Jogar em sintético ou em relva natural. Nunca é a mesma coisa

Na Liga BPI, é obrigatório que os jogos do campeonato aconteçam em relvado natural, o que naturalmente significa um custo para os clubes que têm de investir nessa parte ou pedir campos emprestados, como tem acontecido. Treinar em sintético e jogar em relva natural é toda outra história.

Foto: Maria João Gala

O piso é uma parte importante de um jogo de futebol. Na Liga BPI, a regra está estabelecida: todos os jogos do campeonato têm de ser em relvado natural. Os clubes adaptaram-se à norma, investiram nessa área ou pediram campos emprestados a quilómetros de casa. A bola tem de rolar em relvado natural nos jogos que contam. Quanto aos treinos, não há qualquer imposição, cada equipa prepara-se no campo que está à disposição, seja sintético, seja relva natural.

Nuno Cristóvão treinou várias equipas de futebol feminino, o Sporting, o Torreense, o Racing Power, o 1.º de Dezembro, o Futebol Benfica, foi também selecionador nacional da equipa feminina, e não tem dúvidas. “Sou claramente a favor de se jogar, mas também treinar, em relva natural”, afirma. E porquê? “Porque a bola rola com muito mais qualidade.” A bola rola melhor. Mas não só. “Sou defensor da relva natural. Agora, é importante que se treine também em relva natural, porque isso depois tem consequências e tem efeitos naquilo que é o desenrolar do próprio jogo e no desenvolvimento das jogadoras”, sustenta.

As vantagens são superiores, portanto. Há, no entanto, várias questões. Uma delas são campos de relva natural que têm mais terra do que relva. E isso não é bom. Nestes casos, Nuno Cristóvão diz que é preferível um bom sintético que um campo que de relva tem pouco. “Se puderem jogar em relva natural é melhor do que jogar em sintético. Se puderem jogar em sintético é melhor do que jogar em piso de terra batida.” Há sintéticos e sintéticos. “Há sintéticos de última geração que são muito bons. Há muitos sintéticos que já quase parecem campos de relva natural.” Outra questão é o investimento, muitas vezes, avultado. “Quando não há condições para poder tratar a relva como deve ser, torna-se difícil. E é mais oneroso para os clubes terem campos de relva natural”, observa o ex-selecionador nacional.

É importante que se treine também em relva natural, porque isso depois tem consequências e tem efeitos naquilo que é o desenrolar do próprio jogo e no desenvolvimento das jogadoras

Nuno Cristóvão, ex-selecionador nacional da equipa feminina


Um relvado natural não é para todos. “Vemos equipas que andam a jogar fora, daquilo que até é a sua área geográfica, para jogarem em relva natural, porque o clube só tem um campo de relva natural e normalmente é para a equipa masculina.” E quando os invernos são rigorosos, constata Nuno Cristóvão, “não há condições duas equipas terem, por exemplo, dois jogos no mesmo fim de semana, mesmo que sejam passados dois dias ou no mínimo 24 horas.”

Fala-se que haverá mais lesões em campos sintéticos do que em relva natural, mas não há uma conclusão absolutamente esclarecedora. “Do ponto de vista técnico, há maior desenvolvimento e maior qualidade do jogo num campo de relva natural. Do ponto de vista das lesões, não sei se cientificamente já está comprovado.” A maior parte prende-se com o ligamento cruzado no joelho. Nuno Cristóvão faz uma observação. “No futebol masculino, há alguns jogos em que as equipas portuguesas vão jogar em relva sintética nas competições europeias. Portanto, isto também acontece. No entanto, a maior parte das competições de alto nível são jogadas em relva natural”, acrescenta.

Ter todas as divisões do futebol feminino a jogar em relvado natural é difícil, neste momento, para não dizer impossível, não há campos suficientes. Seja como for, Nuno Cristóvão continua a defender a relva natural e recorda a primeira época em que treinou o Torreense. “A equipa fez os jogos quase todos no seu estádio principal, houve fins de semana em que teve de jogar ao sábado e os outros ao domingo, ou os outros jogavam no sábado e nós jogávamos ao domingo, e a relva nunca estava estragada. As raparigas e as mulheres não estragam a relva, não fazem aqueles carrinhos que rebentam com a relva. Não fazem.”