Betinha: “A parte mais bonita do futebol é em campo, com a bola nos pés” 

Betinha é avançada do Vitória, número 10, capitã de equipa. Começou a jogar com 14 anos. Era outra época, não havia formação na altura, entrou logo nas seniores. Jogava em terra batida, campos pelados, pernas arranhadas. Tem 35 anos e o amor ao futebol continua vivo. É perfecionista e reage mal a derrotas. Fica chateada e enfunada, confessa.

Betinha
Fotos: Igor Martins

Avançada com faro de golo?
Sim, gosto de marcar, gosto de marcar. 

É o teu regresso à Liga BPI. A competição está mais aguerrida, mais agressiva? 
Já joguei na 1.ª Liga. No ano passado, estávamos na 2.ª, que já está muito melhor a nível competitivo, mas nota-se diferença para a 1.ª, como é lógico. A 1.ª Liga é mais intensa em duelos, em treinos, em jogos, é tudo diferente. Estou a gostar. 
Estamos a fazer um início de época bom e com continuidade do trabalho, espero que a gente cumpra com os objetivos do clube. Acima de tudo, lutar por este símbolo. No ano passado, conseguimos uma histórica subida e sermos campeãs. Espero continuar a dar o exemplo por este símbolo, por este clube. 

Em sete jogos, marcas quatro golos, equipa está em 6.º lugar. Está dentro das tuas expetativas? 
O nosso início de época era complicado, saíram-nos logo equipas fortes, Benfica, Sporting, Racing. A nossa ideia era fazer o melhor resultado possível contra essas equipas, que sabemos que são muito fortes, e conseguimos até fazer bons resultados – pior com o Benfica, mas também foi o início do campeonato, o primeiro jogo. Depois conseguimos ganhar pontos a equipas fortes e fora de casa, o que é muito bom. Estamos a conseguir fazer um bom início de época. 

Ser capitã é uma responsabilidade acrescida. Qual o teu papel? Que mensagens transmites?
Eu sou um bocado explosiva. Era. Agora já penso muito no que vou dizer. Como capitã, uma pessoa tem de ter mais calma e usar as palavras corretas, tanto a nível do balneário, como a nível de jogo em campo. 
Sou muito rígida comigo e gosto de ser com elas também porque têm de ter alma a jogar, têm de ter raça. Eu sou assim e acho que este clube também é assim. E temos de usar isso a nosso favor. Tento transmitir um bocado isso e tentar com que elas deem sempre o melhor. 

És bastante perfeccionista, portanto. 
Muito perfeccionista, muito. Até a nível pessoal. 

Como reages a uma derrota?
Muito mal, sou sincera, já há muitos anos. Eu reajo muito mal à derrota. Quem me conhece sabe que fico sempre dois ou três dias chateada e enfunada. Se é aquele jogo que perdemos, e perdemos bem, fico chateada, mas se perdemos mal, fico ainda pior. Fico mesmo chateada. Ver que podíamos ter ganho o jogo e, se calhar, foi por nossa causa que não ganhamos, ainda fico pior. 

O jogo jogado está muito melhor. Dantes era quase só bater bola para a frente. Bola, central, pum, e as da frente que corressem.

Betinha

O que aprecias no jogo jogado? 
Muita coisa. Joguei sempre muito a médio ofensivo. Gosto muito do passe longo, uns bons golos, trocar a bola, jogar em jogo apoiado. É o que eu gosto e acho que temos qualidade para isso. Aqui, no Vitória, fazemos muito isso. Acho que isso é bom futebol. É ver taticamente e jogar apoiado para chegar lá à frente e fazer bons golos. 

Betinha

Qual é a parte mais bonita de futebol?
A parte mais bonita de futebol é em campo. É em campo. É jogar, é estar com a bolinha nos pés, como costumo dizer. Uma pessoa pensa: correr 11 atrás de uma bola? Mas é bonito quando se tem a bola nos pés, é bonito quando se faz bons golos. 
A parte mais bonita do futebol é aqui, em campo. E, depois, os laços que a gente cria, as amizades que a gente faz. Em muitos sítios somos como uma família. É uma equipa, é uma família. Então eu gosto muito do futebol por causa disso, se não tinha ido para um desporto individual. Para mim, estar em campo é o que me deixa mais feliz. 

