Dia 23 de outubro de 2025. Clarinha faz a estreia pela Seleção Sub-20 do Brasil, calção azul, camisola amarela, número 20 nas costas. Um dia feliz por vários motivos. O primeiro jogo pelas Sub-20, o primeiro golo pela seleção, um momento vivido em Goiânia, onde nasceu há 19 anos. Neste jogo amigável com o México, a concretização de um sonho de criança. Aos 73 minutos, o golo, o seu golo, no Estádio Onésio Brasileiro Alvarenga.
“Foi uma sensação que até hoje não sei explicar, até hoje não estou em mim. O golo foi uma emoção brutal, a família lá a ver”, conta. No fim do jogo, o telefonema para Portugal e a mãe, o pai e a irmã numa explosão de alegria, num pranto de felicidade. “Tinha tudo para correr bem.” Correu maravilhosamente bem. “Estava a precisar de minutos de jogo para me sentir bem dentro de campo.” “Camisa pesada. Sorriso leve. Coração calmo. Alma feliz”, escreveu no Instagram.
A comunicação social de Goiânia não a largou, brasileira dali, a jogar em Portugal, a imprensa em cima do acontecimento, vários artigos de jornal. “Foi bastante engraçado”, diz, com um sorriso. Depois dos amigáveis com o México, Clarinha voltou a ser convocada. Está prestes a vestir novamente a camisola da Seleção Sub-20 do Brasil com dois jogos com a Argentina a 26 de novembro e com o Paraguai a 29 de novembro, no Centro de Treinos da Federação Argentina. Duas partidas de preparação para o Sul-Americano de 2026.

Estava a precisar de minutos de jogo para me sentir bem dentro de campo
Clarinha
Soube da primeira convocatória pelas redes sociais. Levava o seu cão aos treinos, tinha acabado de estacionar o carro, vai ao telemóvel, o Benfica acabava de anunciar essa presença. Abriu a página do Instagram da seleção brasileira e estava lá, estava convocada. “Começo a tremer, a chorar”, recorda. De imediato, ligou para a família. Uma emoção gigante, orgulho imenso. Na segunda convocatória, esperou pela hora marcada para assistir ao anúncio feito através do YouTube. Novamente convocada.
Clarinha está habituada a contextos altamente exigentes há várias épocas. No entanto, há algumas diferenças entre cá e lá. “Já tinha vivenciado a experiência de seleção nas Sub-17. Nessa altura, apercebi-me que são estímulos diferentes. Sempre disse que o futebol brasileiro, em si, é mais intenso fisicamente.” Desde então quis desenvolver-se fisicamente para estar sempre pronta para o que vier a seguir. “Nas Sub-17, não estava nada preparada, também não correu propriamente bem devido a isso. Nesta experiência das Sub-20, sinto que estava preparada tanto física como psicologicamente. E como estar no Benfica também é sempre exigente e temos de estar sempre no alto rendimento, acabei por sentir-me tranquila, mais à vontade, mesmo com a diferença de ritmos de jogo, ritmos de treino.” Adaptou-se, sempre recetiva a outras e novas aprendizagens. “Para mim, foi bastante bom, em geral, para querer desenvolver, quer na seleção quer no Benfica, estímulos para conseguir estar bem fisicamente”, refere.
Vivenciei quase todos os anos do Benfica, estou
no trajeto e é engraçado ver a evolução
Define-se como uma jogadora calma, fria a jogar, e criativa. “Gosto muito de fazer coisas diferentes, as pessoas sempre me viram dessa forma.” Criativa, acima de tudo. E não é supersticiosa. A forma como acorda é que decide o que faz em dia de jogo. Se acorda bem-disposta, fala com toda a gente, faz brincadeiras. Se acorda mais séria, phones nos ouvidos, mais no seu canto. Em caso de derrota, fica bastante chateada e sem vontade de falar. “Dependendo do jogo, fico com lágrimas nos olhos e vontade de chorar, principalmente se for uma derrota injusta. A querer marcar, a querer marcar, e a bola não entra, não entra, vai lá a outra equipa e marca, é bastante frustrante.” O dia seguinte é outro dia. “É acordar, limpar a cabeça, espairecer, e continuar a trabalhar.”
A brasileira Marta é e sempre será a sua referência máxima no mundo do futebol. “Por toda a história de vida que ela tem, quer no mundo do futebol, quer na vida pessoal. A maneira como ela gosta de fazer as coisas diferente, como ela é criativa, não só em termos de jogadora com bola, mas também sem bola.” E sempre a puxar e a ajudar a equipa.
Desde muito cedo que o futebol é a vida de Clarinha. Em bebé, estava sempre a mexer o pé esquerdo, pé sempre às voltinhas. Em criança, brincava mais com bolas do que com bonecas. Por vezes, ia com os pais ver o amigo Gonçalo jogar futsal no Amador de Penafiel. Certo dia, o treinador pergunta-lhe se não quer entrar, jogar, brincar. Tinha seis anos. Entrou, jogou, brincou, e nunca mais parou. Aos nove, estava a jogar futebol no Valadares e não passou despercebida. Aos 13, estava no Benfica.

Quem joga futebol, tem de ter bem os pés assentes
na terra e viver um dia de cada vez
O futebol tem-lhe dado muitas coisas: maturidade, felicidade, aprendizagens. “Deu-me bastante maturidade em relação a tudo, é a palavra que define estes anos do Benfica, fora do futebol.” Saiu de casa cedo, aos 13 anos. “Às vezes, é complicado, é difícil, olhar para trás e pensar perdi a minha infância, perdi a minha adolescência toda, mas acho que não se pode olhar muito para isso.” Há o outro lado, outras experiências, outra forma de estar na vida. “Também tem as suas vantagens, como é óbvio. Vejo pessoas da minha idade que não passaram pelo mesmo processo que eu, estão um passo mais atrás, eu lido com as coisas de uma maneira diferente.” E o Benfica é o Benfica. “Estar no Benfica é uma sensação completamente diferente, ainda por cima vivenciei quase todos os anos do Benfica, estou no trajeto e é engraçado ver a evolução.”
E o futuro, Clarinha? “Por enquanto, tento viver um dia de cada vez para ver o que vai acontecer na minha vida. No futebol, tudo pode mudar, as coisas podem estar bem agora e daqui a pouco estar mal, podem estar mal agora e daqui a pouco estar bem.” Não é um caminho linear, tem várias curvas. “Quem joga futebol, tem de ter bem os pés assentes na terra e viver um dia de cada vez”, afirma.
Sempre gostou de artes. Ainda pensou estudar arquitetura ou design de interiores. Agora, nos tempos livres, Clarinha passeia o seu cão e entretém-se a fazer vídeos e a tirar fotografias com a câmara que comprou. Adora videografia. “O plano a seguir ao futebol é o mundo das artes”, revela.



