Jéssica, Académico de Viseu: “Sou uma atleta que gosta muito de analisar e interpretar o jogo”

Jéssica Albino é defesa central da equipa do Académico de Viseu, na 4.ª Divisão. Jogou nas seleções jovens nacionais até sofrer uma lesão. Foram três anos difíceis sem desistir. Joga, trabalha, e é treinadora-adjunta das Sub-19 no clube onde está há duas épocas. Não é muito de fintar. E está atenta à adversária e à forma como se comporta.

Jéssica Albino, Académico de Viseu
Foto: Maria João Gala/Magriça

Joga desde os sete anos, ia com o pai ver os treinos do irmão, divertia-se tanto que a paixão pelo futebol nasceu, cresceu, e se instalou. Queria ir à baliza, o pai não achou boa ideia, era melhor ir mais para a frente. É uma jogadora tranquila, que gosta de observar o jogo e ajudar a equipa que está na fase de subida da 4.ª Divisão. O mais importante é que todas se divirtam sem esquecer a competição. 

É engenheira informática, tem 22 anos, concilia os treinos três vezes por semana, sempre depois das oito da noite, com a profissão. Olhando para o quadro competitivo, considera que devia haver um maior equilíbrio entre as diferentes divisões, sobretudo entre a 3.ª e a 4.ª. Para Jéssica, o futebol feminino tem evoluído nos últimos anos, em termos de condições e de apoios, comparado com o tempo em que começou a jogar à bola.

Como nasce esta paixão pelo futebol? 
Um bocadinho pelo meu irmão que jogava futebol. O meu pai levava-me sempre aos treinos e eu divertia-me imenso. Queria ir para a baliza, mas o meu pai disse não, não, não, achou melhor ir um bocadinho mais para a frente. Ia a todos os jogos e, aos poucos, fui ganhando esta paixão por jogar futebol. 

Começaste a jogar com que idade? 
Sete anos. 

São vários anos a jogar, portanto. O futebol feminino está a crescer de forma sustentada? 
Penso que sim. Comparado com quando eu comecei, em que não havia equipas só de futebol feminino, em que fui “obrigada” a jogar futebol masculino, há uma evolução. Já vemos camadas jovens, já vemos formação, equipas seniores mais visíveis, mesmo fora, na Liga Europa, na Champions. Está muito mais evoluído e os apoios são maiores. 

E em termos de condições, também tem melhorado? 
Sim. Claro que há sempre aqueles clubes que têm muito mais dificuldades a nível de condições, mas já vemos melhorias a nível de balneários, campos. E temos o caso da Liga BPI em que já é obrigatório jogar em campo de relva, o que é muito bom.

O Académico faz treinos em relva natural, o que é uma particularidade. Gostas mais de treinar em relvado natural ou em sintético? 
Em relva é muito mais confortável. Eu, por exemplo, já tive lesões graves no joelho. No sintético, é muito raso, custa muito, quando saio do jogo, afeta-me muito os joelhos. 

Como recuperaste dessas lesões? São sempre momentos complicados… 
É sempre pensar positivo, penso sempre que há coisas piores. A minha lesão tem solução, é ir para a solução, e continuar. 

Sempre jogaste à defesa ou mudaste de posição ao longo dos anos? 
Comecei um bocadinho à frente, comecei como ponta de lança, e fui descendo. Mas a minha posição sempre foi defesa central, também fui médio quando era necessário. Mas, sim, a minha posição sempre foi central. É onde me sinto melhor. 

Para central, acho que sou bastante tranquila. Normalmente as centrais são, como dizem, ‘malucas’, mas sou muito tranquila.

Jéssica Albino
Jéssica Albino, Académico de Viseu

Como és dentro de campo? 
Sou muito tranquila. Para central, acho que sou bastante tranquila. Normalmente as centrais são, como dizem, “malucas”, mas sou muito tranquila. Gosto de observar o jogo, ajudar as minhas colegas. E, no fundo, o mais importante é divertirmo-nos e sermos competitivas ao mesmo tempo. 

O que mais aprecias no jogo jogado? 
Sou uma atleta que gosta muito de analisar o jogo, gosto de interpretar o jogo, perceber o que é que está a acontecer. Não sou muito de andar ali a fintar, gosto de ver como é que a adversária está a jogar, como é que nós nos podemos adaptar. Estou sempre ativa.

A equipa está na fase de subida de divisão e está bem posicionada. É possível subir? 
Sim, obviamente que as equipas são muito mais difíceis, têm a sua qualidade. Mas acredito, é acreditar até ao fim. Temos qualidade, temos atletas com qualidade. Por isso, é lutar jogo a jogo. 

A 4.ª Divisão começou com 70 equipas. É um número elevado para garantir a competitividade? Se mandasses, o que farias? 
São demasiado equipas e há um desequilíbrio muito grande entre elas. Acho até que há equipas da 4.ª divisão que têm tanto ou mais qualidade do que algumas que estão na 3.ª divisão. Devia haver um equilíbrio maior entre o número de equipas da 3.ª e da 4.ª. 

Há algum momento que nunca mais irás esquecer no futebol? 
Tenho muitos, por acaso, mas, obviamente, há dois que destaco. A primeira vez que ganhámos a taça nacional sub-15 aqui, com o 2001. Foi o meu primeiro grande troféu, consegui conquistar coisas com pessoas que já sonhávamos desde pequeninas. E depois a primeira internacionalização por Portugal, que acho que ninguém esquece. 

Por que seleções vestiste a camisola de Portugal? 
Estive nas Sub-15, Sub-16, estive em estágio pelas Sub-17, depois tive uma lesão e deixei de ir. 

O essencial é sempre divertirmo-nos porque se nos divertirmos as coisas saem sempre muito melhor.

O teu maior sonho seria estar na seleção A? 
Sim, mas já tive experiências que muitas jogadoras não tiveram. Já estive nos Estados Unidos, já estive em vários torneios, já ganhei o Torneio de Desenvolvimento pela seleção. Portanto, acho que não me posso queixar. Há atletas da minha idade que não tiveram essa oportunidade. São experiências que muita gente não teve e eu já tive, agora estão outras a ter, cada uma na sua vez.

Tens alguma mensagem para as jogadoras jovens que estão nas seleções? 
Acreditar nelas mesmas, trabalhar, independentemente de haver injustiças ou que elas acham que são injustiças. Acreditar, serem elas, protegerem-se sempre. O essencial é sempre divertirmo-nos porque se nos divertirmos as coisas saem sempre muito melhor. Por isso, a seleção é só mais um ponto positivo no caminho delas.


Trabalhas, és engenheira informática. Nunca equacionaste fazer do futebol a tua principal profissão?
Quando era mais novita, antes da lesão, pensava muito. Mas depois foram praticamente três anos de lesões seguidas, então mudei um bocadinho o meu rumo. Foi um ponto que pensei, sim. 

Jéssica, o que é, para ti, um bom jogo? 
Primeiro, divertirmo-nos, se nos divertirmos, as coisas acabam por sair muito melhor. Sairmos tranquilas, fazermos o melhor, independentemente de perdermos ou ganharmos. Obviamente custa sempre perder, mas basta saber que fizemos o máximo e que não podíamos fazer muito mais.