Em janeiro deste ano, sensivelmente a meio da época, Albano Oliveira chegou ao Racing Power para assumir o lugar de treinador. Recorda que encontrou uma equipa com muito potencial e qualidade, era preciso trabalhar o rendimento. E o grupo mantém-se na Liga BPI. Valoriza a capacidade de trabalho das jogadoras, foca-se na organização de jogo e estuda as adversárias.
Vê uma liga competitiva, o futebol feminino a crescer, a visibilidade a aumentar, mas estádios pouco cheios. Fala da rivalidade que existe no futebol masculino e que esse aspeto pode espicaçar os adeptos. A subida do Porto à Liga BPI pode estimular essa componente sobretudo entre os três grandes. Acredita que a seleção nacional, catalisador de atenção para o futebol feminino, vai estar no Mundial de 2027 no Brasil.
Com experiência na Liga BPI, como é que encontrou a equipa do Racing quando chegou?
Na verdade, era um pouco o desconhecido quando temos necessidade de reconhecer as jogadoras num contexto de trabalho. O conhecimento que tínhamos, com exceção de uma jogadora que já tinha trabalhado comigo, era muito do que víamos na TV, no que foram enquanto nossos adversários, o que é sempre muito diferente da realidade. Encontro uma equipa com um potencial muito grande, com uma qualidade muito grande, mas sem conseguir rendimento desportivo. E esse foi o nosso principal objetivo, o nosso trabalho.
O que faz para conseguir esse rendimento desportivo? Qual o seu método de treino? Há muito trabalho de bastidores?
Não é mais do que fazê-las acreditar no verdadeiro valor que têm de forma individual para que possam trazer para o grupo. Os resultados causam sempre muita dúvida sobre o processo, não só ao treinador, como também à jogadora. Portanto, ela faz a sua avaliação. Por muito bom que tenha sido o seu rendimento, quando o objetivo vitória não valida esse mesmo trabalho, torna-se mais complicado. E uma sequência de resultados não positivos, ou aquém das expectativas da jogadora, do clube, da equipa, faz com que essa crença comece a causar alguma dúvida, neste caso na jogadora e na equipa, como é óbvio.
A adaptação de si ao clube e das jogadoras a si foi tranquila?
Encontrei um grupo muito bom. É um grupo muito afável, comunicativo e foi fácil a minha integração. Sinto-me integrado, sinto que elas também estão integradas com os meus processos.
O que privilegia nos treinos? Mais técnica, mais tática, tudo junto?
Trabalho muito em função de questões táticas, apoio-me muito na questão tática da própria equipa. Claro que, dependendo do adversário que defrontamos no fim de semana, existem sempre ajustes óbvios e necessários. Mas trabalho muito em função de uma organização de jogo que leva a que se consiga os nossos objetivos. Claro que depois é fundamentada com tudo e mais alguma coisa, mas diria que o principal, para mim, são as questões táticas.
É fundamental conhecer a equipa que se vai defrontar, as jogadoras que vamos defrontar, as suas principais características e qualidades, assim como as debilidades que podemos explorar.
Albano Oliveira
Portanto, estuda a fundo a adversária que vai ter no fim de semana?
Sim, em termos de equipa técnica, sim. Temos o analista que faz esse trabalho que depois é trabalhado com toda a equipa técnica para chegarmos a um plano de jogo. Obviamente não sou só eu, acho que todos os treinadores da Liga BPI trabalham muito essas questões. Hoje é fundamental conhecer a equipa que se vai defrontar, as jogadoras que vamos defrontar, as suas principais características e qualidades, assim como as debilidades que podemos explorar.

Quais as qualidades que uma jogadora deve ter e que são importantes para si?
Ser boa pessoa é fundamental em qualquer trabalho e no futebol também não o deixa de ser. Essencialmente, em termos de qualidade, é o seu rendimento, uma capacidade de trabalho acima da média aliada à própria qualidade que vai trazer rendimento ao jogo.
A parte mental também é importante?
