João Ferreira terminou a época no Ouriense com a equipa a manter-se na 2.ª Divisão, logo na primeira fase do campeonato. Em sua opinião, a evolução do futebol feminino passa por aumentar o número de jogos, de equipas, de clubes. Por rever o calendário também. Não faz sentido jogar uma semana e parar duas, jogar duas e parar mais duas, diz. O ritmo competitivo quebra. “As jogadoras evoluem jogando, evoluem competindo”, sublinha.
É um técnico realista, consciente das limitações estruturais, orçamentais, logísticas. Não se senta no banco em dia de jogo, dá as indicações necessárias para dentro do campo, sabe que a postura de um técnico passa para quem está no relvado. Para si, há valores inegociáveis. Intensidade e compromisso são dois deles. É isso que gosta de ver numa jogadora. Para um treinador é fundamental ter uma atleta predisposta a ouvir, predisposta a aprender, com vontade de ser melhor.
A 2.ª Divisão está mais competitiva?
Acho que, no geral, a Liga BPI e mesmo a 2.ª Divisão estão mais competitivas. Se calhar, e esta é uma opinião muito pessoal, já não há uma diferença tão grande porque houve desinvestimento nas equipas que tinham maior investimento, o que levou a que as equipas que não tinham um investimento tão grande se aproximassem umas das outras. É um bocadinho por aí, mas sim, está mais competitivo. Acima de tudo estão mais equilibradas.
A criação da 4.ª Divisão de acesso livre foi uma boa ideia?
Acho que sim porque acabou por limitar o número de equipas nas diferentes divisões, acabou também por equilibrar um bocadinho o nível das equipas – quer queiramos quer não, viemos de uma 3.ª Divisão que, se calhar, era uma antiga 4.ª Divisão.
Se calhar, há equipas femininas para que os clubes tenham orçamento para direcionar para outros lados e depois acabamos por ter meninas muito novas a competir já em seniores e equipas de sub-17 a fazerem sub-17 e sub-19 só para terem equipa sénior, o que acabou por tabular um bocadinho com jogadoras mais novas, a equilibrar um pouco mais, a que não houvesse uma diferença tão grande. Também é importante elas jogarem, e faz todo o sentido, é assim que essas jogadoras também crescem, se estiverem num nível em que a taxa de sucesso é maior, vão ter um crescimento muito maior e muito melhor.
O crescimento do futebol feminino também passa por aí, haver mais divisões, mais miúdas a jogar?
Acho que sim. Mas, neste momento, por exemplo, o número reduzido de jogos que temos ainda é uma falha muito grande. Na minha opinião, o que vai ajudar a toda esta publicidade, tudo o que existe à volta do futebol feminino, é o aumento do número de jogos. Quer queiramos quer não, as jogadoras evoluem jogando, evoluem competindo. Se jogamos uma semana e paramos duas, ou jogamos duas e paramos mais duas semanas, acaba por travar.
Haver um maior número de jogos vai ser importante. Por exemplo, como há em Aveiro e como há no Porto, as taças distritais femininas ajudam a que haja mais jogos, ajuda a que as jogadoras menos utilizadas tenham mais um espaço de competição. Acho que passa por aí, termos mais jogadoras, mais clubes, mais jogos. É por aí que o desenvolvimento do futebol feminino vai acontecer.
O que é que privilegia num treino?
Intensidade, acima de tudo. Intensidade, compromisso. No patamar onde nós estamos, que é muito focado naquilo que vai ser o jogo, naquilo que é atingir os objetivos para esse treino sempre com foco no jogo no próximo fim de semana, há valores e questões que, para mim, são inegociáveis. A intensidade, o compromisso, o respeito pelo próximo, seja em treino ou a partir do momento em que entramos aqui neste espaço, são valores que têm de estar sempre presentes.

São essas as qualidades que uma boa jogadora deve ter?
Acima de tudo, sim. São valores que não são só para o treino, são valores que temos de ter para a vida, na nossa vida profissional, na nossa vida pessoal. E é isso que nós, eu e minha equipa técnica, tentamos incutir. Se conseguimos isso, sabemos que vamos ter melhores jogadoras, melhores atletas. O nosso plantel é muito jovem e é isso que tentamos fazer.
