É uma das jogadoras mais experientes do Gil Vicente, uma das capitãs da equipa. Vice-campeã europeia de futebol de praia com a camisola da seleção espanhola. Perdeu contra Portugal. Assume-se como defesa lateral com alma de avançada. Tem formação em chef de cozinha, é craque na paella e nos arrozes.
Andrea Mirón Castro, Mirón no futebol, 34 anos, natural de Pontevedra, Espanha. Central e 6, camisola número 3 do Gil Vicente, na II Divisão de Futebol Feminino. Em Portugal, jogou no Braga, Famalicão, Torreense, Damaiense. Aos três anos, jogava bola com o irmão no jardim de casa, o responsável disto tudo. O pai não falha um jogo, é o seu maior fã. Uma entrevista animada e muito bem-disposta num dia de treino.
Vice-campeã europeia de futebol de praia, certo?
Certo.
Contra Portugal.
Contra Portugal.
Como foi esse momento?
Difícil, porque, afinal, todo o mundo quer ganhar. Mas tinha esse sentimento de que já que não fui eu, ou a Espanha, ao menos que seja o meu país vizinho, que me deu trabalho todos estes anos e a oportunidade de viver o futebol. Já tivemos outra hipótese em que ganhámos, então não faz mal que desta vez tenham sido elas.
Futebol de praia e futebol de relva. Alguma preferência?
Depende do momento do ano. Digo sempre que o futebol praia é outro mundo, vivem-se experiências que, se calhar, no futebol não tens oportunidade. No futebol de praia, conheces muitos países em muito pouco tempo. Tenho o privilégio de poder ir jogar a Itália, Polónia, Rússia, México, com o futebol de praia, coisa que com o futebol é mais complicado.
Mas depois de um ano meio parada, sem fazer futebol, lembrei-me do tanto que gostava disto. Não fazia sentido não jogar porque adoro futebol, adoro qualquer desporto que tenha bola. Agora, não sei em que ponto estou, mas gosto muito dos dois.
Como está a ser essa experiência no futebol feminino português?
Cheguei a Portugal em 2016, com o Sporting de Braga, apostando no futebol feminino. Posso dizer que quase percorri todo Portugal. Tive a sorte de representar clubes grandes: Torreense, Famalicão, Braga. E agora o Gil Vicente que está a fazer uma aposta muito boa no feminino. É um orgulho poder representar estas cores.
“Sou uma jogadora ambiciosa, quero muito subir com esta equipa à I Divisão porque acho que merece, porque trabalha para isso, e porque a aposta do clube é grande”
Andrea Mirón
Expectativas para subir à I Divisão?
Claro que o sonho de qualquer futebolista é, primeiro, conquistar a 1.ª fase, que é a mais importante para poder ter opções na 2.ª fase de subida. O objetivo está claro. Pelo menos eu, que sou uma jogadora ambiciosa, quero muito subir com esta equipa à I Divisão porque acho que merece, porque trabalha para isso, e porque a aposta do clube é grande.
És uma das jogadoras mais experientes da equipa.
Pois, sou a mais velha, com diferença (risos). É um orgulho poder rodear-me desta gente. É uma aprendizagem contínua. Acho que é bom ouvir, aprender e estar, neste momento, com elas e poder conquistar coisas com elas.
É uma equipa quase construída de raiz. Tu, como capitã, dás conselhos às jogadoras mais novas?
A minha base, a minha experiência, foi sempre ir na competitividade e lutar por aquilo que se quer. Este ano, aprendi muito. Se não desfrutam, não serve de nada fazer o que fazem. O que tento transmitir é que desfrutem. Elas são muito competitivas, muito exigentes. Penso que nunca encontrei um grupo tão exigente com ele próprio. O meu apoio é que desfrutem em campo com bola, que é a chave do êxito.

Como é o ambiente no balneário do Gil Vicente?
É muito fixe. Vim dois dias, tive de ir à seleção de futebol de praia, voltei três dias, tive de ir novamente ao futebol de praia. E sempre fui recebida de braços abertos. Isso, para mim, era muito importante porque sou nova – bom, somos todas novas – mas elas já levavam muito tempo juntas e nunca senti esse vazio. Pelo contrário, elas são incríveis. Estou muito contente por estar aqui, sinceramente.
Como vês o crescimento do futebol feminino em Portugal?
É maravilhoso. Comparas com outros países e…
…Espanha também é forte.
É muito forte. Joguei lá, sei o investimento que há por parte da federação, dos clubes, o nível que há em Espanha é de outro mundo. Portugal é um país mais pequenino e a aposta da federação e dos clubes é grande, sobretudo de clubes que eram pequenos. É mais a aposta dos pequenos do que dos grandes. Vejo a formação que há agora, os clubes a investir, as jogadoras que aparecem, as que chegam. O campeonato melhorou muito. Acho que merecem ser vistas, ter visibilidade.
