Daniel Pacheco: “Valorizamos muito o que uma jogadora é extra futebol” 

O treinador do Famalicão garante que a equipa está sólida e tranquila, depois do desce, sobe, volta a descer. A reação ao erro é o que, para si, diferencia as boas jogadoras, as fantásticas jogadoras e as maravilhosas jogadoras.

Daniel Pacheco
Foto: Igor Martins

Tem experiência de 1.ª Liga, treina para jogar, estuda a equipa adversária, analisa quais os pontos fortes e fracos dos dois lados. Uma das coisas que mais aprecia, numa jogadora, é a sua força mental, a forma como reage ao erro. E como é fora de campo, para além do futebol. 

O Famalicão está na II Divisão, na série Norte. A equipa está focada para, pelo menos, assegurar a manutenção. O ambiente no balneário sempre foi, para si, muito importante. Em relação ao dito crescimento do futebol feminino em Portugal, faz várias observações. Olha-se para a árvore e não para a floresta, comenta. 

Quais as expectativas para esta época?
Devido ao que nos aconteceu, e principalmente pela falta de tempo para reagir no mercado, saíram seis jogadoras que eram muito importantes no grupo de trabalho, tivemos de nos reajustar. O que foi pedido pela direção é que mantivéssemos o Famalicão na II Divisão, pelo menos este ano. Depois, depende do que vai acontecer, se vamos ao apuramento de campeão ou não, depende do que o clube pretende fazer no mercado de janeiro.
Nesta fase, é a manutenção, sim, sem dúvida.

O Famalicão teve um percalço, desceu à II, foi convidado a subir à I, voltou a descer. O abalo foi forte na equipa e na estrutura? 
A época passada era o início do projeto do Famalicão, de uma aposta clara na formação, e potenciar jogadoras jovens para o espaço de seleção. Diria que os objetivos foram muito conseguidos. Tivemos uma 2.ª volta muito acima de todas as expectativas. Depois, infelizmente, no play-off, aconteceu o que aconteceu. 
Quando fomos convidados para a Liga BPI, recebemos um e-mail, recebemos as bolas, recebemos as insígnias, recebemos tudo. Preparámos um plantel bem mais forte do que na época anterior. Havia muita expectativa só que, de repente, a quatro dias de fechar o mercado, soubemos que íamos disputar na II Divisão, e saíram jogadoras. Não podíamos dizer que não à saída das jogadoras, não havia como e, portanto, foi uma altura muito complicada. 
Só agora é que estamos finalmente preparados para disputar porque emocionalmente as jogadoras, e mesmo a própria equipa técnica, sofreram bastante. Acabámos por ficar no Famalicão quase num sentido de missão. Tínhamos sido nós a dar a cara na contratação das jogadoras, muitas vieram para cá por nossa causa, não podíamos abandonar o projeto e decidimos continuar. O que aconteceu teve um impacto muito grande no balneário.

Daniel Pacheco
Foto: Igor Martins

Não podiam contestar a decisão?
São decisões que me escapam completamente, são decisões da direção. A mim, cabe-me ter o grupo o mais emocionalmente saudável possível mediante isto, porque não há nenhuma jogadora neste balneário que não tenha vindo com a expectativa de Liga BPI. Portanto, vieram, aceitaram o projeto e, de repente, o projeto sofre uma transformação tão grande. 
Foi muito complicado, emocionalmente, controlar o balneário, houve muitas complicações. Tivemos um grande apoio por parte do clube, mas, no final do dia, quem tem de falar com elas e quem tem de recompor emocionalmente a equipa, somos nós, temos esse papel. Foi isso que fizemos e sentimos que nas últimas semanas já só estamos focados na nossa realidade.

“Foi muito complicado, emocionalmente,
controlar o balneário, houve muitas complicações. 
Tivemos um grande apoio por parte do clube”

Daniel Pacheco

A equipa restabeleceu-se e está motivada? Está a disputar para ir ao apuramento de campeão?
Sim, e também está a dar uma fantástica resposta na Taça de Portugal. Acreditamos muito que podemos dar prestígio e continuar com o prestígio que o Famalicão tem nessa competição. As coisas começam agora a andar, a equipa está mais sólida, está mais tranquila, e vamos ver. Não dependemos só de nós na última jornada para ir ao apuramento de campeão, mas acreditamos que pode ser possível.

O que privilegia num treino?
Nós, enquanto equipa técnica, e já temos alguns anos de Liga BPI, preparámos muito a equipa para o jogo. Treinamos para jogar. Enquanto equipa técnica, pensámos muito em preparar a equipa da melhor forma para jogar. Mostrar à equipa quais são os caminhos que temos pensados e estudados para ferir os adversários e esconder as nossas fraquezas. No fundo, é sempre isso. Funcionamos muito com o estudo do adversário, com uma adaptabilidade aos pontos fortes do adversário, sem nunca esquecer aquilo em que somos realmente fortes. É isso que fazemos. 
Nesta 2.ª liga, é bastante complicado porque há pouca transmissão de jogos, os jogos são todos à mesma hora, a observação dos adversários é complicada. Mas diria que já estamos adaptados e já estamos a começar a dar algumas respostas possíveis.

