Depois do trabalho de escritório, dá treinos às terças, quartas e sextas à noite, das 21h às 22h15. “Nunca fui um treinador de treino sem bola. Gosto muito de treino com bola”, adianta. É muito exigente, treina sempre como se tivesse uma equipa sénior à frente. Tem insistido na parte física, grande parte das jogadoras estava parada há dois ou três anos. O Cucujães está na recém-criada IV Divisão Nacional. A equipa está unida, garante.
Como está a ser a experiência de treinar pela primeira vez uma equipa de futebol feminino?
É muito gratificante. Sabíamos que íamos encontrar muitas dificuldades porque foi um começo de época muito tardio. Tenho um grupo de atletas em que a maior parte já não jogava há dois ou três anos. A nível físico, isso notou-se nos primeiros jogos. Sabíamos que tínhamos muito trabalho pela frente, mas isso também nos desafia.
No feminino, tínhamos uma ideia de que, se calhar, poderia não haver tanto rigor da parte delas. E é o contrário. As mulheres são muito mais exigentes, têm primor no que fazem. Claro que precisam de melhorar alguns aspetos, na formação, na base, mas elas querem, querem muito. Estão em evolução e está a ser muito bom para mim.
Tem então uma equipa motivada.
Tenho uma equipa muito unida, muito unida, uma família.
A criação da IV Divisão foi uma boa ideia?
Acho que esta Divisão vem no seguimento dos custos dos clubes. Cada vez mais, os clubes têm um orçamento muito apertado, os dinheiros não são muitos. A Federação também pensa um bocadinho nisso, também não há muitas verbas para atribuir, e então acabam por tentar que as deslocações sejam o menor possível.
Posso dar um exemplo: uma deslocação a Viseu significa um custo de 500 e poucos euros para o autocarro, para uma equipa da IV Divisão, da III que seja, e não é fácil conseguir esse tipo de verbas.
Como treinador, qual o seu método de trabalho? Treinos mais intensos, treino físico, treino mais estratégico?
Nunca fui um treinador de treino sem bola. Gosto muito de treino com bola. Sou muito exigente, gosto de treinar como se estivesse a treinar uma equipa sénior, seja na formação, seja agora, como neste caso, no feminino. Gosto de treinar sempre bem.
No entanto, percebi que o nível físico não era muito elevado e, se forçasse a barra, perdia jogadoras, como já aconteceu. Tive de abrandar um bocadinho, trabalhar mais o aspeto técnico-tático. Estamos a procurar aprimorar, com bola, o aspeto físico. Vai ser preciso ao longo da época.
Gosto muito de treino com bola. Sou muito exigente, gosto de treinar como se estivesse a treinar
Carlos Mota
uma equipa sénior
Tem tudo anotado num caderno ou na cabeça?
Uso o programa, o dossiê do treinador, tenho tudo catalogado, e é tudo preparado. Saio do jogo e daqui a bocadinho já estou a preparar os três treinos da próxima semana. Elas recebem-nos no grupo do WhatsApp, aquilo que vamos fazer, o objetivo do treino. Tem de haver organização, não podemos chegar ao campo e não saber o que vamos fazer, como é óbvio.
Nas palestras, que mensagens tenta passar?
Não tanto aspetos técnico-táticos para o jogo, isso é dado durante a semana. É difícil tê-las cá todas nos três treinos, muitas trabalham ao fim de semana, que é uma dificuldade que temos no feminino. A maior parte trabalha em restaurantes, shoppings, multinacionais que funcionam à noite. Não é fácil dar esse aspeto técnico, mas mais, sim, a parte mental, a parte da união, a parte do espírito de grupo. É essa a mensagem que tento passar, mais de incentivo, do que vamos jogar assim ou assado.
A motivação é um dos maiores trunfos para o rendimento dentro de campo?
Deve ser, para já, o nosso ponto mais forte. Todas tentam ajudar umas às outras. É a motivação. Temos algumas jogadoras com qualidade. Temos uma jogadora que sempre jogou no Albergaria, já é jogadora de seleção nacional, a Luana Valente, que nos vai trazer também essa exigência. Temos outras jogadoras que trazem uma exigência de continuidade.
A motivação passa também pela parte do incentivo, de trabalhar bem na técnica, na tática, e no físico, claro, porque elas têm de ser intensas. O jogo feminino é muito intenso.
Faz scouting. Até que ponto isso o ajuda no seu trabalho como treinador?
Ajuda a perceber as características das jogadoras, de onde elas vêm, o que trazem para o jogo.
O futebol feminino é cada vez mais valorizado?
Sim. Tem de obrigatoriamente haver uma valorização dos clubes. Agora é penoso para a certificação dos clubes se não houver essa aposta no feminino.
Acho que os clubes devem apostar cada vez mais, principalmente na formação, que é o nosso objetivo a médio prazo. Já tivemos formação sub-17, sub-19 feminino. Faz parte. As mulheres têm todos os direitos, gostam deste desporto, como de outros. Querem isto não só pelo gosto do futebol, mas também pelo desporto.
Temos de trabalhar com tudo bem organizado
Carlos Mota
para que a época corra bem e cheguemos
ao fim com alguns objetivos alcançados
Quais têm sido os maiores desafios de trabalhar uma equipa pela primeira vez?
Foram muitas horas sem dormir para preparar a equipa. Trabalhar até à uma da manhã ao lado da minha mulher, na cama, ela a ajudar-me. Tenho tido um apoio familiar muito bom, não conseguiria sem isso. É muito importante, valorizo muito.
Chegar a esta fase do campeonato, toda a gente pensava que não íamos ter equipa, e ter equipa minimamente organizada, ainda não como quero e como o clube precisa, é gratificante. Temos de trabalhar com tudo bem organizado para que a época corra bem e cheguemos ao fim com alguns objetivos alcançados.
O primeiro, é moldar a nossa imagem, do clube, no feminino, que se estava a degradar nos últimos nove anos, não havia uma aposta séria. Esta é uma direção nova que tem feito de tudo para que elas tenham boas condições.
O básico é ter um kit de treino, elas nunca tiveram. Este ano, tiveram um kit de oferta. Temos algumas ajudas de custo para atletas que vivem mais longe, isso faz parte do futebol, e precisamos das jogadoras, morem aqui ao lado, no concelho vizinho, ou a 20 quilómetros.
Quantas jogadoras são?
Tivemos 21 inscritas, agora uma atleta desistiu por causa da universidade. Temos 20 inscritas neste momento.
Todas portuguesas?
Todas portuguesas.
Além de treinador, também trabalha?
Trabalho num escritório ligado ao ramo automotivo. Trabalho das 9h às 18h30 e depois treino.
Carlos, o que é, para si, um bom jogo?
Para mim, um bom jogo nunca vai ser espelhado numa vitória. Nunca, nunca, seja na formação, seja nas seniores. Um bom jogo é eu perceber que a atleta chegou ao fim e tirou alguma coisa, seja do que eu trabalhei, seja do que a adversária a obrigou a trabalhar. A tomada de decisão da atleta é que faz o jogo, não é o que o treinador treina.
Para mim, chegar ao fim de um jogo, de uma época, e perceber que aquele atleta, seja feminino ou masculino, está melhor, mais capaz, mais homem, mais mulher, mais desportista, está o jogo ganho. Para mim, são os valores que levo para o futebol.



