Joana Lopez, Tirsense: “Levar uma braçadeira não faz muita diferença, todas temos responsabilidade”

Joana Lopez, espanhola de Valência, é central e uma das capitãs da equipa do Tirsense, na 2.ª Divisão. Jogou em Valência, em Múrcia, em Madrid. Joga de cabeça levantada, com raça, em comunicação constante com as colegas. O futebol tem-lhe dado alegrias, amizades, uma família.

Joana Lopez, Tirsense
Fotos: Maria João Gala/Magriça

Está em Portugal há 4 anos, começou a jogar futebol em criança com um vizinho que a chamava para brincar com a bola. Jogou em todas as posições, mas é à defesa que prefere estar. Joana Lopez tem 27 anos, joga e trabalha em marketing e vendas. Sente-se bem no Tirsense e acredita que a equipa vai garantir a manutenção na 2.ª Divisão.  

Vê diferenças entre o futebol feminino português e o futebol espanhol que tem mais tempo, começou antes. Considera que Portugal está a crescer bem e ao ritmo certo. Valoriza o espírito de equipa, a disciplina, a entrega no jogo. Alexia Putellas é uma inspiração. Já a viu jogar e tem fotos com ela, ela que é uma das melhores do mundo. 

Jogas a central. É a posição que mais gostas?  
É a que mais gosto. Já joguei como ponta de lança, ala, guarda-redes, já joguei a 6, em todas as posições. Mas central é a posição que gosto mais. 

Com que idade começaste a jogar futebol? 
Com cinco anos. 

Como foi esse começo?
O meu vizinho ligava-me sempre para ir a jogar à bola quando eu era pequena. Era o que mais gostava. 

Como está a ser a experiência aqui no Tirsense? 
Está a correr muito bem. Cheguei aqui e a verdade é que fui muito bem recebida, apesar de não perceber o idioma. Foi um bocado complicado no começo, mas agora está-se bem. E elas vão ser sempre a minha família, abriram-me as portas, ensinaram-me tudo, confiaram em mim. 

Notas diferenças entre o futebol feminino espanhol e o futebol português? 
Muito. Em Espanha, o futebol feminino tem muito mais tempo, tem muitas divisões, e agora as miúdas começam a jogar muito mais cedo. E tem muitas jogadoras que são impecáveis. 

Como Aitana, Alexia Putellas…
Tem equipas muito fortes. Eu joguei em Valência, joguei em Múrcia, joguei em Madrid, jogava contra o Atlético de Madrid, jogava contra o Real Múrcia. Jogava na 2.ª Divisão quando só havia a 1.ª e a 2.ª. Tinha 18, 19 anos, e jogava na 2.ª Divisão em Espanha, e isso era uau. Agora para chegar à 2.ª Divisão, porque há muitas divisões, é muito mais complicado. 

Tinha 18, 19 anos, e jogava na 2.ª Divisão em Espanha, e isso era uau. Agora para chegar à 2.ª, porque há muitas divisões, é muito mais complicado

Joana Lopez

Quais são as tuas referências no futebol feminino?
Alexia Putellas desde que a vi jogar. Tirei fotos com ela, é uma maravilha de mulher. Ela tem um jogo, uma qualidade impecável. 

E tu como és como jogadora, como defesa? 
Tenho muita raça, jogo sempre com a cabeça levantada, sempre a comunicar com a minha equipa. Nós, que estamos atrás, temos toda a visibilidade, temos de comunicar o que se passa à frente delas e nas costas. 

Também és capitã, tens uma responsabilidade acrescida. Sentes isso? 
Sim, mas não. Levar uma braçadeira não faz muita diferença, todas temos uma responsabilidade dentro de campo. É mais a equipa do que individual. 

Joana Lopez, Tirsense

O Tirsense vai conseguir manter-se na 2ª Divisão? 
Sem dúvida. Sem dúvida. 

És uma jogadora confiante?
Sim, sempre tenho fé. 

A equipa está unida para assegurar essa permanência? 
Sim, temos uma equipa forte que vai lutar para se manter porque ninguém quer descer. Trabalhámos muito quando estávamos na 3.ª e subimos para a 2.ª. Foi bom, experimentámos isso, mas agora queremos manter-nos nesta divisão, não queremos descer, obviamente. 

Estás há 4 anos em Portugal. Achas que o futebol feminino está a crescer bem? 
Está a crescer bem, muito bem. 

E muito depressa?
Não, acho que vai ao ritmo que tem de ser e acho que daqui a uns anos vai estar ao nível de Espanha. Ainda falta um bocado, porque Espanha vai muito à frente, mas não falta assim tanto para chegar lá. 

Elas vão ser sempre a minha família, abriram-me as portas, ensinaram-me tudo, confiaram em mim

Um jogo entre a seleção espanhola e a seleção portuguesa, torces por qual? 
Pela espanhola, sem dúvida. 

O que mais gostas no futebol?
A alegria. A terapia, a terapia de vir aqui e esquecer o que se passa lá fora, e também a disciplina que nos dá. Porque vir aqui com chuva, com frio, com vento, ninguém quer. 

Isso também torna uma pessoa mais rija, mais disciplinada, não é? 
Sim. E trabalhar em equipa também nos dá muito, é extrapolar para a vida pessoal, os valores do futebol que acrescentam muito. 

Como é a tua relação com os treinadores? Ouves o que dizem, discutes um bocadinho quando não concordas? 
Ouço o que dizem. Mas também, muitas vezes, como todas, não concordo em algumas coisas, mas ouço. Tem de ser. 

O que é que o futebol te tem dado ao longo destes anos?
Muitas amizades, amizades que se tornam família. Muitas alegrias. E algumas operações. A guarda-redes cortou uma bola, caiu e partiu-me o braço. Mas tudo se aprende, são dificuldades que nos fazem seguir. 

As lesões são lixadas.
São lixadas, mas aprende-se muito. Pensa-se porquê a mim, porquê agora, mas logo tudo tem um sentido e há que seguir. 

Joana, o que é, para ti, um bom jogo? 
Um bom jogo é ter muita comunicação dentro de campo, jogar com a bola nos pés, fazer muita movimentação, passar para o jogo o que fizemos nos treinos, e sobretudo apoiarmo-nos muito.