Filipa Ferraz fala das diferenças que assistiu e sentiu na pele ao longo dos anos no mundo do futebol. São muitas, das condições às oportunidades. O futebol feminino está a crescer e a afirmar-se. Em sua opinião, a inteligência pode distinguir as mulheres dos homens dentro de campo.
É a sua terceira época no Varzim, antes de passar por vários clubes. Começou a jogar aos seis anos com rapazes, tem agora 27. É uma jogadora bastante ativa, se tiver de mandar uns gritos para dar energia à equipa é o que faz sem qualquer problema. Um bom jogo, para si, é um jogo simples, disputado, muito pelo chão.
Já estás há algum tempo nesta equipa?
Sim, é a minha terceira época no Varzim. Já passei por alguns clubes. Iniciei esta prática desportiva aos seis anos, em Viana do Castelo, joguei no clube da minha terra, no Darquense, depois também no Vianense. Entretanto, passei por alguns clubes de futsal e voltei em 2020, ou um bocadinho antes, ao futebol novamente, em clubes de Viana do Castelo. Há três épocas que estou aqui no Varzim.
Quais as expectativas para esta época?
O nosso principal objetivo é a manutenção na 3.ª divisão. Se o conseguirmos ainda nesta fase, o objetivo depois é dar o nosso melhor na fase de subida.
Como está o ambiente no balneário, a equipa está unida? Como sub-capitã, a responsabilidade é acrescida?
Somos uma equipa amadora. Vimos para aqui, um bocadinho, como nosso hobby ou para nos livrarmos um pouco dos problemas do dia a dia, e o ambiente do balneário é essencial. Neste caso, temos um ambiente muito bom. Diria que nos clubes pelos quais tenho passado, penso que aqui temos um ambiente muito amigável, sempre umas pelas outras, com brincadeiras para ser mais leve. Nem sempre é fácil, vimos de uma fase de derrotas, então é um bocadinho difícil manter as pessoas ligadas e com o mesmo espírito. Mas tentámos sempre colmatar essas tristezas com o bom ambiente e com as brincadeiras dentro do balneário.
Como és dentro de campo?
Sou um bocadinho chata.
O que é esse “chata”?
Sou exigente comigo e também com as minhas colegas. Sou aquela jogadora que tem de mandar uns gritos para dar energia à equipa. Mesmo ao nível de treino, sinto que também sou esse tipo de pessoa. Nunca desvalorizar ninguém, mas tentar sempre tirar o melhor de toda a gente. Também sou muito brincalhona, portanto, tenho de ter um equilíbrio entre as duas coisas. Considero-me uma boa colega de equipa, neste caso.
Sou aquela jogadora que tem de mandar uns gritos para dar energia à equipa. Mesmo ao nível de treino, sinto que também sou esse tipo de pessoa
Filipa Ferraz
O que é que mais aprecias no futebol, no jogo jogado?
Como nós temos algumas limitações físicas, ou seja, não conseguimos ser tão competitivas como os homens, acho que o que nos distingue, muitas vezes, é a inteligência. E isso é o que mais aprecio no futebol feminino.
No meu caso, por exemplo, não sou uma jogadora rápida, mas tento ser uma jogadora inteligente a ocupar os espaços. Acho que acaba por ser um bocadinho isso que nos distingue e que me faz realmente gostar do futebol.
O futebol feminino tem crescido de uma forma sustentada e visível?
Sim. Por exemplo, quando iniciei a minha caminhada, tive de ir para o futsal porque não tinha perto equipas onde pudesse crescer. Na altura, havia em Braga, mas a distância era considerável, havia mais para a zona do Porto. Então, tive de optar por outra modalidade parecida, que até tinha menos praticantes na altura, para conseguir continuar esta minha paixão desde cedo.
Portanto, sim, considero que tem crescido muito. De certa forma, até é interessante ver que, se calhar, quando eu tinha a idade da Letícia, a jogadora mais nova da equipa e que já conseguiu ter outro tipo de carreira ou ter sempre equipas competitivas a jogar futebol, isso não aconteceu comigo. Como costumo dizer, nós, se calhar, abrimos portas para elas agora terem estas possibilidades e estas oportunidades.

As coisas estão melhores em termos de condições?
Sim, claro, falo por mim. Quando comecei a jogar, equipava-me num balneário que nem era balneário, era uma casa de banho. Jogava com rapazes, então nem sequer tinha um balneário para mim. Ou, às vezes, quando íamos aos jogos, eu tinha de tomar banho primeiro para depois tomarem eles.
As condições são completamente diferentes. Acredito que o facto de haver muitas mais raparigas a jogar, e quererem sempre mais, também estimula os clubes a apostar nas miúdas.
As condições são totalmente diferentes. Mesmo, aqui, o Varzim dá-nos condições para nós conseguirmos praticar futebol, mesmo não sendo profissional, consegue dar-nos equipamentos, equipamentos de treino, condições, transportes para os jogos. Há uns anos, teriam de ser os meus pais a levarem-me ao jogo, como hoje ainda acontece, se calhar, com muita gente.
Para mim, a simplicidade do futebol é conseguirmos com dois ou três toques desbloquear um jogo ou desbloquear uma defesa mais fechada
É natural haver uma discrepância entre a 1.ª e a 3.ª divisão? Ou as coisas deviam estar mais niveladas?
Acho que acaba por ser normal porque, lá está, estamos na 3.ª divisão, o futebol acaba por não ser o nosso trabalho. E também é normal que os clubes não consigam ter estabilidade financeira para nos remunerar e dar as condições que existem na 1.ª liga.
Acho que é um processo evolutivo. Há uns anos, a 1.ª divisão também não era profissional e agora está a ser. Se calhar, daqui a 10 anos estamos a falar outra vez e se calhar a 3.ª divisão feminina também é mais profissional. Com tempo e passo a passo é capaz de chegar lá.
Quais são as tuas referências no futebol?
Quando iniciei, tinha como referência Vanessa Marques, uma jogadora que, na altura, surgiu quando eu era mais nova. Agora já há muitas jogadoras, por exemplo, Andreia Faria, Andreia Norton, Kika Nazareth, jogadoras mais atuais e que podem servir para nós conseguirmos aprender mais com elas a nível tático, a nível técnico.
Mas diria Vanessa Marques no sentido em que quando eu ainda estava na outra fase, ela era uma jogadora em ascensão em Portugal e serviu como referência.
Ferraz, o que é, para ti, um bom jogo?
Para mim, um bom jogo é um jogo disputado, um jogo muito pelo chão, futebol simples. Para mim, a simplicidade do futebol também é isso, é conseguirmos com dois ou três toques desbloquear um jogo ou desbloquear uma defesa mais fechada. Um bom jogo, para mim, é um jogo disputado, mas que, acima de tudo, seja simples.



