Catarina, Racing Power: “As experiências internacionais moldaram-me como jogadora e como pessoa”  

Catarina Realista joga no meio-campo do Racing Power, na Liga BPI. É competitiva, não se acomoda ao que é fácil e simples. Jogou em vários países e esteve na seleção nacional. O que mudaria no futebol? A forma como se olha para os jogadores e para as jogadoras como se fossem objetos ou máquinas.

Catarina Realista, Racing Power
Fotos: Maria João Gala/Magriça

Começou a jogar à bola no colégio e o seu jeito não passou despercebido numa altura em que nem sequer tinha clube. Cresceu, estudou, jogou, saiu do país para continuar a fazer as duas coisas e partiu para os Estados Unidos da América. Seguiram-se outras experiências, em Itália, Finlândia, Roménia. Foi chamada às seleções nacionais jovens, integrou um estágio na seleção A. Uma passagem mais curta do que pretendia. 

Catarina Realista tem 30 anos, joga na Liga BPI, trabalha no departamento financeiro de uma empresa. Tem o número 8 nas costas desde que começou a jogar. Era o número de um amigo do colégio, eram fãs um do outro, o 8 ficou. A época está a ser competitiva, o futebol feminino evolui e afirma-se, há cada vez mais meninas e mulheres a jogar. Voltar a sair de Portugal não está totalmente fora de hipótese. Catarina aprecia o campeonato australiano, talvez pelo país, e o campeonato espanhol, certamente pela qualidade.  

Sempre jogaste no meio-campo? 
Sim. 

E é onde te sentes bem?
É onde eu gosto de jogar. Houve uma ou outra época, por necessidade da equipa, que joguei a central. Na seleção Sub-19, na altura, era muitas vezes adaptada para central. 

Como és dentro de campo? 
Por surpreendente que pareça, sou mais calma dentro de campo do que fora, no sentido em que sou muito emotiva e quero ganhar e lutar até ao final. Sou mais controlada do que nos treinos, por exemplo. Nos treinos, vai tudo, detesto perder, super mau feitio a perder. Sou competitiva. Mas é essa competitividade que também leva a ganhar algo mais porque ficar conformada com o que é bom e simples também não leva onde se quer chegar. 

Jogaste na Finlândia, Itália, Roménia, Estados Unidos. De que forma esta experiência internacional e esta multiplicidade de contextos te definem como jogadora? 
Cada sítio, traz-me algo. Os Estados Unidos foram a minha primeira experiência fora. Saio de Portugal, tinha acabado o curso de Gestão Empresarial na Católica, o que vou fazer para o mestrado, ou era a Católica ou a Nova, ou então ia para fora. E como era jogar? Queria algo em que conseguisse conciliar os dois, estudar e jogar. E os Estados Unidos, por muitos defeitos que possa haver, neste contexto, é incrível. Numa brincadeira, mandei umas informações, como quem não quer a coisa, tornou-se uma coisa mais séria e disse aos meus pais que tinha entrado. 

É incrível porque permite conhecer diferentes contextos. Na altura, tinha ganho tudo o que havia para ganhar pelo Fofó dois anos seguidos. Estava nas melhores faculdades europeias, ou seja, melhor também era difícil. Então queria algo novo, algo mais, algo que fosse diferente. 

Cada espaço, cada sítio, dá-nos algo, aprendemos, nem que seja pela língua, essa parte mais básica. As condições que os Estados Unidos tinham, há oito anos, são muito melhores do que muitas que hoje temos aqui. Lá tudo é estruturado e é preciso dar todos os passos para chegar onde se pretende. 

Essas experiências moldaram-te como jogadora? 
Como jogadora e como pessoa. Cresce-se imenso. Primeiro, porque as diferenças culturais são enormes e, portanto, há essa adaptação. Perceber melhor as outras pessoas, o contexto de onde vêm, e como é que vêm, é das coisas mais interessantes que uma pessoa pode ter. É conhecer o outro e respeitá-lo. É respeitar, é perceber, é perceber as convivências. Por exemplo, há jogadoras que não gostam que lhe toquem, que haja um abraço. Ou seja, estes contextos, esta contextualização, este perceber, são bastante interessantes. No mundo de hoje, em que há tanto desrespeito pelo próximo e tanta discriminação por algo que é diferente, é interessante perceber os contextos. E trago isso para o resto da minha vida. 