Sim, diria que a parte mental é o suporte de tudo. Uma jogadora que não esteja bem psicologicamente nunca vai ter rendimento e uma jogadora que está excelente em termos mentais e muito confiante consegue exponenciar todas as suas capacidades no jogo de futebol.
Uma Liga com 10 equipas é uma Liga exigente e competitiva?
Sim, a redução do número de equipas torna-a mais competitiva pela dificuldade em recuperar ou a facilidade em perder facilmente lugares porque está toda a gente muito próxima, com exceção de um ou outro extremo na classificação. No entanto, diria que para nós, e aquilo que sentimos no Racing Power, é que cada jogo é um enorme desafio para conseguir os pontos necessários.
Na verdade, o clube está habituado a estar nos lugares cimeiros da tabela. Este ano, com uma época muito má para aquilo que são os objetivos do Racing, olhamos para aquele cliché do jogo a jogo, mas a verdade é que olhamos para cada jogo como um desafio para vencer. O que procuramos é uma melhor classificação fim de semana a fim de semana.
Vou aos estádios e vejo relativamente pouca gente. (…) temos de primar pela qualidade para que mais pessoas gostem de presenciar os jogos do futebol feminino.
Foi criada uma 4.ª Divisão de acesso livre, inscreveram-se 70 equipas. Foi uma boa ideia criar esta divisão e com esse formato?
Diria que sim. Acho que essa reorganização por parte da Federação, por muitas críticas que tenha ouvido e a novidade coloca sempre muitas críticas, é muito positiva, principalmente no sentido que vai estruturar a 1.ª, a 2.ª e a 3.ª divisões como uma liga competitiva, ou seja, vai tornar a competitividade mais acérrima. E aquela desorganização que, de certa forma, existia na 3.ª Divisão é feita de uma forma mais organizada nesta 4.ª Divisão. A possibilidade de entrar numa 4.ª divisão de forma competitiva a nível nacional, com o grande objetivo de subir para a 3.ª, esse equilíbrio na qualidade, a diminuição de equipas na 1.ª Divisão, o número de jogadoras possível de jogar nessa 1.ª Divisão, vão fazer com que a 2.ª Divisão seja mais competitiva e, consequentemente, vai aumentar o nível de competitividade das divisões inferiores. Portanto, acho que é uma excelente iniciativa por parte da Federação.
O futebol feminino tem tido a visibilidade que merece neste momento?
Mais uma vez, a Federação, através do Canal 11, tem proporcionado muita visibilidade à Liga BPI. No entanto, acho que o público em geral ainda não é um verdadeiro adepto do futebol feminino. Eu vou aos estádios e vejo relativamente pouca gente. Não foi o caso do jogo da 2.ª Divisão que vi, o Fofó recebeu o Porto e tinha uma casa quase cheia, o que contraria um pouco aquilo que estou a dizer. Mas, exceto alguns jogos da Liga BPI, a maior parte dos estádios ainda está com poucos adeptos. Porquê? Acho que é um pouquinho cultural, temos um caminho a traçar, temos de primar pela qualidade para que mais pessoas gostem de presenciar os jogos do futebol feminino.
Acho que temos um envolvimento completamente diferente do masculino no aspeto das rivalidades, é algo que está muito adjacente ao futebol em si. Mas, como eu dizia, culturalmente, em Portugal, o futebol vive muito de questões de rivalidade. Acredito que, de uma forma muito positiva, a subida do Porto à Liga BPI e o nível de rivalidade que isso também vai trazer a um Benfica, a um Sporting, a um Braga, vai provocar um bocadinho mais de interesse ou aumento do interesse pelo público em geral aos estádios. Era algo que gostaríamos de ver.
Obviamente que a seleção portuguesa também é um catalisador para que se goste mais ou se acompanhe mais o futebol feminino. Tem-no sido. Ultimamente passámos por um período muito difícil pelo nível competitivo que encontrámos nos adversários de Portugal e penso que agora estamos num nível diria mais intermédio dentro da Europa. Acho que podemos cimentar a qualidade de Portugal e, a partir daí, voltarmos a crescer.
Acredita que a seleção vai estar no Mundial de 2027?
Tenho a certeza.



