Diante de uma Irlanda do Norte que faz do choque, da vertigem e da componente física as suas principais armas, a Seleção Nacional mede forças sem três figuras que desequilibram, Kika Nazareth, Ana Capeta e Diana Silva.
À frente dos destinos da equipa das quinas desde 2014, o selecionador nacional rejeita o facilitismo e faz um retrato do plano para superar a Irlanda do Norte.
Sem Kika Nazareth, Ana Capeta e Diana Silva, jogadoras com aceleração vertical e imprevisibilidade no último terço, o duplo confronto com a Irlanda obriga a uma reinvenção da dinâmica ofensiva ou o modelo é imune a individualidades?
Cada jogadora aporta coisas diferentes. Temos é que, enquanto equipa, perceber algumas coisas. Quando temos jogadoras como a Francisca dentro de campo e como a Capeta ou a Diana Silva, há um tipo de perfil e temos de trabalhar e potenciar esse perfil. Jogar com a dupla Diana Silva/Jéssica Silva é diferente de jogar com Telma e Capeta. A forma como as nossas médias servem essas avançadas também tem de ser de uma forma diferente. O reconhecimento das colegas que estão ao nosso redor e as características delas é que têm de ser respeitadas. Claro que gostaríamos de contar com todas as jogadoras, principalmente as lesionadas. Cabe-nos, enquanto equipa técnica, procurar soluções e fazer com que a jogadora portuguesa, ou jogadoras que estão convocadas, tirem o melhor partido daquilo que é o jogo delas dentro da nossa ideia.

Fez regressar duas jogadoras do núcleo duro à convocatória, Andreia Norton e Telma Encarnação, enquanto promove três estreias absolutas, Francisca Castro, Carolina Tristão e Nair Pina. Como é que se equilibra a exigência de resultados imediatos no play-off com o investimento para o futuro?
Temos trazido jogadoras que ou estão connosco, ou estão em espaço sub-23, e outras que estiveram agora no espaço sub-20. Carolina Santiago ainda esteve agora também nos sub-20, tal como Inês Meninas, a Cancelinha, a Maísa. E 21 jogadoras, sete das seleções jovens, já integraram a seleção principal.
Ao mesmo tempo, a experiência, o núcleo duro, a competitividade que a jogadora portuguesa tem acumulada é importante para que estas jogadoras novas tenham um bom contexto de integração. Porque no dia em que chegou pela primeira vez a Francisca Nazareth, a Andreia Jacinto e a Andreia Faria, estavam cá a Tatiana, a Fátima, a Suzane Pires, para as receberem. E agora é o trabalho da Jacinto, da Faria, de receber estas meninas, dar-lhes o enquadramento, porque um dia mais tarde virão outras e os ciclos são feitos dessa maneira.
Para nós, é essencial e é fundamental termos sempre um núcleo duro que nos garanta a experiência, a resposta no imediato e, acima de tudo, aquilo que é o conhecimento da nossa ideia de jogo, porque em três dias estas jogadoras mais novas vão ter mais dificuldades em assimilar aquilo que nós queremos.

A Irlanda do Norte impõe um jogo de contacto, segundas bolas, joga num bloco compacto. Historicamente, Portugal sofre mais contra equipas de impacto físico do que contra seleções que jogam em posse. O que é que pode mudar no plano de jogo para a equipa não cair na armadilha do choque direto?
Temos de ter um bom jogo posicional que nos permita reconhecer o sentido da pressão, o posicionamento das adversárias, identificarmos bem os espaços no momento em que não formos portadores da bola. Sem dúvida que teremos de ser uma equipa com muita fluidez, que obrigue o adversário a ter de se movimentar, atraindo-as para depois reconhecer a nossa jogadora livre, porque sabemos que entrámos num jogo de transições, um jogo mais direto, um jogo de segundas bolas que vamos ter de estar preparados para o fazer, não podemos negar. Vai haver momentos em que isso vai acontecer, principalmente por causa da dimensão do campo que vamos encontrar na Irlanda do Norte.
As jogadoras têm de ser bravas e corajosas, mas ao mesmo tempo ser inteligentes. E acho que uma boa circulação de bola é a grande ideia, dominar o jogo com bola, mas não permitir que a pressão chegue a nós. Há uma tendência evolutiva do jogo ao nível do feminino, que é capacidade de jogar sob pressão. E nós temos de ter essa capacidade.
Teremos de ser uma equipa com muita fluidez, que obrigue o adversário a ter de se movimentar, atraindo-as para depois reconhecer a nossa jogadora livre.
Francisco Neto, selecionador nacional
São 180 minutos de play-off. Há um peso psicológico por se tratar de uma eliminatória “mata-mata”, sendo gerida de forma diferente de uma fase de grupos. Apesar do estatuto que a seleção já tem vindo a conquistar, este play-off pode ser um teste à maturidade competitiva desta seleção?
Sem dúvida. Temos de estar altamente concentrados, não podemos cometer erros. Esperemos que sejam 180 minutos a nosso favor, podem ser mais, mas sabemos que os pormenores contam, sabemos que todos os momentos e todos os duelos serão sempre disputados até ao final. A Irlanda do Norte é uma equipa muito competitiva e sem dúvida que o controlo emocional será importante, porque se não o tivermos as coisas tornam-se mais difíceis.
A Irlanda do Norte é uma equipa muito competitiva e sem dúvida que o controlo emocional será importante, porque se não o tivermos as coisas tornam-se mais difíceis.
Francisco Neto
A jogadora portuguesa tem sido avaliada como sendo tecnicamente evoluída, de jogo associativo e passe curto. A nível internacional, o futebol feminino joga-se em velocidade mais elevada e com mais atleticismo. Estamos a formar jogadoras para o futebol que gostamos de ver ou para o futebol que ganha jogos a nível mundial?
Julgo que há um misto, porque gostamos de ver a equipa vencer jogos a nível mundial. O nosso atleticismo tem crescido imenso. No contexto de Seleção A, no último ano, defrontámos possivelmente uma das melhores equipas do mundo, como foi o Estados Unidos, naquilo que é o lado físico do jogo quase levado ao limite. Quem acompanha a Liga norte-americana e a jogadora americana sabe aquilo que ela é, e nós conseguimos dar resposta.
O nosso grande desafio é conseguir dar resposta numa dupla jornada ou numa tripla jornada mais consistentemente. Enquanto no passado conseguimos dar uma resposta em 90 minutos, neste momento estamos a conseguir dar num jogo e no segundo jogo. Ao segundo jogo já estamos a ter um pouco mais de dificuldade, porque a nossa capacidade de recuperação entre esforços já está um pouco mais difícil. Temos de crescer nesse aspeto, no lado físico do jogo, e estamos a conseguir fazê-lo lentamente, sem dúvida nenhuma, e viu-se também no Campeonato do Mundo. As nossas jogadoras estão cada vez mais aptas para isso, e ao mesmo tempo não podemos perder aquilo que é a nossa essência, que é o nosso jogo de proximidade. Se não o fizermos, permitimos mais transições, estamos mais longe do centro de jogo, demoramos mais tempo a fechar espaços, a bola pode andar mais vezes no ar na primeira e na segunda bola, e nós somos mais frágeis nesse nesses momentos. Por isso, o jogo de proximidade que estamos a fazer também nos permite fisicamente dar mais resposta durante mais tempo. É este o equilíbrio. Jogar sob pressão não é só a pressão emocional, é a pressão do jogo, a pressão de jogarmos em espaços reduzidos. Temos de conseguir dar resposta a isso.