Por surpreendente que pareça, sou mais calma dentro de campo do que fora, no sentido em que sou muito emotiva e quero ganhar e lutar até ao final.

Catarina Realista

Equacionas voltar a sair de Portugal para jogar? 
Gostava muito. Vim para Portugal mais cedo do que tinha planeado na minha carreira. Há dois campeonatos em que tenho algum interesse. Um é o australiano, acho que é mais pelo país do que se calhar pelo campeonato em si. E outro é o espanhol, que é mais perto, mais plausível. Não sei se vai acontecer, mas gostava de ter essas experiências. 

E como foi a experiência na seleção nacional?
Mais curta do que eu queria. Até à Sub-19, foi bastante intensa, tínhamos imensos estágios. Na altura, ter estatuto de atleta era quase impossível, vamos dizer assim. No primeiro mês na Católica, tudo muda, universidade, as diferenças, e eu não pus lá os pés durante mês e meio porque estava sempre em estágios. Voltava, ia, vinha. Estava três dias, ia-me embora, depois voltava e já tinha exames, nem sequer tinha ido a aula quase nenhuma. 

Na seleção A, só fui a um estágio quando estava nos Estados Unidos. Foi um estágio muito engraçado, em duas semanas fomos a três sítios diferentes, parecia uma maratona. Sou uma pessoa que, num contexto descontraído, sou bastante engraçada, com piadolas, com gracinhas. Quando estava lá, foi um bocado esse o registo. 

Quais as expectativas para esta época no RP?
Se tivéssemos falado no início da época, a resposta seria um bocadinho diferente. Neste momento, é aquela clássica resposta, é jogo a jogo. Inicialmente, queríamos ficar numa posição que nos permitisse atingir as competições europeias. 

A Liga BPI está competitiva, estando mais curta com 10 equipas, está mais exigente?  
Este ano, a Liga está bastante competitiva, toda a gente perdeu pontos. Se repararmos, todas as equipas perderam pontos com quase todas. Está competitiva nesse sentido. Agora se é competitiva para cima ou competitiva para baixo, já é uma conversa diferente. Mas acho que está bastante competitiva, a cada jogo é difícil trazer os três pontos, ou é empate ou é a margem mínima, à exceção de um ou outro jogo. Regra geral, anda muito por aí. Portanto, isso nota que há competitividade entre as equipas.

Catarina Realista, Racing Power

E este modelo? Liga BPI, 2.ª Divisão, 3.ª e a 4.ª esta época. Foi uma boa ideia abrir a 4.ª Divisão de acesso livre, em que se inscreveram 70 equipas? 
Acho muito interessante porque só mostra que há muitas meninas e mulheres que querem jogar. Há muita gente que gosta de jogar. E, às vezes, não querem bem aquela fase competitiva ou, se calhar, até têm um bocado de receio, e é uma boa fase introdutória, até que nem seja só por fazer o desporto de que gostam.

Tem-se notado um crescimento enorme. Antes tínhamos duas ligas e acabou, tínhamos três e passámos a quatro. E, realmente, havia a necessidade de quebrar entre a 2.ª e a 3.ª, acho que da 2.ª para a 1.ª há uma diferença grande, da 2.ª para a 3.ª então é enorme. E, portanto, também há que filtrar um bocadinho para que tudo se torne mais competitivo. 

Tinha 13 anos e jogava com pessoas de 38, 39, era o que era e tudo bem, e não tinham muita pena de mim.

Começaste a jogar com que idade? 
É uma pergunta complicada, ou seja, oficialmente em competições, comecei no Fofó, devia ter para aí 14, 15 anos, comecei “tarde”. A jogar, sempre joguei no colégio com os meus amigos, nos recreios, na seleção do colégio, nas competições Inter-Escolas, onde comecei com 13 anos, porque era a idade em que podíamos começar a jogar. 

