Era muito participativa no desporto da escola, jogava futebol, futsal, basquetebol, andebol. Jogava à bola com os vizinhos e o pai via muitos jogos em casa. As influências vinham de todos os lados, portanto. Entrou no Sintrense, passou para o Estoril, que estava na Liga BPI, mudou-se para o norte, para o clube de Famalicão. Saiu de casa pela primeira vez e adaptou-se bem.
Inês Duarte tem 23 anos. Neste momento, só joga futebol, chegou a jogar e a trabalhar porque viver apenas da bola ainda é difícil no universo feminino. A profissionalização tem sido uma luta constante. Vê mais investimento e melhores condições, ainda assim insuficientes. Dentro de campo, destaca o foco no que se está a fazer e a confiança que é fundamental. O regresso à Liga BPI aparece nos seus sonhos.
Como começa a tua paixão por jogar futebol? Como aconteceu?
Sempre estive muito envolvida no desporto, no geral. Fazia muitos desportos na escola, futebol, futsal, basquetebol, andebol. O meu gosto surgiu aí, na escola, quando era pequenina, também brincava com os meus vizinhos, tínhamos muita influência nesse sentido. Até em casa, o meu pai via muito futebol, portanto, sempre esteve presente na minha vida.
Entretanto, num torneio da escola, que até ganhámos, houve alguém que disse a um treinador que gostou de me ver jogar. Esse treinador veio falar comigo e, a partir daí, surgiu a minha entrada no futebol federado. Eu devia ter uns 12, 13 anos. E assim surgiu a minha primeira equipa.
O Sintrense, não foi?
O Sintrense, sim. Fiquei lá uma época e meia, mais ou menos. Entretanto, passei a minha formação praticamente toda no Estoril, até ao ano passado, entretanto vim para aqui, para o Famalicão.
Aí estavas na Liga BPI?
Estava na Liga BPI. O meu primeiro ano foi na Liga BPI, com 18 anos.
Vens para o Famalicão com experiência de Liga BPI. Isso é importante para a equipa, para os jogos, para a competição?
Sim, já tenho uns 2, 3 anos de Liga BPI. Isso dá-nos outra perspetiva, outra maturidade. Acho que é importante também trazer isso para aqui, passar o meu conhecimento, dar o meu contributo para a equipa. Espero conseguir estar à altura deste desafio.

E como corre a experiência?
O que idealizei e o que está a acontecer não tem nada a ver porque pensei que ia ser uma desgraça. Eu ia sair de casa pela primeira vez, nunca tinha saído de casa, sempre estive no Estoril. Sair de casa, mudar de clube, novas experiências, portanto, achei que ia ser um choque muito grande e, na verdade, foi, só que num bom sentido. Eu estou a adorar, as pessoas são incríveis, este espaço é super acolhedor, gosto imenso das minhas colegas. E a nível de treinos, tem sido mais intenso, tenho gostado, também me tenho entregado mais nesse sentido, sinto-me com mais confiança.
Como é que te descreves como jogadora?
Sou um bocado trapalhona, mas quando estou focada, as coisas acabam por sair bem e gosto muito de me unir às minhas colegas e ter confiança faz toda a diferença.
Não deve ter sido fácil, a equipa desceu, depois foi convidada para subir, depois voltou a descer.
Ao início, tivemos bastantes problemas, houve muitas saídas, sofremos um abalo muito grande. Entretanto, mudámos de mentalidade e fizemos o nosso melhor.
Sou um bocado trapalhona, mas quando estou focada, as coisas acabam por sair bem e gosto muito de me unir às minhas colegas. Ter confiança faz toda a diferença.
Inês Duarte, Famalicão
A 2.ª Divisão está bastante competitiva?
Cada vez mais competitiva. A fase Norte está muito intensa.
O que mais gostas no jogo jogado?
Eu gosto de sentir a adrenalina com as minhas colegas. Quando alguém marca um golo, ficamos mesmo muito felizes. Olhar para a cara umas das outras é mesmo muito gratificante. Saber que faço parte disso também me alegra ainda mais.
E no treino, há alguma coisa que te chateia?
Quando os misters inclinam mais para um lado do que para o outro e querem mesmo que nós fiquemos chateadas com isso. Mas faz parte. Às vezes, nos jogos, isso também acontece porque as árbitras não decidem da melhor forma e nós ficamos frustradas, mas não podemos controlar isso, temos de fazer o nosso trabalho e continuar.
Como vês o crescimento do futebol feminino?
Sinto que estamos a ser cada vez mais apoiadas, cada vez há mais investimento, as pessoas estão a olhar para o futebol feminino de uma forma diferente, com mais respeito, e isso é muito importante para nós, para o nosso crescimento, para continuarmos aqui, porque gostamos de ser valorizadas e continuamos a querer jogar futebol.

Acompanhas os jogos da seleção?
É curioso dizer isso porque não acompanho futebol no geral, eu só jogo. Eu gosto de jogar e gosto de ver jogos esporadicamente, mas acompanhar não acompanho mesmo. Na altura, porque não tinha tempo, agora tenho tempo, mas ainda não tenho esse hábito, apesar de jogar.
Estás a fazer alguma coisa além de futebol?
Neste momento, não.
E quando estavas lá em baixo?
Sim, estava a trabalhar. Trabalhava e jogava ao mesmo tempo porque o que nos dão no futebol não é suficiente para manter uma vida, então tinha de trabalhar e pus os estudos um bocadinho de lado.
Trabalhava e jogava ao mesmo tempo porque o que nos dão no futebol não é suficiente para manter uma vida, então tinha de trabalhar e pus os estudos um bocadinho de lado.
A profissionalização no futebol feminino tem sido uma luta. Daqui a 5 anos, será possível viver apenas do futebol?
Daqui a 5 anos não sei, mas quem é mesmo profissional, aí sim, penso que consegue fazer vida disso. Como não tenho muita noção dessa realidade, sinto que daqui a 5 anos ainda não será possível a maioria das jogadoras conseguir ter esse tipo de vida. Mas quem sabe haja um investimento enorme…
O sonho maior é estar na Liga BPI?
Claro, o nosso sonho é estar na Liga BPI foi para a Liga BPI que nós viemos, mas não foi possível.
Quando perdes, ficas bastante irritada? Como reages a uma derrota?
Depende dos dias. Se num jogo em que perca, sentir, como pessoa, que dei tudo, sinto-me mal, mas não tão mal, porque sei que tudo o que eu podia fazer eu fiz. É um jogo de equipa e o coletivo é que vence, mas também temos de estar satisfeitas com o nosso trabalho. Num dia em que estou mal, por algum motivo, se sentir que não dei o meu contributo, aí fico mesmo muito chateada.
Inês, o que é, para ti, um bom jogo?
Para mim, um bom jogo é quando estou nesses dias bons e vejo toda a equipa ligada entre si, parece que as coisas funcionam naturalmente. Eu estou aqui, a jogadora da minha equipa sabe que estou aqui, então vai passar a bola, fazemos uma triangulação e parece que é tudo natural, sabemos o que temos de fazer e sabe bem jogar e ver também. Sinto-me mesmo muito orgulhosa quando fazemos as coisas bem.