Com idade começaste a jogar futebol? 
Com 14, há bastante tempo.

Tens 35 anos. Foi complicado, na tua altura, uma rapariga começar a jogar futebol? 
Foi. Comecei a jogar com 14 anos, comecei a jogar nas seniores porque não havia formação nessa altura. Jogávamos em terra batida, em campos pelados. Uma pessoa ficava toda arranhada nas pernas. Era outra época. 
Nós agora temos condições que não tínhamos antigamente, agora temos muita coisa. É o que lhes digo: aproveitem porque vocês agora têm tudo no mundo do futebol feminino e nós não tínhamos. Nós, às vezes, tínhamos quase de pagar para jogar futebol. E agora é o contrário. Acho que o futebol feminino está a evoluir, mas ainda consegue evoluir mais. 

Às vezes, tínhamos quase de pagar para jogar futebol. E agora é o contrário. Acho que o futebol feminino está a evoluir, mas ainda consegue evoluir mais.

Com o teu longo percurso, como vês o crescimento do futebol feminino em Portugal? 
Está a crescer bem, está a crescer gradualmente. Há dois, três, anos deu um salto gigante, mas acho que ainda tem muita coisa para melhorar o futebol feminino. 

Como, por exemplo?
Por exemplo, dar mais condições às equipas, dar mais condições às árbitras porque as árbitras não são profissionais. É importante que as equipas sejam o mais profissionais possível para dar condições às jogadoras. Se as jogadoras não tiverem condições, não são profissionais, como é que conseguem estar a 100% num clube? Como é que conseguem estar a 100% a dar ao futebol o que ele exige? Ainda tem de melhorar um bocadinho e acho que vamos conseguir melhorar com o tempo. Não é de um dia para o outro. 

Betinha

E na qualidade do jogo? O jogo jogado está melhor?
Muito melhor. Dantes era quase só bater bola para a frente. Bola, central, pum, e as da frente que corressem. Agora, sim, muito mais trabalhado, muito mais tático. Como digo, ainda consegue melhorar sempre mais um bocadinho. 
Sou muito fã de ver futebol, e não vou mentir, vejo futebol feminino, mas vejo muito mais futebol masculino. Adoro ver futebol e vejo qualquer jogo de futebol masculino. E claro que se notam diferenças de intensidade, de postura em campo, de agressividade. Agora já se nota muito isso no feminino e tem de crescer mais nisso também. 
Se calhar, a mulher é melhor a pensar, não quer dizer que os homens não sejam, mas acho que conseguimos melhorar outros aspetos e temos de melhorá-los no futebol feminino. Estamos muito melhor, muito, joga-se muito mais taticamente do que há muitos anos, sem dúvida. 

Chegaste a ir à seleção. Como foi?  
Cheguei, mas sou sincera, não tinha cabeça quando era mais nova. Não tinha muita cabeça, não gostava muito de sair da minha zona de conforto. Com os anos, uma pessoa também começa a crescer. 

Só jogas futebol? 
Só jogo futebol. 

Chegaste a trabalhar e a jogar? 
Sempre trabalhei e joguei futebol, sempre, porque não dava para viver do futebol. Há uns anos, tarde, mas consegui ser profissional no Famalicão. O primeiro ano de contrato profissional foi no Famalicão. Consegui cumprir esse sonho que tinha há muito tempo: só de jogar futebol. Foi tarde, mas não descartei e fui atrás desse sonho. 
Muitas jogadoras da minha idade, e que já passaram por isso, sabem que é pelo amor ao futebol. Estive num trabalho em que entrava à meia-noite e saia às oito da manhã. Dormia e depois ia treinar. Ao fim de semana, era o contrário, tinha jogos, era um desgaste enorme. Mas sempre com amor ao futebol, nunca deixei de jogar. Então era trabalho e futebol e sempre levei assim a minha vida. Saí do meu trabalho e fiquei só como profissional. 

Betinha, o que é, para ti, um bom jogo? 
Em primeiro lugar, fazer uma boa exibição e ganhar. É um bom jogo. Trazer a vitória, sempre. Ou seja, independentemente do jogo ser mais difícil ou mais fácil, é ganhar.