“É mais a aposta dos pequenos do que dos grandes. Vejo a formação que há agora, os clubes a investir, as jogadoras que aparecem, as que chegam. O campeonato melhorou muito”
Como é que te apaixonas pelo futebol?
Conto sempre esta anedota. O meu irmão queria um irmão para jogar à bola. E dizia: ‘se nasce uma miúda, queimo-lhe o cabelo para que se pareça com um miúdo’. Nasci e o que o meu irmão fez foi levar-me para o jardim de casa e bola, bola, bola, bola, bola. É o meu exemplo. Ele é que meteu a bola na minha cabeça. O meu pai não joga nada, a minha mãe fazia ballet, o meu irmão mais velho faz atletismo. O do meio foi o que disse: “tu, comigo, para o jardim treinar”.
Cresceste então a jogar futebol.
Joguei sempre. A minha primeira inscrição foi com seis anos, mas com três já estava a treinar com o meu irmão. Ele era bom treinador. Aos seis, comecei no futsal, até aos 15 anos em que fui para o futebol.
Voltando à seleção de futebol de praia. Estavas em Portugal, quando soubeste da primeira convocatória?
Estava num contexto complicado. Antes não tínhamos competições de futebol de praia, tínhamos uma que era um campeonato de Espanha de regiões. As minhas duas melhores amigas, que continuam comigo na seleção, diziam “não, não nos vão chamar”. De repente, depois desse campeonato, o selecionador disse-nos “ficam cá para ir a Carcavelos jogar o primeiro Europeu’. Fomos campeãs. Nesse Europeu, Portugal estava com Rute Costa, Sara Brasil, havia jogadoras conhecidas de agora. Nesse momento, eu estava no Sporting de Braga, foi em 2016, e o João Marques não achava muita piada a eu ir ao futebol de praia. Aconteceu e desde aí e até ao dia de hoje continuo na seleção. Se Deus quiser, no próximo ano farei 10 anos na seleção.
“Quem me conhece, sabe que não consigo estar parada num lugar. Um espaço que vejo, tenho de subir com a bola. Gosto muito de arriscar”
És de que zona de Espanha?
Pontevedra, aqui pertinho.
A tua família vem ver os teus jogos?
Sim, o meu pai nunca falha um jogo, seja futebol de praia, seja futebol, tem de estar. É o meu maior fã.
E o teu irmão?
Depende do trabalho, quando pode vem até para chatear-me a cabeça ou para dizer o que fiz bem.
Esse apoio é importante?
Para mim, é o mais importante. Eles são os meus maiores críticos, vão dizer sempre a verdade. Então é muito importante que estejam na bancada ou em casa a ver-me na televisão.
És defesa central.
Sim, com alma de avançada.
Podes explicar melhor?
Quem me conhece, sabe que não consigo estar parada num lugar. Um espaço que vejo, tenho de subir com a bola. Gosto muito de arriscar e de brincar. Na areia, também faço isso. Não é bom para os treinadores porque, às vezes, sofrem um bocado do coração. É a piada que tem o futebol.
“Os portugueses cozinham muito bem o arroz, aprendi a técnica portuguesa do arroz”
Só jogas futebol, estudas, tiraste algum curso? Como foi o teu percurso?
Percebi que só futebol não chega, então sou chef de cozinha. Estudei para ser chef. Tenho os níveis de treinadora de futebol de praia, estou a tirar o de futebol. E agora comecei com contabilidade. Como as minhas manhãs estão livres, aproveitei para tirar contabilidade. E, além disso, em novembro, apresento-me ao B2 de Português, exame de Português.
A formação de chef de cozinha foi feita em Portugal?
Não, tudo em Espanha. Tirei a de chef de cozinha quando morava em Espanha. Agora estou a estudar à distância.
Alguma vez exerceste chef de cozinha? Trabalhaste em algum restaurante?
Não (risos). Gosto muito de cozinhar, adoro, mas é demasiado sacrifício. É horrível. Tive de fazer o estágio e disse, pronto, para cozinhar para a minha família ou para 30 pessoas um dia, está bem. Todos os dias cozinhar para mim ou para a minha família, sim, agora dedicar-me a isso…
O que cozinhas que te sai mesmo bem?
Paella é espetacular, desculpa a minha humildade, mas a paella é boa. A tortilha de batatas, ameijoas, todo os arrozes que faço. Os portugueses cozinham muito bem o arroz, aprendi a técnica portuguesa do arroz.
E sobremesas?
Como não posso comer, tento evitar.
Andrea, o que é para ti um bom jogo?
Um bom jogo é fazer o trabalho que o míster pede durante a semana de treino e conseguir os objetivos que ele define. Mas, sobretudo, mostrar que realmente queres ganhar o jogo, depois podes não ganhar, é futebol, há outra equipa que também joga. É mostrar que queres ganhar o jogo, dar tudo de ti, terminar morta e dizer não quero mais, até ao dia seguinte dizer quero. Para mim, o mais importante é deixar a alma em campo.