Quais as qualidades que uma boa jogadora deve ter?
Das coisas que mais gosto numa jogadora é a sua força mental, a forma como ela reage ao erro. O erro faz parte do jogo, todos os intervenientes do jogo erram, a forma como reagem é que diferencia, para mim, as boas jogadoras, as fantásticas jogadoras e as maravilhosas jogadoras. 
Quando fazemos scout de jogadoras, valorizamos muito o que ela é extra futebol. Se há alguma fama que temos é a de nunca termos grandes problemas no balneário porque nessa seleção – é evidente que ligamos à qualidade da jogadora – ligamos também muito àquilo que a jogadora é extra campo, como é fora do campo, como será dentro do grupo de trabalho, como reagirá em algumas situações adversas. São coisas que valorizamos muito.

Ligamos muito àquilo que a jogadora é extra campo, como é fora do campo, como será dentro do grupo de trabalho, como reagirá em algumas situações adversas


Como prepara um treino? Tudo anotado ou tudo na cabeça? 
Tem muito mais metodologia do que isso. No final de cada treino, discutimos o que foi o treino e apontamos o que queremos na próxima unidade de treino. Portanto, já sai daí quase um esboço. Depois é disponibilizado, num grupo, a unidade de treino, até às 17 horas. Depois, até às 20 horas, entramos ali num processo de discussão, quase exercício a exercício. E sai a unidade de treino que, no próprio dia, pode ser alterada, basta uma jogadora não estar disponível, pode ter passado mal à noite, está em sobrecarga, é retirada do treino. O que pode alterar algumas coisas. 
No pré-treino, discutimos como vamos realizar a unidade de treino, as especificações de cada elemento da equipa técnica, o que é que faz em cada exercício, e depois temos o treino. É uma coisa muito organizada, com os tempos de pausa muito pensados, o tempo de água, tudo muito estruturado.

Daniel Pacheco
Foto: Igor Martins

Sempre preparado para jogar com 10?
Sim. Em situações de treino, às vezes, simulamos com 10, com algumas situações reais do jogo. Mas não é uma preocupação assim tão grande.

Experiência na Liga BPI, a acompanhar o futebol feminino há bastante tempo. O crescimento do futebol feminino em Portugal tem sido robusto e continuado ou tem algumas fissuras?
Tenho as minhas posições sobre esse crescimento tão bem tratado, a nível de marketing, por parte de muitos órgãos. Vou um bocado em contraciclo. Não acho que o futebol feminino em Portugal tenha crescido assim tanto. Tenho muitas dúvidas sobre para onde é que se está a alocar a parte financeira do futebol feminino. 
Tenho opiniões diferentes. Acho que não se está a olhar para onde se deveria olhar. Acho que se está a gastar dinheiro em coisas que são bons produtos de marketing, tipo o VAR, a forma como se está a apoiar as equipas da Liga BPI, e depois esquece-se tudo o resto. Olha-se só para a árvore e não se está a olhar para a floresta. 
Preocupa-me muito como é que se está a trabalhar na formação da menina no futebol, como é que se está a trabalhar a formação da jovem no futebol, porque recebemos jogadoras na equipa sénior com muitas dificuldades em coisas elementares, coisas que deveriam ter trabalhado na formação. Nota-se que se devia apostar muito mais e dotar muito mais financeiramente a formação do que na realidade se está a fazer em Portugal. 
Olhamos para a Liga BPI este ano, e a Liga BPI está bastante competitiva, é verdade, é indesmentível. Está bastante competitiva. Mas porquê 10 equipas? Porque não 14? Porque não 16? Porque não 12, numa altura em que os principais campeonatos estão a pensar ter mais equipas e algumas já o fizeram? São decisões que tenho dificuldade de entender. 
Em última instância, e é uma parte a que sou muito sensível porque tenho outra atividade profissional que trabalha diretamente com essas questões, é a parte social e a responsabilidade social do futebol feminino com as meninas e a forma como, se calhar, não se está a olhar para meninas desfavorecidas que poderiam ter no futebol um papel importante nas suas vidas.

“Olhamos muito para os comportamentos da equipa com bola, sem bola, como é que reage a estes intervalos entre a organização ofensiva e a organização defensiva”

Daniel, o que é, para si, um bom jogo?
Um bom jogo é quando ganho. Sempre. Essa é a primeira resposta. Há duas semanas disse à equipa, no jogo contra o Albergaria, que tinha sido um dos jogos, enquanto treinador, que mais prazer me tinha dado. E empatámos 0-0. Senti que a equipa controlou todos os momentos do jogo, esteve ligada em todos os momentos do jogo, foi uma equipa muito afirmativa. Tivemos imensas situações de perigo, foi um jogo em que a equipa cumpriu, na sua plenitude, o plano de jogo, e foi capaz de ser bastante afirmativa com e sem bola. 
Olhamos muito para os comportamentos da equipa com bola, sem bola, como é que reage a estes intervalos entre a organização ofensiva e a organização defensiva. Por exemplo, ficamos muito felizes, e mostramos isso às jogadoras em vídeo, quando perdemos a bola e temos oito jogadoras, de repente, a correr para trás sem bola. São esses momentos que valorizamos porque isso é reflexo do nosso treino, é reflexo do nosso trabalho, é reflexo também do próprio espírito da equipa. Tudo o que seja o ambiente que se vive dentro do balneário, para nós, é o mais importante.