Das etapas mais difíceis e complexas: a transição de júnior para sénior 

Passar do contexto júnior para o patamar sénior é um momento delicado e sensível. Há dificuldades no processo, desde logo, a adaptação. Bernardo Licastro, ex-jogador do Flamengo, analisa este tema na sua tese de mestrado.

Futebol
Foto: Igor Martins

A passagem do escalão juvenil para o sénior é, por um lado, dos momentos mais sensíveis e difíceis na trajetória desportiva de uma jogadora de futebol. E, por outro lado, um marco importante e determinante no seu desenvolvimento desportivo. É um processo difícil. E as adversidades vividas na pele têm impacto no percurso das atletas a vários níveis: seja no aspeto físico e técnico, seja na exigência competitiva, ou ainda na falta de apoio familiar ou na pressão por parte dos treinadores. 

Bernardo Licastro, ex-jogador do Flamengo, atualmente Personal Trainer, chegou a treinar uma equipa de meninas de sete e oito anos em Portugal, analisou o assunto na sua tese de mestrado em Treino Desportivo intitulada “O processo de desenvolvimento desportivo a longo prazo das jogadoras de futebol em Portugal”, apresentada na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto no ano passado. 

Há desafios pelo caminho, como é óbvio, desde o escalão mais baixo até chegar a uma equipa sénior. Há entraves, há dificuldades, há também alegrias. “Do ponto de vista das jogadoras, esta trajetória de desenvolvimento encaminha-as para experiências únicas e reflexões profundas, porquanto desde tenra idade convivem com a desconfiança, a incerteza e o preconceito”, refere Bernardo Licastro na sua tese. Jogadoras e treinadores sublinham momentos críticos na formação e na transição para a equipa sénior, assim como obstáculos para a manutenção das atletas e desejo de viverem apenas do futebol. 

Esta transição é peculiar devido às dinâmicas organizacionais dos clubes e aos objetivos referentes à formação e seleção das jogadoras com potencial talento

Bernardo Licastro

Uma das atletas entrevistadas, para este trabalho académico, afirma que a componente mental das jogadoras requer maior atenção e refere que a falta de apoio, as discrepâncias dos contextos futebolísticos, e o tratamento rude de treinadores não capacitados interferem na parte psicológica das jovens jogadoras. A atleta, de Liga BPI, diz o seguinte: “Todos os clubes deveriam dispor de profissionais especializados na área psicológica. Nós, raparigas, apresentamos uma natureza única e diferente dos homens, temos de ter outro tipo de abordagem para alavancar o nosso rendimento até mesmo pelas questões biológicas que se alteram em algumas fases da vida.”

Outra jogadora, também entrevistada para a tese, aborda a falta de competitividade nos escalões de formação em Portugal e como esse problema condiciona o desenvolvimento de competências psicológicas das jogadoras, sobretudo numa fase mais avançada da sua carreira, particularmente quando alcançam o futebol sénior. 

“A formação também é um momento importante para formar a capacidade de resiliência das atletas à adversidade. A falta de competitividade nos escalões de formação gera comodidades às atletas, que ao se depararem com dificuldades posteriormente não sabem lidar porque nunca foram expostas a concorrência. Isto é visível na transição de muitas atletas para a equipa sénior”, partilha essa jogadora. 

Há treinadores que acreditam que retirar as jogadoras das suas zonas de conforto favorece a adaptação e a transição do escalão júnior para o patamar sénior

Bernardo Licastro

Os treinadores também abordam o assunto e sustentam que o desenvolvimento das atletas exige tempo, atenção e convívio com jogadoras mais experientes. As principais lacunas são ao nível técnico, tático e físico, relacionadas com o contexto onde as atletas foram formadas. “No nosso clube buscamos diminuir a diferença do escalão sénior para a formação trazendo duas, três atletas por semana para integrar a semana de treinos do plantel sénior, pois acreditamos que gerar desconforto nas atletas geram melhores adaptações do que manter as jogadoras na zona de conforto”, comenta um dos técnicos entrevistados para a tese de mestrado. 

As dificuldades dessa transição para o futebol sénior levam a um abandono considerável da prática de futebol entre as jogadoras. Por várias razões: falta de suporte financeiro e de políticas públicas voltadas para o desporto, falta de apoio familiar, falta de contratos profissionais para todas as jogadoras da equipa. Motivos que, muitas vezes, acabam por resultar no abandono desportivo ou na prática desportiva sem intenção de uma projeção de carreira ao mais alto nível. 

“Esta transição é peculiar devido às dinâmicas organizacionais dos clubes e aos objetivos referentes à formação e seleção das jogadoras com potencial talento”, escreve Bernardo Licastro. E acrescenta: “Os resultados deste estudo ressalvam que o progresso da jogadora ao longo da sua carreira desportiva compreende a ocorrência de ‘micro-transições’ entre diferentes escalões na formação até ao alcance da equipa sénior, devido a diversas circunstâncias, como, por exemplo, a insuficiência de jogadoras para completar uma equipa, remetendo, assim, por vezes a uma especialização forçada.”

A adaptação é crucial. Por vezes, corre bem. A bagagem adquirida na formação, em diferentes clubes, facilita o processo. Outras vezes, nem por isso. Há experiências menos positivas que dificultam essa passagem. Na literatura, uma transição bem sucedida é aquela na qual são superadas as exigências impostas e a atleta continua a jogar futebol. Uma transição falhada é quando a jogadora não consegue superar os períodos críticos da sua evolução. Na literatura e na prática.