Helena, Rio Tinto: “Gosto de um jogo rápido e também gosto de um jogo agressivo”

Helena Samões joga normalmente a extremo na equipa do Rio Tinto, que conseguiu a manutenção na 2.ª Divisão. Capitã aos 17 anos, conta que essa função lhe deu responsabilidade, mas não a viu como uma carga. Garante que é uma jogadora de equipa e considera que trabalhar a parte mental é fundamental.

Insistiu para jogar futebol, até que conseguiu que os pais a inscrevessem num clube ao pé de casa. Depois foi para o Rio Tinto, chegou ao escalão sénior, jogou como extremo e foi uma das capitãs de equipa na época que terminou, com 17 anos. Confessa que é uma capitã mais silenciosa do que faladora, que não se impõe sem necessidade. Tem agora 18 anos e vários sonhos no futebol. Chegar à seleção nacional principal é um deles.   

Helena Samões vê o futebol feminino em Portugal a evoluir, mas acha que ainda tem muito que correr para chegar ao nível de outras ligas. Lida com a derrota de várias formas, ora numa reflexão individual, ora num debate coletivo para tentar perceber o que correu mal. Nas bancadas, o apoio dos adeptos do Rio Tinto é constante e faz toda a diferença. A “febre amarela”, a claque feminina, é uma marca do clube.


Quais as tuas virtudes como jogadora?
Sou uma jogadora que joga muito pela equipa, ou seja, não sou individualista. Sempre com a cabeça a pensar como é que vou jogar por todas, não só por mim. Acho que isso é uma virtude no sentido do grupo, pela equipa é uma coisa boa. Não olho só para mim, olho para todas. Olho para a equipa como um só.

Há alguma coisa que tens de melhorar no futebol?
Sim, com certeza. Várias coisas: a finalização e a parte mental, que é uma parte importante de trabalhar ao longo do tempo. Sendo atleta, e no nível em que estamos, a parte mental, a parte da cabeça, é o mais importante. E acho que também é preciso trabalhar essa parte, não só eu, como todas.

A parte mental é determinante para definir uma jogadora?
Tenho a certeza de que é porque há vários exemplos de jogadoras e jogadores, mas como é óbvio conheço mais exemplos de jogadores por causa da dimensão do futebol masculino, que poderiam chegar muito mais longe, mas que não conseguem devido à parte mental. É preciso ter confiança, a confiança é importante. Por isso é que a parte mental é necessária.

E a parte mental tem sido valorizada, já que quando se pensa em futebol, pensa-se sobretudo na parte física?
Tem sido valorizada, deveria ser mais. É um processo, mas tem sido cada vez mais valorizada.

Como lidas com uma derrota?
Depende muito da derrota. Acredito que há momentos para refletir sozinha e outros em que mais vale abraçar a equipa e falarmos umas com as outras. Por exemplo, se for uma derrota em que poderíamos ter feito muito mais, se calhar mais vale falarmos todas e percebermos o que poderíamos melhorar como equipa. Mas, por outro lado, se for um jogo perdido ao último minuto, ou um jogo em que eu acredito que fui um problema, prefiro refletir sozinha.

A derrota permite detetar os erros para melhorar?
Sim. Normalmente com a cabeça quente durante o jogo, muitas vezes, não nos apercebemos aquilo que estamos a fazer mal, individual ou coletivamente. Normalmente uma derrota é devido à equipa em geral. Mas depois no balneário, ou durante a semana nos treinos seguintes, conseguimos perceber o que fizemos mal. E é para isso que também servem os treinos.


Sou muito o 8 ou 80. Ou gosto de um jogo muito quente, muito agressivo, ou um jogo completamente do estilo tiki-taka, sempre a trocar a bola

Helena Samões, Rio Tinto

O que é que aprecias no jogo jogado?
Sou muito o 8 ou 80. Ou gosto de um jogo muito quente, muito agressivo, ou um jogo completamente do estilo tiki-taka, sempre a trocar a bola. Não sou de me prender à bola, não sou uma jogadora que tenta fintar uma equipa toda, estou sempre à procura de quem é que posso passar. Gosto de um jogo rápido e também gosto de um jogo agressivo.

Ser capitã de equipa é uma responsabilidade acrescida? É um peso?
Acho que sim. Tanto dentro como fora de campo, dá-me uma responsabilidade maior, mas tendo em conta a minha idade, tendo em conta que estou no escalão sénior e sou capitã, acaba por ser mais difícil no balneário porque há gente mais velha do que eu. Mas em campo, sim, sem dúvida, é um peso, mas não acho que seja uma carga, não o vejo como uma carga.

