Ivo Roque, treinador do Vitória: “Já começamos a perder e a não conseguir segurar talento na Liga BPI”

Ivo Roque, treinador da equipa do Vitória há quatro épocas, é calmo, exigente, anda sempre com um bloco de notas onde regista ideias e desenha táticas. A expetativa é ganhar jogo a jogo, somar o maior número de pontos, garantir rapidamente a manutenção. O dérbi minhoto está marcado para sábado.

Ivo Roque, Vitória
Fotos: Igor Martins/Magriça

A subida à Liga BPI, na época passada, foi um momento marcante da sua carreira, do projeto que abraçou, a prova de que o trabalho do clube estava e está no caminho certo, a estreia no mais alto patamar do futebol feminino. O Vitória é um clube exigente e que faz por estar ao nível da excelência, garante, que procura jogadoras com qualidades específicas. Ivo Roque privilegia o carácter, a atitude, a superação à perda, a entrega, a luta diária. No jogo, não consegue estar sentado no banco, mas já dorme na véspera.  

Em sua opinião, a Liga BPI deveria ter mais equipas, 14, mas com uma premissa importante, ou seja, todas as equipas terem as mesmas condições, até para aumentar a qualidade das jogadoras que chegam às seleções. Caso contrário, não adianta. Vê o crescimento do futebol feminino andar depressa demais e, por vezes, desconfia que possa ser travado de um momento para o outro, receia que entre em rutura.  

É um treinador calmo, nervoso, exigente, perfeccionista? Como se define como treinador?Considero-me um treinador calmo, mas muito exigente. Ou seja, chegando ao momento do jogo, em que não podemos deixar nada por fazer nem nada por dizer, temos de fazer tudo para conseguir a vitória. E isso faz com que, muitas vezes, o ânimo se possa exaltar um bocadinho, mas faz parte e tudo dentro daquilo que é o respeito. 

É a sua quarta época na equipa feminina do Vitória. A estreia na Liga BPI é um sinal de que o trabalho do clube está no caminho certo? Sim, penso que sim. Quando abracei este projeto, e fui convidado por esta direção para fazer parte dele, o que me foi pedido, no início, foi ajudar a fazer crescer o futebol feminino, criar uma exigência maior do que aquilo que havia até à altura. Com pequenos passos, fomos, ano após ano, cimentando um caminho. 
O objetivo seria chegar à Liga BPI o mais rápido possível. Conseguimos e é com muito orgulho que estamos na Liga BPI, é com muito orgulho que conseguimos chegar à Liga BPI. Como vitoriano, para mim, foi a cereja no topo do bolo. Continuar a representar o Vitória é sempre um orgulho. 

Como foi o dia em que subiram para a Liga BPI, na época passada? 
Foi um dia muito interessante, um dia que fica na memória de todos, pela forma como preparámos esse dia, esse jogo que era o tudo ou nada para nós, em que toda a gente, toda a estrutura, esteve totalmente envolvida. Foi o dia, no futebol, mais marcante para mim porque conseguimos o objetivo, lutámos muito por ele ao longo destas épocas. 

Chegando ao momento do jogo, em que não podemos deixar nada por fazer nem nada por dizer, temos de fazer tudo para conseguir a vitória

Ivo Roque

A estreia, nesta época, foi logo num jogo com Benfica. O Vitória marcou primeiro, depois perdeu. Foi um teste de alta intensidade abrir a Liga BPI desta forma? 
Foi um teste de alta intensidade e nós sabíamos que era um adversário muito difícil e que nos ia criar muitas dificuldades, mas já que era para ser um momento marcante para a história do clube, ser com o Benfica, que é o atual campeão nacional, tinha uma imagem especial, ou seja, teve uma visibilidade muito maior. 
Não conseguimos o resultado que pretendíamos, mas faz parte, fica na história, foi o primeiro jogo e, como digo sempre, serviu de aprendizagem para os jogos seguintes. 

A expectativa, no fim da época, é ficar no meio da tabela? 
A expectativa do Vitória é ganhar jogo a jogo, tentar somar o maior número de pontos para conseguirmos garantir a manutenção o mais rápido possível, de uma forma o mais tranquila possível. Sem grandes pensamentos de outros voos, mas sempre focado naquilo que são os pontos. Temos a perfeita noção de que falta muito campeonato e que temos muito para lutar. Por isso, a ideia é ir pontuando, pontinho a pontinho, para atingir os objetivos, que é a manutenção o mais rápido possível. 

Como prepara os treinos? 
Os treinos são preparados sempre em reunião da equipa técnica. Na semana anterior, preparámos e pensámos aquilo que podemos fazer a seguir. No primeiro dia da semana, reunimos para fazer uma pequena reflexão sobre o jogo anterior e, a partir daí, começar a definir a estratégia para o jogo seguinte. Através da estratégia que temos para o jogo seguinte, que tipo de treino é que vamos fazer. 
Existe um envolvimento muito grande do Departamento de Análise e Observação e do Departamento de Alto Rendimento, conjugando todos esses fatores, conseguimos definir um plano de treino individual diário para que se possa chegar ao jogo o mais preparado possível para conseguir a vitória. 

Sabemos que tem um bloco de notas do qual não se separa. É nele que anota tudo? 
Está aqui, anda sempre comigo. 

