Diz-nos como é o teu treinador, dir-te-emos como jogas 

O papel de quem treina nas habilidades técnicas, no desenvolvimento pessoal da jogadora, na promoção de valores que extravasam o contexto desportivo, na formação de cidadãs conscientes das suas funções. Bernardo Licastro analisou tudo isso na sua tese de mestrado.

treinador

O papel e a postura dos treinadores e treinadoras nos treinos, nos jogos, nas palestras, durante muitas horas ao longo de semanas, meses, anos, são aspetos importantes no mundo do futebol feminino. Um treinador autoritário? Um treinador mole? Uma treinadora dura? Uma treinadora desorganizada? Um treinador focado apenas nos resultados? Um treinador que percebe o talento e o potencia? Uma treinadora com inteligência emocional que pressente maus momentos pessoais? Um treinador que sabe ler nas entrelinhas? Uma treinadora que é mentora e um modelo? Vamos falar do assunto.  

Bernardo Licastro jogou futebol no Flamengo, no Rio de Janeiro, dos 11 aos 20 anos, defesa direito, chegou à equipa principal, ficou sempre no banco. Viajou para Portugal, o objetivo da Europa, jogou em vários clubes, treinou uma equipa de meninas de sete e oito anos. Natural do Brasil, há cinco anos que está em Portugal, é PT neste momento. No ano passado, já formado em Educação Física, apresentou a sua tese de mestrado em Treino Desportivo intitulada “O processo de desenvolvimento desportivo a longo prazo das jogadoras de futebol em Portugal”, na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Uma pesquisa num tema ainda pouco estudado e explorado. 

Os livros falam do assunto do lado da teoria. Os treinadores são importantes para alcançar patamares elevados de rendimento e promover experiências desportivas positivas, nos primeiros anos de futebol da jogadora. Quem treina é “frequentemente caracterizado pela delicadeza, amabilidade e carinho”, bem como pela “determinação de um ambiente de treino divertido e cativante.” Um clima de aprendizagem que motiva e faz continuar. Nas etapas seguintes, é outra conversa, há objetivos a cumprir nos treinos e nos jogos.   

Cada etapa do percurso desportivo do atleta apresenta aos treinadores desafios distintos, pelo que as suas competências devem ir muito mais para além do conhecimento específico do conteúdo, e situar-se, de igualmente forma, na formação pessoal e social do atleta

Bernardo Licastro

Bernardo Licastro conhece o meio por dentro e passou à prática no seu trabalho académico. Entrevistou quatro treinadores e oito jogadoras da Liga BPI, com idades entre os 20 e os 55 anos. Os seus resultados mostram o treinador como parte imprescindível do processo de evolução das jogadoras, abrangendo não só o treino das habilidades técnicas, táticas, físicas, mas também o seu papel e contributo no crescimento pessoal. É uma referência, uma segunda família, uma presença constante na rotina das jogadoras. 

E não só. Há outros fatores a ter em conta: o processo e a relação com as jogadoras. Quem treina fala em perceber o desenvolvimento da atleta, as faixas etárias, as tarefas específicas, até mesmo o grau coletivo de amadurecimento, as capacidades técnicas, táticas, físicas e motoras. Não apenas trabalhar com foco na conquista de títulos e desejos pessoais. Não basta conhecimento especializado, é preciso saber comunicar o que se sabe e o que se pretende, saber organizar conteúdos e metodologias de treino, saber transmitir o que se quer dizer e fazer à equipa. O seu papel vai além do que acontece em campo. “A influência do treinador abrange não apenas a influência na evolução profissional da jogadora, mas, sobretudo, no desenvolvimento pessoal e social”, realça Bernardo Licastro.

Neste enquadramento, a imagem associada à sua representatividade atua como um modelo a ser seguido, transmitindo comportamentos e atitudes que podem impactar as escolhas e a conduta das jogadoras fora das atividades desportivas.


As jogadoras valorizam certos aspetos de quem treina: organização, conhecimento académico, experiências práticas, planeamento para não queimar etapas, bom entendimento do contexto desportivo da época, consciência das fases biológicas. Quem treina é, muitas vezes, visto como um pilar fora do cenário familiar. Tudo conta, tudo importa: o modo como atua e interfere, como respeita quem joga, como chama a atenção de forma educada, como lida com a jogadora que não está bem física ou emocionalmente, como apoia e motiva, como tem consciência do seu papel. 

“As jogadoras consideram que os treinadores possuem um papel determinante para gerar um ambiente motivador e propício ao desenvolvimento pessoal e profissional da jogadora. Consideram, igualmente, que o treinador precisa de ser um bom gestor, característica fundamental no contexto desportivo atual, principalmente quando se trata do sexo feminino, como relatam as próprias jogadoras de acordo com as especificidades da sua natureza”, sublinha Bernardo Licastro na sua tese de mestrado. 

Ademais, é necessário ressalvar o papel do treinador na promoção da igualdade de género no futebol feminino, particularmente no que concerne em potenciar as capacidades das jogadoras a desafiar estereótipos e superar desafios específicos que as respetivas enfrentam no meio futebolístico.


O trabalho académico mostra que quem treina é o maior responsável pelo conhecimento técnico e tático das jogadoras e que tem um papel e uma responsabilidade determinantes no desenvolvimento pessoal e social de quem joga, ao promover valores como respeito, trabalho em equipa, cooperação. “Os resultados deste estudo apontam a importância deste agente no desenvolvimento técnico e tático como um aspeto fundamental para o sucesso de qualquer jovem jogadora e equipa desportiva”, refere Bernardo Licastro.

O desempenho e empenho em campo estão ligados a tudo isso. “Está intrínseco à função do treinador alavancar a aquisição das competências essenciais da modalidade e potenciar o desenvolvimento das suas jogadoras. A transmissão do conhecimento específico sobre técnicas, movimentos e estratégias de jogo requerem capacidade de análise dos treinadores para identificar e adaptar os seus métodos de treino às necessidades das jogadoras, de forma a maximizar o potencial individual e coletivo”, sustenta.  

Resumindo, os resultados do seu estudo indicam a importância de quem treina no desenvolvimento pessoal e social da jogadora e, consequentemente, na promoção de valores que ultrapassam o contexto desportivo. “Pelo que o treinador detém um papel fulcral na formação de cidadãs conscientes de suas funções, engajadas com seus deveres e responsáveis na sociedade”, conclui Bernardo Licastro.