No torneio de Inter-Escolas, com 13 anos, fui a melhor marcadora e chegámos a uma fase muito avançada na altura. A realidade é que eu não tinha equipa. É uma história engraçada, ligaram para a minha mãe a dizer que queriam falar com ela no colégio. A minha mãe a perguntar-me: “Catarina, o que é que se passou? É melhor dizeres já.” E eu, não aconteceu nada, quer dizer, não fiz um trabalho de casa, mas falei com a professora e ela, na altura, até foi bastante compreensiva, nem sequer marcou falta. E o telefonema era porque eu tinha sido pré-selecionada para a seleção distrital de Lisboa. Na altura, era o 1.º de Dezembro que tinha as miúdas todas, o Estoril…

E uma miúda do colégio… 
E uma miúda do colégio que nunca tinha jogado futebol de 7, no colégio era futsal. Correu-me bem, fui selecionada, fui com a equipa, fomos campeãs, jogava em quase todos os jogos, não era titular, mas jogava com bastante regularidade, era das mais novas e não tinha clube. Perguntavam-me como tinha chegado ali. Foi a partir daí que lá conseguiram convencer a minha mãe a deixar-me jogar. Era para ir para o Odivelas, que acaba, entretanto, e começa o projeto no Fofó. 

O futebol feminino tem crescido de uma forma estruturada em Portugal?
Acho que sim, no cômputo geral, sim. A criação das divisões, as obrigações dos clubes para jogar na Liga BPI, as ajudas das FIFA Pro, que são super importantes. Cada vez mais, precisamos de ser protegidas em várias situações que acontecem no dia a dia. Tudo isso é importante. Se repararmos agora quase todos os clubes têm uma academia, têm formação que não havia. Comecei a jogar com 13 ou 14 anos e fui logo para as seniores porque não havia outra coisa, ainda sou da velha geração. Tinha 13 anos e jogava com pessoas de 38, 39, era o que era e tudo bem, e não tinham muita pena de mim. 

Ajuda a crescer. 
Exato, ajuda a crescer, a lidar de outra forma com as situações. Mas a formação, que é uma parte importantíssima, era a parte da estrutura que não tínhamos. Tínhamos de saber fazer tudo, basicamente, fazer um passe bem, fazer um passe longo, posicionamento no campo. E hoje há formação, as infraestruturas também estão cada vez melhores, pelo menos na Liga BPI. Também dá para perceber que alguns clubes simplesmente não querem mais do que aquilo, e tudo bem, aceito, porque monetariamente não conseguem e há que aceitar a sua própria realidade. 

No final de contas, a entrada de equipas já com estrutura masculina ajuda bastante a esta evolução porque já têm tudo, ou seja, custos comuns que são partilhados. Depois só há mais um custo específico com a equipa e os ordenados e a equipa técnica. Porque o resto, o custo já existia e já era sustentado. 

Quando estive em Itália, foi incrível porque foi o ano em que deixaram de ser não profissionais e passaram para profissionais. Então vi essas mudanças nas equipas todas. Saí de lá a pensar mais dois ou três aninhos e vai ser das melhores ligas femininas. A seleção italiana está muito melhor, a Juventus, a Roma, já são faladas, já são referências. O investimento foi incrível. 

Se pudesses, o que mudavas no futebol? 
A forma como olhamos para os jogadores e jogadoras, por vezes, como um objeto e não como pessoas. É comum e é transversal seja no masculino, seja no feminino. Quando as coisas correm bem, são os melhores do mundo. Quando correm mal, não há comida, não há carro. Ou seja, nem 8 nem 80. Não esquecer que do outro lado são pessoas e têm sentimentos e, por momentos, não estão bem e noutros momentos estão incríveis. Às vezes, essa gestão é mal feita, num contexto geral, e é importante percebermos que do outro lado são pessoas e não coisas e não objetos e que as palavras e as formas como tratamos os outros têm direta influência naquilo que vai acontecer no pós. Para não falar da parte dos comentários que já me passa ao lado. Agora nesta parte que é mais pessoal, há uma mentalidade ainda, por vezes, muito retrógrada de que é com a punição que se vai lá. E é transversal ao masculino e ao feminino.