É o seu diário de bordo do futebol? 
Sim, é um hábito que criei ao longo dos anos. Todos os dias, prefiro andar, além do nosso computador que é essencial e que também anda comigo todos os dias, com este bloco no terreno. Há sempre alguma coisa que surge, alguma ideia que possa aparecer, e eu prefiro ir registando. E acho muito interessante, nas épocas seguintes, pegar no bloco do ano anterior e perceber coisas que foram acontecendo ao longo do tempo. 

Faz desenhos também? 
Muitos, olhe para isto, mas eu entendo-os. 

É melhor uma jogadora com muita atitude e menos forte tecnicamente do que uma jogadora muito forte tecnicamente com uma atitude péssima

O que é que privilegia numa jogadora? Quais as qualidades que são importantes?
O patamar máximo do futebol feminino, em Portugal, já nos exige um tipo de jogadora em que o carácter é fundamental. Se o carácter não estiver aliado às qualidades técnicas, físicas e emocionais, há alguma coisa que não bate certo. Ou seja, podem ser muito boas tecnicamente, podem ser muito boas taticamente, mas se o carácter for fraco, a possibilidade de jogarem num clube como o Vitória é mínima.
Isso é o que nós valorizamos, a pessoa primeiro e depois se conseguimos conjugar todos esses fatores, melhor. É melhor uma jogadora com muita atitude e menos forte tecnicamente do que uma jogadora muito forte tecnicamente com uma atitude péssima. 

Portanto, a parte mental é importante?
Fundamental. 

Reagir ao erro também? 
As características do clube, em si, assim o exigem. O Vitória é um clube que nos leva para um patamar de exigência muito alto e em que há valores que são inegociáveis, ou seja, a reação à perda, a luta diária, a superação diária, minha e coletiva, são fundamentais para todos. 
Todos os dias somos postos à prova com desafios completamente diferentes, mas temos de estar disponíveis para os superar e para caminhar sempre no caminho da excelência. É isso que propomos quando uma atleta chega ao Vitória, é isso que tentamos identificar numa atleta que procuramos para contratar. Caso as coisas não sejam assim, amigos como dantes, mas, se calhar, o lugar não é no Vitória. 

O futebol feminino está a crescer de uma forma sustentada e robusta? 
Eu acho que o futebol feminino está a crescer muito, rápido, e não sei se vai ter capacidade para travar. O que me parece é que, num curto espaço de tempo, estamos a acelerar tão rápido, tão rápido, tão rápido, que tenho algum receio de que, de um momento para o outro, seja travado esse crescimento. 

Travado em termos financeiros ou de saída de talentos para outros países? 
Já começamos a perder e a não conseguir segurar talento na Liga BPI. Vários países conseguem chegar cá e facilmente levar as nossas atletas para outros desafios, e eu respeito isso, mesmo como treinador, e muitos treinadores têm saído também para o estrangeiro. É importante que a malta perceba que ou temos garantias de condições e de qualidade na Liga BPI ou a tendência é exatamente essa, as pessoas procurarem outros desafios porque sentem que a Liga BPI pode não ser atrativa. 
Aquilo que sentimos, muitas vezes, quando abordamos jogadoras estrangeiras, é que ainda existe interesse em vir para Portugal. Agora, as condições que as nossas atletas e os treinadores têm podiam ser melhores? Podiam. Mas acho que esse crescimento também tem de ser gradual, caso contrário, podemos entrar em rutura. 

O Vitória é um clube que nos leva para um patamar de exigência muito alto e em que há valores que são inegociáveis, ou seja, a reação à perda, a luta diária, a superação diária 

Por outro lado, a liga principal tem 10 equipas. Não deveriam ser mais?
Tenho uma opinião, se calhar, diferente da de muita gente em relação à constituição da Liga BPI. Eu acredito que a Liga BPI a 14 equipas seria melhor, mas, e coloco aqui um “mas” muito importante, as equipas tinham de ter as mesmas condições. Não adianta termos um campeonato com 14 equipas, se seis têm as melhores condições do mundo e se as outras todas não têm condições para estar ao nível dessas seis. 
Não considero que toda a gente tenha de ser como os melhores, mas também não podemos ser como os piores. Tem de haver uma exigência da parte da Federação e da Liga de condições mínimas de treino, de condições de jogo, de condições de viagens, para tornar as coisas mais equilibradas, de maneira a podermos ter uma liga melhor, mais competitiva, porque isso vai depois dar mais qualidade às nossas seleções. 

Em dia de jogo, quando orienta a equipa, consegue relaxar ou fica nervoso antes de entrar em campo? 
Antes de entrar em campo, sinto um friozinho, faz parte, quando não o sentir deixo treinar – digo isto há muitos anos. No dia em que não sentir essa pica, mais vale ficar em casa. 
Consigo dormir, antes não conseguia, ficava muito ansioso. Hoje consigo dormir perfeitamente, com consciência tranquila do trabalho que fizemos. Durante o jogo, tenho um lugar no banco que está sempre disponível para mim, mas nunca o uso. 

Nunca se senta? 
Nunca me sento. 

Míster, o que é, para si, um bom jogo? 
Um jogo perfeito é um jogo em que a equipa consiga jogar bem, fazer o que a equipa técnica pede, e conseguir a vitória. Isso, para mim, será sempre o jogo perfeito ou um bom jogo, não consigo conceber aquilo que é um bom jogo com uma derrota ou que é um jogo mal jogado com uma vitória. 
Um bom jogo é juntar várias peças, fazer aquilo que se trabalha, conseguir que a equipa faça aquilo que é transmitido pela equipa técnica, e com isso somar a vitória.