O que aprecia numa jogadora? O querer, acima de tudo, responde. Querer treinar, querer aprender, querer fazer melhor, querer jogar, querer ganhar. Filipe Pádua chegou ao Rio Mau no ano passado, a meio da época, para treinar uma equipa que tem as suas especificidades, idades dos 15 aos 54 anos, desempenhos diferentes, algumas nunca tinham jogado futebol. Está contente com o trabalho, com o desempenho das atletas, e feliz com a oportunidade.
O formato das competições merece-lhe alguns reparos. Em seu entender, olha-se mais para os clubes de cima e esquece-se os de baixo. E as paragens prolongadas, de semanas atrás de semanas sem jogar, não são benéficas para as equipas. A cada treino, o técnico, que trabalha numa biblioteca, faz 64 quilómetros. São três treinos por semana, mais o jogo ao fim de semana. O mais importante, sublinha, é que as jogadoras se divirtam e usufruam do futebol.
Como é trabalhar uma equipa de futebol feminino na 4.ª Divisão, aqui, no Rio Mau? Como são as dinâmicas, como é o trabalho?
As dinâmicas são como noutro clube qualquer, como noutro escalão. Costumo dizer que é futebol jogado por mulheres, não há futebol feminino, nem futebol masculino, é futebol jogado por mulheres. De resto, é tudo idêntico a qualquer outro escalão. Tem a particularidade de no feminino, pelo menos nos grupos onde tenho estado e que tenho acompanhado, serem um grupo muito interessado. Interessado em saber para que é que serve aquele exercício, para que é que fazemos isto, qual é a finalidade. A partir daí, elas põem a prática e tentam fazer bem.
Acima de tudo, é gratificante, a nível de treinador, ver a evolução de algumas jogadoras, algumas nunca tinham jogado ou começaram a jogar no ano passado ou neste ano. Neste contexto do Rio Mau, temos um mix de juventude.
Por falar nisso, como se trabalha uma equipa tão diversa em termos de idades? Tem uma jogadora com 54 anos e duas com 15.
Tentamos sempre ter uma especial atenção para essas idades. Nunca podemos pedir a uma jogadora de 50 anos que tenha um desempenho ou uma performance física de uma miúda de 15. Mas o que é certo é que não é preciso pedir muitas vezes porque, neste caso, a Paula, com 54 anos, consegue ter um desempenho físico que muitas outras jogadoras não conseguem. Ela já tem vários anos de futebol e consegue ter esse desempenho, consegue ter essa garra que, em algumas, é preciso puxar e andar ali um bocado a picar para que se esforcem mais um bocadito. É muito gratificante.
Já treinei camadas jovens, já treinei masculinos, já treinei seniores, já fui adjunto. A certa altura, mudei-me para o futebol feminino por convite e também pelo nascimento do meu segundo filho, por causa dos horários. Não tinha horário para treinar tão cedo, o futebol feminino era o que treinava mais tarde, optei por essa via. E depois de estar, tenho estado bem, tem sido gratificante. Tenho tido alguns convites, mas como gosto muito de estar no futebol feminino, tenho-me mantido neste tipo de futebol.

Como é o seu método de treino?
O método de treino é igual. Os mesmos exercícios que fazem os homens, fazem também as mulheres. Muitas vezes, é preciso fazer uma, duas, três, quatro tentativas, mas acaba sempre por sair. Às vezes, é preciso puxar pelo espírito, há sempre aquela que diz ‘não consigo, não dá, não sai’. E é preciso puxar por elas porque vão conseguir e porque elas conseguem tudo – e depois nota-se essa satisfação por conseguirem.
Tenho sempre a preocupação, no fim, de dar uma palavra e dizer vocês conseguiram. Às vezes, digo-lhes o vosso adversário são vocês próprias porque dizem que não conseguem e depois acabam por conseguir.
Uma mensagem de motivação, portanto.
Sim, acaba por ser. Neste caso, não é um jogo muito rápido, nem muito de contacto, nem muito de choque. Acaba por ser um jogo mais calmo. Há aqueles clubes que têm equipas mais jovens e conseguem ter uma dinâmica maior. A nossa equipa, fruto da idade, não é muito dinâmica a nível de posicionamento e de rapidez na reação, mas nós vamos levando o nosso barco a bom porto e isso é o que nos dá mais prazer.
A nossa equipa, fruto da idade, não é muito dinâmica a nível de posicionamento e de rapidez na reação, mas nós vamos levando o nosso barco a bom porto e isso é o que nos dá mais prazer.
Filipe Pádua, Rio Mau
O que valoriza numa jogadora? O que é mais importante?
O querer, acima de tudo. O querer vir treinar, o querer estar presente, o querer aprender, o querer fazer melhor, o querer jogar, e depois lá dentro do jogo ser uma jogadora que dê nas vistas e que sobressaia. Isso é o ideal para uma jogadora. Pode não ser muito boa tecnicamente, pode não ser muito boa a correr, mas se tiver o querer e se tiver vontade, há espaço para todo o tipo de jogadora e esse tipo de jogadora é aquela que valorizo mais.
A parte mental é importante?
A parte mental e que queira, mesmo que esteja a perder, ir para cima, que queira ganhar o jogo, mesmo que pareça impossível.
Em dia de jogo, consegue estar sentado no banco?
