É a jogadora que está há mais tempo no Tirsense, passou por várias posições até que ficou na baliza. Admite que é nervosa, mas não transmite essa sensação para as colegas dentro do campo. Se for preciso dar um berro, dá, não hesita. Lida muito mal com a derrota, que ninguém lhe fale no dia ou no dia seguinte. Custa a passar. Depois, é levantar a cabeça e pensar no próximo jogo.
Beatriz Pinto tem 28 anos, os sonhos no futebol estão mais contidos, quer competir a alto nível, ganhar e divertir-se. Concilia o desporto com o trabalho, é consultora financeira em insolvências, anda de um lado para o outro. A bola ajuda-a a libertar o stress, a equipa dá-lhe alegria. Confessa que o futebol lhe tem dado paz e tranquilidade.
És a jogadora que está há mais tempo no Tirsense.
Sim, há cinco anos.
E como é que está a ser a experiência?
É uma boa experiência. A cada ano, vêm pessoas novas, acaba por ser um plantel diferente. As pessoas vêm sempre para o mesmo, acaba por ser fácil.
Guarda-redes e uma das capitãs da equipa. Como és dentro do campo?
Sou muito nervosa, mas acho que acabo por não transparecer muito isso para elas. Tento comunicar ao máximo com as jogadoras.
E se for preciso dar um berro, dás?
Dou. Dou. Dou.
Ser guarda-redes é um bocadinho ingrato?
Muito.
Como é que geres esse turbilhão de emoções dentro de ti?
Já estou melhor, já estou muito melhor. Comecei a jogar à frente, tanto no futebol como no futsal, e depois o destino mandou-me para a baliza. No futebol, foi uma adaptação um bocadinho mais difícil, o tamanho da baliza era muito grande comparada com o futsal. No início, era mesmo muito difícil e ainda demorei um bocadinho a aceitar. E agora ganhei-lhe o gosto.
E se agora te dissessem para ires para outra posição, ias?
Ah eu ia. Mas eu gosto da baliza e acho que dou mais às equipas na baliza do que noutra posição qualquer.
A 2.ª Divisão este ano está mais competitiva do que na época passada?
Está muito mais competitiva, muito mais difícil. A 2.ª Divisão, em si, é um bocadinho ingrata porque temos a 1.ª fase só a uma volta, depois a 2.ª fase, equipas B pelo meio, acaba por ser muito complicado.
Deveriam ser feitas algumas mudanças, mesmo na Liga BPI que tem apenas 10 equipas, e nas outras divisões? Deveria haver ajustes para ficar tudo mais competitivo?
Sim. Pelo menos na 2.ª Divisão deveria haver um ajuste e fazer como na 1.ª, um campeonato, duas voltas, tudo junto. Porque agora é muito ingrato porque duas equipas da fase da manutenção ficam, uma vai a play-off as restantes descem todas. É muito duro, é muito pesado. Acho que podiam fazer de outra forma, nem que pusessem a descer quatro na mesma, mas sempre a duas voltas.
Na 2.ª Divisão deveria haver um ajuste e fazer como na 1.ª, um campeonato, duas voltas, tudo junto.
Beatriz Pinto
Como tens visto a evolução e o crescimento do futebol feminino?
Tem evoluído bem, tenho evoluído muito bem, há cada vez mais equipas, aliás até criaram a 4.ª Divisão, é sinal de que há mais mulheres e meninas a querer jogar à bola e isso é muito importante. Antigamente eram raras as equipas que tinham feminino.
Começaste a jogar com que idade?
Lembro-me de estar na infantil e jogar à bola. Mas jogar, jogar, comecei no futsal para aí aos 16 anos, já comecei um bocadinho tarde.

O que te fez mudar do futsal para o futebol?
Foi o Tirsense, fez-me uma proposta, um desafio para vir experimentar, aceitei, gostei do ambiente, senti-me bem. Aceitei o primeiro desafio e depois não consegui dizer não a mais nada.
Fazes mais alguma coisa do que jogar futebol?
Que remédio. Sou consultora financeira, trabalho com administradores de insolvências.
É difícil conciliar o trabalho com o futebol?
É sempre a correr, não há tempo. Saio do Porto às 18h40 no máximo, venho a correr para aqui, equipar, treino e pronto.
É coisa que te dá gosto?
Sim, sim.
O que é que o futebol te tem dado?
Paz e tranquilidade. Aqui dá para aliviar o stress do dia. Apesar de estarmos na 2.ª Divisão, temos momentos de brincadeira, o que dá para espairecer e limpar um bocadinho a cabeça. Dá-me muitas alegrias.
Apesar de estarmos na 2.ª Divisão, temos momentos de brincadeira, o que dá para espairecer e limpar um bocadinho a cabeça.
O que é que te aborrece num treino?
Estar muito tempo parada à chuva.
Gostas de estar sempre a correr?
Como estamos na baliza, fazemos o aquecimento com outra guarda-redes, vamos ao chão, ficamos todas encharcadas, e depois estar numa palestra é um bocadinho desagradável. Mas mais do que isso, são as derrotas.
Lidas mal com a derrota?
Sim, no dia ninguém pode falar para mim. No dia a seguir, mais ou menos, e depois já passou e é trabalhar para o próximo jogo.
Como guarda-redes, analisas as adversárias na eventualidade de haver um penálti?
Fazemos todo esse trabalho em conjunto, fazemos todas as análises da equipa adversária com a ajuda do treinador. Claro que também temos aquelas referências: aquela ponta é matadora, aquela extrema é rápida. E ficamos atentas a isso.
Quem são as tuas referências no futebol?
Inês Pereira.
A seleção nacional tem todas as condições para se apurar para o Mundial?
Acho que sim porque elas acabam por ter raça. Claro que há equipas superiores que já existem há mais anos, já competem há mais anos. Mas sim, acho que é possível, basta elas quererem.
Há talento na jogadora portuguesa?
Sim.
O que é preciso para uma jogadora ser uma grande jogadora?
Primeiro, tem de ter vontade porque sem vontade não vamos a lado nenhum. Depois tem de ter muita raça dentro do campo, mesmo que corra mal tem de fechar os olhos e ir atrás para conseguir recuperar o erro ou falhanço que acabou de fazer. Acho que isso é o mais importante.
Tens alguns sonhos no mundo do futebol?
Já tive, mas já tenho 28 anos. Claro que quero competir a níveis de 2.ª Divisão para ganhar, obviamente, e para me divertir.



