Joana, Rio Mau: “Gosto de jogar à bola, traz-me paz de espírito, ajuda-me nos dias menos bons” 

Joana Araújo joga à defesa e no meio-campo, e onde for necessária, na equipa do Rio Mau, na 4.ª Divisão. É uma jogadora pacífica, garante que é a mais calma do grupo. Joga pelo prazer de jogar, tem 45 anos, é professora de Matemática, esteve 20 anos sem o pé na bola, voltou ao clube da sua terra. Diz que vai arrumar as botas na próxima época.

Joana Araújo, Rio Mau
Fotos: Miguel Pereira/Magriça

Joana Araújo faz 40 quilómetros, ida e volta, para cada treino. Desde miúda que gosta de desporto, de fazer atividades, confessa que era uma maria-rapaz. É uma das fundadoras da equipa de futebol feminino do Rio Mau, clube de Penafiel, já tinha jogado futsal. É natural da freguesia onde joga, mantém uma grande e forte ligação à terra. “Gosto de jogar à bola, ninguém me ouve a reclamar, ninguém me vê fazer uma falta por maldade”, conta. Dentro do campo é como é fora dele.  

A equipa do Rio Mau é única, tem jogadoras com mais de 40 anos, a mais velha é Paula Marques e tem 54, tem jogadoras de 15. Joana Araújo gosta dessa diversidade, da companhia das colegas e amigas, do espírito que se vive nos treinos e nos jogos. E olha com satisfação para o crescimento do futebol feminino. “Tenho alunas que também são jogadoras e acham o máximo porque a professora também joga, gostam de ver, perguntam como é que ficou o jogo, como é que não ficou”, refere.

Como nasceu este gosto pelo futebol? 
Desde miúda, sempre fui muito maria-rapaz, sempre fiz tudo, sempre gostei de praticar tudo. Já tivemos aqui, em Rio Mau, canoagem e eu participei, tudo o que era atividade, eu participava. Depois o Rio Mau, pela primeira vez, teve uma equipa, tinha eu 15 anos e, nessa altura, não havia telemóveis, não havia outras atividades para nos entretermos, as miúdas juntaram-se, tínhamos 20 e tal jogadoras, fizemos torneios, jogámos e depois acabou. 
Fui para a universidade e eu e a Carina fomos para uma equipa de futsal aqui perto. Portanto, o meu último registo no ZeroZero foi exatamente há 20 anos. Fiquei 20 anos sem jogar, acabei aos 23 e regressei aos 43. Ao fim de 20 anos, voltei para aqui.

É a terceira época no Rio Mau? 
A terceira, sim, do clube. 

Joga em que posição?
Depende, por vezes, jogo a central quando é necessário, mas a minha posição preferida é um bocadinho mais à frente das centrais, central, trinco, é por aí. 

E como é como jogadora? 
Acho que sou a mais calma da equipa, não me chateio com ninguém, sou pacífica. Gosto de jogar à bola, ninguém me ouve a reclamar, ninguém me vê fazer uma falta por maldade. Sou a mais pacífica e tenho consciência disso. Gosto de acalmar as minhas jogadoras, sobretudo as mais novas, chamam-me a professorinha, reconhecem que eu tenho razão, mas dizem que não é fácil, que não é fácil. Digo-lhes sempre, principalmente quando jogamos em casa, que temos pessoas que vêm cá ver os nossos jogos, pessoas que nos conhecem. Eu, com 45 anos, tenho pessoas que vêm aqui, que me conhecem desde sempre, sabem quem eu sou, sabem quem é a minha família, e passar uma imagem negativa, incomoda-me, não gosto. E então sou dentro do campo como sou cá fora. 

Começámos a equipa, no primeiro ano, foi para nos conhecermos, criámos uma boa ligação, somos amigas e gostamos da companhia uma das outras.

Joana Araújo

O que é que o futebol lhe tem dado? 
Traz-me paz de espírito, ajuda-me nos dias menos bons. Venho jogar para relaxar, para esquecer os problemas lá fora, por isso, é que eu sou assim tranquila. Venho jogar para ir melhor embora, se for para ir embora chateada, depois do jogo, não venho aqui fazer nada. O objetivo é vir para esquecer os problemas lá de fora, o que é normal para uma pessoa que tem trabalho, que tem filhos.

E que joga futebol aos 45 anos. 
Há toda uma logística para se poder vir jogar pelo prazer, ninguém nos paga nada, até gastamos para vir e, como tal, eu venho para usufruir de jogar e da companhia das minhas colegas. Começámos a equipa, no primeiro ano, foi para nos conhecermos, criámos uma boa ligação, somos amigas e gostamos da companhia uma das outras. 

Sente-se que o ambiente é muito familiar. 
É, é muito familiar. Temos as pequeninas, temos as médias, temos as mais velhas, e isso é bom. É diferente das outras equipas todas, nós notamos essa diferença, mesmo as atletas que jogam contra nós, acham interessante o facto de ouvirem “mãe, mãe, a bola é tua”. De repente, como é que no meio do campo há uma mãe, e se há uma mãe é porque também há uma filha, então tem de haver idades diferentes. 
Nós jogámos sempre contra miúdas, havia só uma equipa, que já não está na nossa série, que também era composta por pessoas assim mais ou menos da nossa idade, mas fora isso nós jogámos contra miúdas, miúdas que ainda estão a estudar, nos 20 anos, e nós temos várias com mais de 30, algumas com mais de 40. É interessante ver a reação das jogadoras que jogam contra nós, que veem que somos uma equipa diferente, nós não andámos aqui para ganhar, estamos aqui pelo prazer, pelo gosto que temos ao futebol e pelo prazer de praticar desporto. 

Fica contente com este crescimento do futebol feminino?
Claro que sim. Eu vou arrumar as botas este ano, já era para ter sido no ano passado. Estamos a deixar, já temos as gémeas e miúdas com 20 e poucos anos, que também cá estão. Eu tenho alunas que também são jogadoras e acham o máximo porque a professora também joga, gostam de ver, perguntam como é que ficou o jogo, como é que não ficou. 
É positivo este crescimento, é um desporto como todos os outros, em todos os desportos há masculino e feminino, no futebol também tem de haver, não é?