Num jogo-treino, contra uma equipa de rapazes, pediu ao treinador para ir à baliza, estavam sem guarda-redes, teve autorização, correu bem e ficou nessa posição. Tinha 12 anos, na altura. Esteve cinco anos no Benfica, experiência que admite ter feito a diferença na jogadora que é e na sua personalidade. O privilégio de representar um emblema grande, vestir a camisola do clube do seu coração, viver a mística por dentro, são momentos que não esquece.
Beatriz Painço tem 21 anos e é uma guarda-redes tranquila. É a jogadora com mais tempo de jogo da equipa do Amora, um voto de confiança e uma responsabilidade nos bons e maus momentos. Nas derrotas, conta que é preciso limpar o chip, seguir em frente, dar tudo. Olha para a evolução do futebol feminino e refere que ser mulher e jogar à bola ainda é complicado. “Temos de ter sempre um plano B ou um plano A para o futebol ser um plano B. Ainda é um bocado duro”, diz.
És a jogadora com mais tempo de jogo no Amora, o que demonstra confiança nas tuas capacidades. Sentes isso, essa responsabilidade?
Sim, sinto-me confiante e sinto que as minhas colegas têm confiança em mim. Esta fase é complicada, apesar de tudo elas não perdem a confiança em mim, nem a equipa técnica perde a confiança em mim, porque dou sempre o meu máximo. Posso achar que não vou defender aquela bola, mas vou dar o meu máximo. E dou o corpo às balas.
Se for preciso varrer uma adversária, tenho de varrer uma adversária – já aconteceu e fui para a rua nesse jogo. Elas sabem que eu vou dar tudo de mim. Se tiver de sair do campo com uma perna partida, saio do campo com uma perna partida. Mas dou tudo. E elas sabem isso e sentem confiança em mim.
Ser guarda-redes é sempre uma posição ingrata, não é?
Sim.
Tudo muito concentrado nessa posição? Sentes isso?
Já senti que se uma guarda-redes não se sente confiante, as colegas não se vão sentir confiantes. Se há um erro, se a guarda-redes já se manda abaixo, elas ainda mandam mais abaixo.
É preciso ser mentalmente forte? A parte física é importante, a parte mental também?
Sim, é preciso ser muito forte psicologicamente para se poder lidar com tudo isto. Sofrer um golo, sendo nossa culpa ou não, mas principalmente se for, é preciso limpar o chip que a seguir o jogo continua. Podemos sofrer um golo ao primeiro minuto do jogo, ter de limpar o chip e aguentar mais 89 minutos.
Tenho uma pressão sobre mim própria a dizer: fogo, deixei entrar este golo, agora estamos a perder 1-0, a equipa não está a chegar lá, não acredito que vamos perder o jogo por um erro meu. É preciso limpar o chip, se não o fizer é sempre para baixo: fiz isto, o que devia ter feito, o que não devia ter feito, em vez de ajudar, só piora. E não queremos que piore, queremos que melhore para estarmos a 100% lá dentro e aí é que se percebe quem está realmente pronto e quem é que não está.

Sempre foste guarda-redes?
É uma história engraçada. Quando comecei a jogar, só queria jogar futebol, sempre gostei de jogar futebol.
Tinhas que idade?
Tinha 12 anos. Num jogo-treino, que por acaso foi contra rapazes do Amora, não tínhamos guarda-redes e eu perguntei ao míster se podia ir para a baliza. Ele disse que sim, vai, vai. Eu fui, correu bem, e no final do jogo perguntou-me se eu queria ser guarda-redes. Eu disse que sim.
Sabes que dizem que as guarda-redes são um bocado malucas?
Sei, já ouvi falar muito disso. Mas não sei a que se refere, eu não sou maluca.
És uma guarda-redes agitada ou tranquila?
Considero-me uma guarda-redes tranquila, tirando quando me irritam. Mas é muito raro isso acontecer.
