Eliana, Lusitânia de Lourosa: “Às vezes, até falo demais, tenho o coração muito perto da boca”

Eliana Pinho é defesa e uma das capitãs da equipa do Lusitânia de Lourosa, na 4.ª Divisão. Tem mais de 20 anos de bola nos pés e sente que se demorou demasiado tempo a dar a devida importância ao futebol feminino. Acredita que a seleção estará no Mundial.

Eliana Pinho, Lourosa
Fotos: Maria João Gala/Magriça

Nunca foi de brincar com bonecas quando era pequenina, era mais bola nos pés. Começou a jogar logo como sénior, com 15 anos, era como era nessa altura. Aos 37 anos, continua a jogar, a paixão fala mais forte, os sonhos foram-se desfazendo com o tempo. É a sua segunda época no Lusitânia de Lourosa, depois de ter passado por vários clubes. 

É uma das capitãs da equipa, garante que o grupo está motivado, que há união no balneário. É aqui, garante, que se começam a ganhar os jogos. Eli, como é tratada, tem algumas observações a fazer sobre o futebol feminino. “Esquecemo-nos muito das mulheres como jogadoras e isso fez com que, neste momento, se calhar, em termos mundiais, sejamos um dos países mais retrógrados no futebol”, afirma.  

Segunda época no Lusitânia de Lourosa. Em que clubes já jogaste? 
Já joguei no Feirense, na Ovarense, no Cesarense e na Oliveirense, que foi o primeiro clube em que joguei. 

Alguma experiência, portanto. 
Sim. 

Como nasce esta paixão por jogar futebol?
Desde que me conheço que esta paixão existe. Nunca fui, mesmo em pequenina,  de bonecas, era de bolas. Portanto, acho que esta paixão pelo futebol já nasceu comigo. 

O que aprecias no jogo jogado? 
O espírito de equipa. Costumo dizer que se só pensasse em mim, no jogo, ia para um desporto individual. O que aprecio mais é o espírito de equipa, o coletivo. Só assim é que é possível jogar futebol. Começar primeiro com um bom balneário e depois o jogo cá fora. 

Como uma das capitãs, sentes uma responsabilidade acrescida? 
Sim. Neste momento, há bastantes jogadoras mais novas e tento passar, em 20 anos de futebol que já jogo, o que é a união, o que é o espírito do balneário e isso traz mais responsabilidades.

Vinte anos de futebol. Como vês o crescimento do futebol feminino em Portugal? 
Acho que já podíamos estar num patamar diferente, mas acho que nestes últimos anos tem havido um bom progresso. Ao olhar 20 anos atrás, se tivéssemos as oportunidades que, neste momento, as mais novas têm, o futebol já estaria num patamar muito superior. 

Portanto, perderam-se alguns anos para que crescesse mais cedo? 
Sim, esquecemo-nos muito das mulheres como jogadoras e isso fez com que, neste momento, se calhar, em termos mundiais, sejamos um dos países mais retrógrados no futebol. 

Se olhassem para as mulheres, para o futebol feminino, de outra maneira, estar no Mundial não seria um sonho, mas sim uma realidade

Eliana Pinho

E como olhas para a seleção nacional feminina? 
Acho que ainda temos muito a evoluir. Estamos a dar passos pequeninos, mas estamos a dar passos no caminho do progresso. 

É possível a seleção estar no próximo Mundial? 
Acho que é possível, mas, lá está, se olhassem para as mulheres, para o futebol feminino, de outra maneira, isso não seria um sonho, mas sim uma realidade. 

Eliana Pinho, Lourosa

Como capitã, és uma voz de comando dentro do campo? 
Sim, tento ser, às vezes até falo demais, tenho o coração muito perto da boca, mas faz parte de mim. E como defesa central, vejo o jogo todo, somos as primeiras, e temos de olhar para a equipa e ver os pontos fortes e os pontos fracos que estamos a ter no momento. 

A equipa está na fase de subida, é difícil, só passa uma. Vocês estão motivadas para o que se segue? 
Sim, estamos motivadas, é para isso que trabalhamos todos os dias, que vimos para aqui e treinamos faça chuva, faça sol. Temos muitos pontos a melhorar como clube, como equipa, mas no que depender de nós, naquilo que controlamos, vamos fazer tudo para sermos essa equipa que vai subir. 

Como está o ambiente no balneário?
Temos um bom grupo, formamos um bom grupo, fomos buscar miúdas com muita qualidade, que formam um bom balneário, que é o mais importante. Começa-se a ganhar jogos no balneário e estamos motivadas. 

E as palestras do míster incentivam ainda mais a equipa? 
Sim, às vezes acho que ele poderia ser um bocadinho mais duro, exigir mais, mas também trabalhou muito tempo sozinho, só nesta época é que tem uma equipa técnica, que se possa dizer mesmo equipa técnica, e acho que isso é uma mais-valia para nós.

Quando comecei a jogar, nem sequer tínhamos na ideia podermos jogar num sintético, quanto mais no revelado, era sempre em campo pelado

O Lourosa tem boas condições para jogar futebol? 
Sim, no mínimo das condições que há, sim, temos boas condições. 

Voltando ao início, começaste a jogar futebol com rapazes? 
Não. Comecei a jogar, tinha 15 anos, como sénior, só existia sénior na altura. Comecei, felizmente, com raparigas. 

Tinhas ou tens algum sonho no futebol?
Neste momento, já não tenho, jogo por amor à competição e ao futebol. Quando comecei a jogar, sim, tinha sonhos, mas como disse, o futebol não era em nada desenvolvido, nós jogávamos e nem éramos levadas a sério. Portanto, o sonho começou a desvanecer-se com o tempo. 

Apanhaste campos pelados e coisas assim? 
Sim, sim, aliás, quando comecei a jogar, nem sequer tínhamos na ideia podermos jogar num sintético, quanto mais no revelado, era sempre em campo pelado. 

Eli, o que é, para ti, um bom jogo? 
Um bom jogo, para mim, tem de aliar a qualidade de equipa, a resiliência, e ser coroado com a vitória.