A intensidade, o compromisso, o respeito pelo próximo, seja em treino ou a partir do momento em que entramos neste espaço, são valores que têm de estar sempre presentes.
João Ferreira, treinador do Ouriense
É um treinador tranquilo ou mais agitado?
Já fui mais agitado, hoje começo a tentar ser mais tranquilo. Em treino, se tiver de elevar a voz, faço-o, mas, em jogo, tento ser menos emotivo, tento ser mais ponderado para tentar ter melhores decisões. Tento também passar uma mensagem de tranquilidade porque, quer queiramos quer não, a nossa atuação no banco acaba por influenciar as jogadoras. Se discutimos mais com o árbitro, se estamos mais alterados, isso acaba por, indiretamente, passar para as jogadoras. Então tento ser menos emotivo, mais ponderado, é uma das coisas que tenho tentado melhorar.
Eu tinha essa noção, vivia muito o jogo, era muito emotivo, e estou a tentar, dentro da ponderação, continuando a ser emotivo e a viver o jogo, transmitir uma postura mais tranquila.
E a palestra vem preparada de casa ou é o que sair no momento?
Por norma, está preparada, há pontos que estão preparados que são importantes abordar. Às vezes, é consoante a sensação que temos do grupo, como é que o grupo está naquele momento. Às vezes, pode haver uma outra situação que nos leva por outro caminho, não é que tenha de ser elaborada no momento, mas a emotividade que eu estava há pouco a falar, às vezes, na palestra, por uma ou outra situação, também acaba por ser exacerbada ou não, mediante aquilo que é a sensação que vamos tendo das jogadoras. Mas, por norma, está sempre preparada, ou minimamente preparada, sobre alguns pontos-chave que são importantes tratar.
No contexto onde estou, um bom jogo é chegar ao fim e ganhar, não vamos estar aqui com floreios, a florear a coisa.
Em dia de jogo, consegue estar calmo, e de vez em quando ainda se senta, ou tem de andar sempre em pé?
Por norma, estou sempre em pé o jogo todo.
A mandar orientações para dentro de campo?
As necessárias. No dia de jogo tento ser calmo, tento ser tranquilo, tento sempre manter as minhas rotinas, acho que isso é importante para nos acalmar. Quando alguma coisa sai fora daquilo que está programado, na minha opinião, acaba por não ser bom porque as rotinas são mesmo para isso, para nos dar conforto. Quando acabamos por sair dessas rotinas, acaba por haver algo diferente, algo que não estamos preparados. Portanto, tento sempre manter as rotinas, tanto a mim como às jogadoras, para nos deixar numa zona de conforto, para podermos abordar o jogo de forma tranquila e calma.
O que é que mais gosta no futebol feminino? O que lhe dá mais alegria ou felicidade?
A lealdade, acima de tudo, e a paixão pelo jogo. Quem faz um dia inteiro de trabalho e chega às oito da noite ou às sete e meia da noite e ainda vem com vontade para estar a ouvir aqui o “maluco” a dar indicações, e a seguir indicações, tem gosto por isso. E, depois, sentir que a jogadora está predisposta a ouvir, está predisposta a aprender, a querer ser melhor, para um treinador é fundamental.
Míster, o que é, para si, um bom jogo?
No contexto onde estou, um bom jogo é chegar ao fim e ganhar, não vamos estar aqui com floreios, a florear a coisa. Agora há outras coisas que acabam por ser importantes, tais como o desenvolvimento da jogadora, o desenvolvimento do nosso jogo. Chegar ao fim do jogo ou ao fim de vários jogos e percebermos que o nosso processo está melhor do que no primeiro dia, são aqueles objetivos que acabam por estar adjacentes.
Mas, no final de contas, e num ambiente competitivo, num ambiente onde atingir o objetivo é fundamental, um bom jogo é chegar ao fim e conquistar os três pontos.




