogadoras. No final da época seguinte, a equipa ficou em 7.º lugar. Fazem-se contas. “Portanto, só descendo uma equipa, diminuindo o valor do orçamento, desde que se consiga e se saiba escolher jogadoras e equipas técnicas, investe-se menos em termos globais e continuamos a ter o mesmo tipo de resultado. Para cima, já se sabe que para chegar a um determinado patamar é preciso investir muito acima daquilo que é o normal.” O que poucos clubes terão capacidade de fazer.    

“Não é por acaso que o Benfica é campeão há quatro ou cinco anos consecutivos, já vai outra vez à frente com vários pontos de avanço e, mesmo assim, tem tido muitas dificuldades este ano, como já teve na época passada, que nem sequer conseguiu, infelizmente para o futebol feminino português, passar à fase de grupos da Liga dos Campeões.” “Se começarmos a olhar para baixo, a coisa vai ser mais difícil ainda”, repara.  

Não estou nada a favor dessa diminuição do número de clubes. Acho que não vai ser benéfico para ninguém

Esta época, há a novidade da 4.ª divisão, na qual se inscreveram 70 clubes, 70 equipas atualmente em disputa. Mais uma vez, Nuno Cristóvão diz o que pensa. “Acho que a criação da 4.ª liga foi porque houve uma intenção muito clara de reduzir o número de clubes de aí para cima.” E indo mais para cima, é claro na sua opinião. “Não estou nada a favor dessa diminuição do número de clubes. Acho que não vai ser benéfico para ninguém.” “Mais ainda quando vamos criar uma 2.ª divisão a nível nacional, que é esse o objetivo. Há clubes que não vão querer ir para lá ou então vão para lá e vão morrer – quando digo morrer, não vão ter condições.” Como é o caso do número de deslocações que uma equipa que sobe da 3.ª para a 2.ª divisão terá de fazer. Terá capacidade para tal? 

O que deveria acontecer? Nuno Cristóvão defende 12 equipas na 1.ª divisão, a 2.ª divisão com uma zona norte e uma zona sul, e a 3.ª divisão com 3 ou 4 zonas. Seja como for, o treinador percebe o corte na liga principal. “É afunilar o acesso à 1.ª divisão para lá só estarem os clubes que, eventualmente, têm mesmo condições de lá estar. O problema é, que mesmo assim, alguns dos clubes que ainda lá estão têm muito que caminhar para lá chegar, para efetivamente poderem ter capacidade para jogar nesse patamar.” É como uma pescadinha de rabo na boca, comenta.