Lara Dias começou a jogar futebol no recreio da escola. No início, o seu jeito chamou a atenção de um professor de Educação Física, depois captou o interesse de uma treinadora de uma equipa feminina num torneio em Ourém. Começou na baliza e nunca quis experimentar outra posição. Tem 21 anos, é a sua segunda época na Académica, e está na faculdade.
É guarda-redes e é capitã da equipa que ainda não perdeu um jogo. O grupo da Briosa está motivado, unido, e focado para subir de divisão. Ao longo da época, Lara tem notado algumas diferenças, tanto ao nível da qualidade, como de condições nesta 4.ª Divisão. Apesar de tudo, o futebol feminino, em sua opinião, está no bom caminho.
Sempre foste guarda-redes?
Sim, desde que comecei a jogar futebol. Sempre quis ser guarda-redes. Há muitos guarda-redes que dizem que começaram a pontas de lança, mas eu nunca tive muito interesse por jogar à frente. Sempre quis ir para a baliza. Até quando era miúda, na escola, comecei logo na baliza.
Porquê?
Não sei, na altura, cativava-me muito mais. Gostava mais de defender e de negar o golo do que fazer o golo. Sempre gostei muito mais.
Como te defines como guarda-redes? Focada, agitada?
Sou calma. Normalmente dizem que os guarda-redes são malucos, mas acho que sou um pouco mais calma.
Como está a ser a experiência na Académica?
Muito boa. De todos os clubes por onde já passei, é, sem dúvida, um clube com outra história, com outro nome. Nós, que jogamos cá, sentimos sempre muito isso em campo e até fora. É diferente.
E como é jogar numa equipa que só tem vitórias até agora?
É muito bom. É sinal de que trabalhamos bem.
E que defendem bem.
Exatamente. É sempre um bom indicador. Quanto menos golos sofrermos, melhor. É sinal de que trabalhamos muito e que somos focadas para que isso aconteça.
Estão reunidas as condições para subir de divisão?
Sim, acho que temos trabalhado, temos um grupo unido e que está todo focado nesse mesmo objetivo. Portanto, acredito que sim.
Neste momento, o meu único sonho é mesmo desfrutar e sentir-me feliz a jogar
Lara Dias
Tens algum sonho no futebol?
Neste momento, o meu único sonho é mesmo desfrutar e sentir-me feliz a jogar.
Quem estuda treino desportivo, pode ser treinadora.
Sim. Também tenho essa ambição de um dia, quando não puder jogar mais, focar-me mais na área do treino. Mas, enquanto der para jogar, o sonho é jogar e desfrutar ao máximo disso.

Como concilias os estudos com jogar? É preciso disciplina? Como organizas o teu tempo?
Não é muito fácil, é mesmo preciso ser muito disciplinada, saber definir horários. Já sei que a esta hora da noite vou ter treino. Portanto, tenho sempre de colocar o estudo e o trabalho para um bocadinho mais cedo, mais para a tarde. Também nunca fui daquelas pessoas que gostam de fazer noitadas a estudar. Prefiro focar-me à tarde no que tenho para fazer de tudo o que seja faculdade. E depois, a partir daí, vir para aqui e vir só focada no treino e não na faculdade.
Quais as tuas referências no mundo do futebol?
A nível do futebol masculino, sempre tive um guarda-redes de que gosto muito, que é o Neuer, por ser um guarda-redes um bocadinho fora da caixa, diferente, – aliás, até se diz que foi ele que mudou um bocadinho o futebol por arriscar sempre muito mais do que os outros.
E no feminino?
No feminino, quando comecei, gostava muito e ainda gosto, apesar de, neste momento, não ter tanto tempo de jogo, da Rute Costa.
Se pudesse chegar com este clube a uma divisão mais acima, era algo que me deixaria muito contente
As tuas expectativas passam por chegar a um clube maior?
A um clube maior, não digo, mas a uma divisão superior. Já estou num clube muito grande, se pudesse chegar com este clube a uma divisão mais acima, era algo que me deixaria muito contente.
A 4.ª Divisão é uma divisão competitiva?
Mais ou menos. Temos algumas equipas equiparadas, mas também temos algumas diferenças a nível de qualidade e até de condições. É isso que vamos reparando ao longo da época.
Há disparidades?
Sim.
Como vês o crescimento do futebol feminino em Portugal?
Acho que estamos num bom caminho. Termos este número de equipas a aparecer, que era algo que há alguns anos não víamos, termos este número de participantes, que há umas épocas para cá não se via, tantas meninas, tantas mulheres a querer jogar futebol. Nesse sentido, o crescimento tem sido muito bom e prevejo que continue a ser, que haja mais meninas, mais raparigas, mais mulheres a querer continuar a jogar futebol e fazer do futebol em Portugal algo equiparado ao masculino, um dia.
Ao jogar com rapazes, as raparigas são obrigadas a desenvolver um bocadinho mais as capacidades técnicas
Começaste a jogar com que idade?
Com 11.
Na escola ou entraste logo para algum clube?
Comecei a jogar na escola e, na altura, um professor de Educação Física quis que fosse jogar futebol para a equipa dele. Na altura, como ainda não havia muitas equipas femininas no meu escalão, comecei com os rapazes, mas o meu pai, ao início, não gostou muito da ideia e não me deixou jogar lá.
Depois lá, na minha terra, às vezes, fazíamos uns encontros, uns jogos, eu costumava ir. Um dia, fomos a Ourém fazer um jogo de treino. A treinadora da equipa adversária disse-me para ir jogar para lá, que tinha equipa feminina, que era diferente. Apesar de ter começado com os rapazes, acabei por ficar lá e ingressar no futebol feminino.
Há quem diga que jogar com rapazes dá um certo traquejo.
Sim, é diferente. As raparigas são obrigadas a desenvolver um bocadinho mais as capacidades técnicas, a desenvolver mais a parte tecnicista, por os rapazes usarem muito mais o contacto físico.
Como guarda-redes, o teu pior receio é um penálti ou isso faz parte?
Faz parte, não é assim uma coisa que tema muito. Apesar de não ser uma das minhas melhores características, não é uma coisa que tema muito.
Lara, o que é, para ti, um bom jogo?
Para mim, individualmente, como guarda-redes, um bom jogo é não sofrer golos. É o que me deixa mais contente. Coletivamente é ganhar o jogo e, acima de tudo, ver que as minhas colegas e a minha equipa desfrutam do jogo. Coletivamente, fazer um jogo bem conseguido.