Considero-me uma guarda-redes tranquila, tirando quando me irritam. Mas é muito raro isso acontecer.
Beatriz Painço
Quando estás a defender um penálti, o que te passa pela cabeça?
É olhar para a adversária, para a jogadora, e pronto.
Estudas a adversária antes? Ou é difícil?
Depende. Na medida em que jogo na 2.ª Divisão há alguns anos, já conheço algumas jogadoras, já sei como é que elas são. E, às vezes, só do jogo jogado já consigo saber o que vão fazer. O próprio corpo delas, o olhar delas para mim, às vezes, costuma dizer muito. E ajuda a tomar a decisão do lado dos penáltis, basicamente.
Sais do Benfica, vens para o Amora, estás agora na 2ª Divisão. Terminando a época, quais as expetativas?
Gostava de conseguir um contrato ou tentar ir para um patamar acima. Se não der, se ficar no Amora, é dar tudo para subir para a Liga BPI.
Qual o teu maior sonho no futebol?
Neste momento, era chegar à seleção, se não fosse à A, à Sub-23, ainda tenho idade para isso. Era pelo menos ir a um estágio da seleção nacional.

Tens curiosidade de viver esse momento? Seria o reconhecimento do teu valor?
Sim, é o reconhecimento daquilo que já fiz no passado, de querer experimentar e poder representar o meu país. É o que toda a gente quer, acho eu.
Acompanhas os jogos da seleção?
Sim, acompanho mais a seleção A, mas também costumo acompanhar as Sub-19 e as Sub-17 porque tem algumas jogadoras conhecidas, na altura do Benfica, que jogam lá e eu gosto sempre de acompanhar a evolução delas. Elas viram-me a crescer e eu vi-as a crescer também.
Estando no Benfica, numa equipa B, era semiprofissional, considerava-me semiprofissional. Treinava à tarde, tinha ginásio todos os dias, tinha cinco treinos por semana.
Tens experimentado vários contextos. Esses percursos dão-te robustez para seres a guarda-redes que és?
Sim. Acho que o facto de ter tido o privilégio de ter uma formação de cinco anos de Benfica, ajudou muito. Deu-me muita bagagem para quando saí poder estar num outro contexto. Tive a sorte que algumas jogadoras da minha equipa, ou muitas delas mais novas ou mais velhas do que eu, não tiveram, que foi poder estar a representar um grande que, por acaso, é o clube do meu coração, o que é muito bom.
Senti que me deu bagagem para ser não só a guarda-redes que sou em campo, mas também um bocado da minha personalidade, do meu ser. Lá está, a mística Benfica, ter o privilégio de ser um grande, que toda a gente quer, moldou-me um bocado. Estive no Benfica dos 14 aos 19 anos, portanto, foi ali aquela altura que me fez crescer, ajudou-me muito.
Notas essas disparidades na competição feminina? Jogar num clube grande, jogar noutro contexto…
São contextos diferentes. Eu, estando no Benfica, numa equipa B, era semiprofissional, considerava-me semiprofissional. Treinava à tarde, tinha ginásio todos os dias, tinha cinco treinos por semana. Depois vim para o Amora, no ano passado, quatro treinos por semana, duas vezes ginásio, jogo ao fim de semana. Condições tenho, mas o resto perde-se um bocadinho e é por aí que eu também sinto diferença. Dentro de campo nota-se que umas equipas estão mais bem preparadas que outras. O que vem de trás não está propriamente a favorecer os mais pequeninos, por assim dizer.
O mundo do futebol feminino é algo difícil. Para uma mulher, é complicado resistir no futebol?
Um bocadinho, temos oportunidades diferentes, mesmo havendo mais oportunidades, acho que, mesmo assim, ainda falta um bom caminho para lá chegarmos. Temos de ter sempre um plano B ou um plano A para o futebol ser um plano B. Ainda é um bocado duro.




