Tem 29 anos. É modeladora de calçado e jogadora de futebol. Nos treinos, gosta de fazer jogo, trabalhar a pressão, trabalhar a técnica. Gosta de fintar e tem faro de golo. Subir à II Divisão é o objetivo e a equipa de Santa Maria da Feira está animada e feliz, garante.
Começou por jogar futsal. Na sua altura, não havia equipa de futebol feminino por perto. Queria jogar à bola e foi para o futsal que lhe deu experiência para o futebol. “Apanhei alguns jeitos do futsal, aquela fintinha curta, sair em espaços reduzidos.” Kika Nazareth é a sua referência. Pelo trabalho, pela dedicação, por tudo o que tem conquistado.
És uma jogadora com faro de golo?
Sim. Em todos os jogos que entro, por norma, marco golo.
Marcas sempre?
Sim, tem acontecido. É a estrelinha da sorte.
Só estrelinha da sorte ou também muito trabalho?
Acaba por ser também trabalho, mas acontece fluido, simplesmente. Acho que temos uma equipa boa para isso, basta estar no sítio certo. As coisas acontecem quando não pensamos tanto nelas. O facto de entrar, não pensar, acabo por jogar naturalmente e estou sempre na ação.
Algum jogo que recordes em particular?
A subida do Lusitânia de Lourosa para a II Divisão. Esse foi marcante porque foi até o fim, lutar até ao último jogo.
Marcaste golo?
Foi um jogo muito complexo. Marquei o primeiro golo, elas deram-nos logo resposta, tivemos de responder de seguida. Foi taco a taco, foi interessante, foi um bom jogo.
O que mais gostas num treino?
Jogar à bola. Fazer jogo, fazer jogos reduzidos, trabalhar a pressão, trabalhar a técnica. Gosto de fintar, gosto de explorar um bocadinho mais essa parte.
“As coisas acontecem quando não pensamos tanto nelas. O facto de entrar, não pensar, acabo por jogar
Fabi
naturalmente e estou sempre na ação”
Tens golos de cabeça? Ou é muito difícil?
Gosto de marcar de cabeça, mas é mais difícil.
Primeiro, jogaste futsal, depois passaste para o futebol. Futsal ou futebol, consegues escolher?
Neste momento, futebol. Pela liberdade que nos dão, pela liberdade que temos em campo, porque podemos fazer aquilo que queremos fazer, que gostamos de fazer, sem pensar tanto.
No futsal, temos o nosso sistema de jogo, temos de procurar muitos os apoios, temos de desenvolver mais um bocadinho essa parte. Por isso, opto pelo futebol, que era uma coisa que sempre quis desde pequenina, mas, na minha altura, não havia futebol aqui perto, na zona. Então, optei pelo futsal.

Cresci, fazia uma coisa que gostava, que era jogar à bola, acabei por apanhar alguns jeitos, aquela fintinha curta, o sair em espaços reduzidos, e isso ajuda muito no futebol. Agora estou a usufruir desta parte que sempre quis ter. Só aos 25 anos é que consegui jogar futebol.
Foste treinadora também. Como foi a experiência?
Fui treinadora na época passada, fiz o meu estágio aqui no Feirense. Fiz o curso de treinadora, temos de fazer um estágio, acabei por agarrar uma equipa de futebol feminino de sub-13. Foi uma experiência interessante, elas fazem tudo aquilo que nós queremos. Dizemos ‘é isto, isto e aquilo’, e elas cumprem à risca, tentam sempre aprender mais, têm aquele instinto de ‘vou fazer tudo bem e vou conseguir’, trabalham muito. Então é interessante ver o futebol feminino e ver uma parte que nunca vi, porque eu nunca joguei na formação do futebol feminino, muito menos contra rapazes. Ali, elas nunca desistiam, tinham uma força, e isso passa para nós também. A luta diária, em todos os treinos, em todos os jogos, elas nunca baixam os braços, lutam muito, e isso é incrível. Foi muito bom.
Festejo uma vitória em equipa, festejo aos saltos,
festejo a sorrir, um pouco de tudo. É entusiasmo,
é animação, é felicidade
Como preparavas os treinos para miúdas tão novas? Que mensagem transmitias?
A mensagem era muito simples: nunca desistir, não terem medo de falhar, arriscar. Se errarem um passo, se perderem uma bola, irem sempre na recuperação, têm de ser as primeiras a reagir. Fazer aquilo que mais gostam de fazer e ter confiança nelas próprias. Era só nisso que eu pensava e era isso que queria incutir nelas.
Há muita coisa que se perde nestas idades e temos de dar valor ao que elas têm de melhor. Queria que elas fossem felizes a jogar.
Quais as melhores qualidades de um treinador/treinadora, já que estiveste nessa pele?
É um bocado difícil dizer. Penso que é pôr-me no lugar dos atletas, saber o que sentem, o que precisam. Não é só saber jogar, meter lá algumas jogadoras e desenvolver os treinos e os jogos, é também conhecer as atletas, saber com quem trabalhamos, com quem podemos contar, personalidades totalmente diferentes que temos de agarrar. Cada uma vai fazer uma equipa e o melhor é uma equipa. Uma equipa ganha jogos, vence títulos, e um jogador sozinho não é ninguém. É por aí.
O Feirense pode subir à II Divisão. Como está a equipa neste momento?
Está feliz, está animada, está amiga, está um grupo. E isso é muito saudável para conseguimos ter um grupo no balneário, que vai passar lá para dentro, por isso é que estamos a ganhar jogos. Não interessa por quanto fica, mas sim a vitória, e sabermos saborear a vitória em equipa, em união.

Como festejas uma vitória?
Como festejo? Festejo em equipa, festejo aos saltos, festejo a sorrir, um pouco de tudo. É entusiasmo, é animação, é felicidade.
Como olhas para o crescimento do futebol feminino em Portugal?
Está a crescer, vejo mais crescimento. Na minha altura, era muito difícil, não tínhamos grandes oportunidades, não tínhamos muitos clubes. E, agora, em todos os cantos, há futebol e há futebol feminino. Está a evoluir bastante.
Na minha altura, era muito difícil, não tínhamos grandes oportunidades, não tínhamos muitos clubes
Quais as tuas referências no futebol feminino?
Kika Nazareth.
Porquê?
Também já jogou futsal, também pela posição, também pela boa disposição que ela traz, também por trabalhar muito, por tudo que conquistou ao mesmo tempo. A Kika teve de trabalhar para conseguir chegar onde está agora. E, lá está, é uma referência onde está.
Já viste algum jogo dela?
Ao vivo, não, mas gostava.
Qual o teu maior sonho no futebol?
Chegar o mais longe possível, embora a minha idade já me trava um bocadinho. Estou na III Divisão, quero voltar à II. Se conseguir ter mais uma época na I, gostava, logicamente.
Fabi, o que é, para ti, um bom jogo?
Um bom jogo, para mim, é quando conseguimos sorrir dentro de campo, conseguimos pôr em prática tudo aquilo que trabalhamos, e todas lutarmos pelo mesmo. E aí, no fim, vamos ter a vitória, juntamos o útil ao agradável. Isso, para mim, é um bom jogo. É o futebol completo.