Dentro de campo, como capitã, és uma voz de comando?
Gostaria que dissessem isso, mas sim, acho que sim. Não sou o tipo de jogadora que está constantemente a dar ordens, mas quando é preciso, falo.

Capitã com 17 anos numa equipa sénior é um voto de confiança? Sentes isso?

Sim, sem dúvida, principalmente dos treinadores, que são quem escolhe. É, sem dúvida, um voto de confiança, eu tenho consciência disso e é bom. É daí que vem a parte boa de ser capitã.

Capitã mais silenciosa ou capitã que está sempre a falar?
Sou mais silenciosa. Não tento impor-me perante as outras no balneário, tendo em conta que sou das mais novas, e cada uma sabe de si. Como estamos no escalão sénior, cada uma tem o seu sentido de responsabilidade, mas em campo, consigo falar quando é necessário, mas não me imponho sem necessidade.

E o apoio da bancada é importante?
O apoio da bancada é uma coisa que define muito o Rio Tinto, é uma coisa que nos diferencia muito. Já somos reconhecidos por isso e é 100% importante em qualquer clube, mas aqui principalmente porque é uma coisa recorrente, uma coisa a que já estamos habituadas.

É bairrismo?
É um ambiente muito familiar. É um sentimento de família, principalmente por causa do apoio dos pais, e não só dos pais, mas também das meninas mais novas que, muitas vezes, nos vêm a apoiar. Porque o Rio Tinto tem toda uma formação no futebol feminino.

E vão convosco para todo lado?
Sim, é completamente diferente.

O apoio da bancada é uma coisa que define muito o Rio Tinto, é uma coisa que nos diferencia muito. Já somos reconhecidos por isso e é 100% importante

Helena Samões, Rio Tinto

Quando e como começaste a jogar futebol?
Vim para o Porto com nove anos, vivia em Leiria, os meus pais não queriam deixar-me jogar futebol pelas razões deles. Só que depois, a certa altura, chateei tanto a minha mãe que ela decidiu colocar-me a jogar ao lado de casa, no Boavista. A partir daí, nunca mais parei. E chegou a um nível em que a minha mãe prefere estar a ver um jogo de futebol do Rio Tinto do que em casa a descansar. Por isso, a família já está toda dentro da situação.

Jogas e estudas. Já tens ideia do que é que queres seguir em termos estudos?
Vou sair do secundário, tenho de pensar nisso. Tenho algumas ideias, talvez Medicina, mas também é difícil estar em Medicina e estar a jogar ao mesmo tempo, mas essa é uma ideia, ainda não tenho a certeza.

Qual é o teu maior sonho no futebol?
Tenho vários sonhos, mas claro que para qualquer jogadora, a quem seja feita essa pergunta, é de certeza jogar no maior nível possível, ou seja, chegar à seleção A, ou jogar numa das maiores ligas. É sempre um sonho.

Sair do país poderia ser uma possibilidade?
Por mim, ficava cá, no Rio Tinto, claro. Não só no Rio Tinto, em Portugal, mas também depende muito de como o futebol feminino evoluir durante os próximos anos. Depende de vários fatores.

E como esperas que o futebol feminino evolua?
Acho que vai evoluir, como já tem evoluído. Não sei quanto tempo é que demorará a chegar ao nível das outras, espero que algum dia chegue, mas, neste momento, ainda tem muito que correr.

A seleção A está a tentar o apuramento para o Mundial no Brasil no próximo ano. Achas que é possível lá estar?
É uma possibilidade. A seleção A é uma das melhores amostras de como o futebol feminino em Portugal está a evoluir, principalmente com os nomes mais conhecidos agora, como a Kika que está a jogar em Espanha, um dos países com mais reconhecimento no futebol feminino.

Helena, o que é, para ti, um bom jogo?
Um bom jogo para se ver é um jogo com muitos golos, muita adrenalina. Um bom jogo para mim, para ser incrível de ser jogado por mim, é um jogo em que sofremos, sofremos, sofremos, até se calhar com um adversário maior do que nós, e no final conseguimos uma vitória ao último minuto, assim uma coisa louca, que ninguém estava à espera. Uma equipa ser subestimada e fazer as pessoas mudarem de ideias é a melhor sensação.