Não, nunca. Eu não sei se o banco é confortável, se não é, mesmo quando chove, e pode estar a chover calhaus. Eu estou sempre de pé. Primeiro, tenho esse estilo, depois acabo por ser um pouco a cara da equipa. Se elas estão a apanhar chuva, eu estou a apanhar chuva também. Se estão a apanhar sol, eu estou a apanhar sol também. Não consigo ficar sentado no banco, é mais forte do que eu e não dá, não dá. Não consigo estar parado.
O futebol feminino em Portugal está a crescer bem ou ainda há muita coisa a melhorar?
Há um crescimento robusto, há um crescimento rápido. Só acho que a federação não está com os mesmos olhos de quando começou, em que havia uma preocupação de que os clubes fossem bem acompanhados, que tivessem o apoio da federação, fruto deste boom do futebol feminino e fruto do crescimento das equipas, crescimento das divisões, já estamos em quatro.
Quando comecei no futebol feminino eram duas divisões e quem ganhasse ia para a primeira e estava a jogar com os tubarões da altura. Agora há muitas equipas e acho que está a fugir um bocado da mão da federação. A federação está a fazer campeonatos muito irregulares, tanto faz uma série de jogos sem pausa, como pára semanas. No ano passado, acabou a 1.ª fase e estivemos um mês sem jogar. O que me parece é que o que importa é alimentar a parte de cima e estão a esquecer-se da parte de baixo.

Abre-se uma 4.ª Divisão com 70 clubes.
Sim. Um exemplo mais grave, que nós sofremos na pele, e foi preciso fazer finca-pé, foi o facto de a federação continuar a insistir que o clube tenha oito jogadoras na ficha de jogo formadas localmente. Abre uma 4.ª Divisão, onde procuram jogadoras que nunca jogaram à bola, procuram aglomerar o maior número de jogadoras, as jogadoras têm a preocupação de vir e experimentar, algumas ficam, outras não ficam. Mas para os clubes da 4.ª Divisão, que estão a começar, é muito difícil ter oito jogadoras formadas localmente. Fizemos finca-pé, baixaram, nesta fase, para seis jogadoras. Mas mesmo assim, ainda é muito redutor e as multas são enormes.
Se elas estão a apanhar chuva, eu estou a apanhar chuva também. Se estão a apanhar sol, eu estou a apanhar sol também. Não consigo ficar sentado no banco, é mais forte do que eu.
Quais os objetivos para a época?
Quando cheguei aqui, no ano passado, a equipa não ganhava. Estava na 3.ª Divisão, ainda não havia a 4.ª, não ganhava, estava com um score de golos sofridos enorme, sofria goleadas muito grandes. No ano passado, estava sozinho, mas conseguimos baixar o número de golos sofridos, o número de derrotas, conseguimos empatar um jogo e ganhar outro no campeonato e depois na final. Esse era o nosso principal objetivo, que elas sentissem o sabor da vitória.
Esta época já começámos com um grupo mais reforçado, é tudo malta aqui da zona. Conseguimos um empate, conseguimos uma vitória na Taça do Porto, as derrotas não são muito avolumadas. Na Taça do Porto, conseguimos ganhar ao Baião, no segundo do jogo, jogámos contra o Tirsense, que está duas divisões acima da nossa, fizemos um jogo espetacular, só perdemos por 3-0 com uma equipa da 2.ª Divisão. São essas pequenas vitórias que são o nosso objetivo e o nosso combustível. Tudo o que consigamos fazer bem, sofrer o menor número de golos possível, marcar golos, são as nossas pequenas vitórias.
A direção entende, e muito bem, que o importante é elas estarem satisfeitas, fazerem exercício físico e estarem cá e representarem o clube. Nunca impuseram nenhum objetivo, nenhuma vitória, mas são essas pequenas vitórias que vamos tendo dia a dia, e o reconhecimento que temos tido, que nos dizem que a equipa está a melhorar. E o nosso objetivo é que haja um melhoramento constante.
E como é o ambiente desportivo aqui no Rio Mau, dentro e do campo?
É calmo, aqui é pacífico, as pessoas gostam de viver o futebol, gostam da equipa, acima de tudo. Gostam de apoiar. Nunca houve aqui casos de violência verbal ou física fora do jogo, fora do campo. A assistência porta-se bem, vem apoiar as jogadoras. Dentro do clube, há dias bons, a maior parte deles são bons. E há dias em que a jogadora também se sente frustrada porque ou se sente desapoiada ou porque acha que a equipa devia ter dado mais, ou porque alguma coisa está mal, ou porque está mais sensível.
No futebol feminino, há essa sensibilidade. É preciso, muitas vezes, medir o pulso. Ponho-me ali à entrada, olho para a cara delas, sinto se o aperto de mão foi mais frouxo, ou viraram a cara, e por aí já se sente um bocado o pulso.
Filipe, o que é, para si, um bom jogo?
É um jogo em que, acima de tudo, e no contexto em que estamos, no contexto do Rio Mau, elas se divirtam. Não é tanto o ganhar, também é importante, também é muito bom para o crescimento da equipa, mas, acima de tudo, que elas se divirtam e consigam usufruir do futebol.
Não fazia sentido fazermos três treinos por semana e vir para aqui com um temporal, e elas sempre certinhas nos treinos, e depois não fazerem um bom jogo e não saírem satisfeitas com o desempenho. Se a vitória vier junto, é ouro sobre azul, a cereja no topo do bolo, mas, acima de tudo, que elas se divirtam que é por isso que cá estão.




