É a terceira época que treina uma equipa de futebol feminino. Está a correr bem, para já. Trabalha dia a dia, analisa a margem de progressão e a evolução de cada jogadora, valoriza todas as componentes do seu crescimento. Neste momento, os olhos estão postos no apuramento de campeão. A subida de divisão é um objetivo.
Subir à 2.ª Divisão é o maior objetivo desta época?
Sim, é um dos. Há um conjunto de passos que obrigatoriamente temos de dar para chegarmos a esse ponto. Mas a meta final da nossa caminhada passa por conseguir subir e passar, na próxima temporada, para a 2ª Divisão Nacional.
A equipa está bem posicionada. Está a ser feito um bom trabalho, portanto.
Para já, as coisas estão a correr bem. Este campeonato é composto por duas fases, sabemos que para ir à fase de apuramento de campeão temos de ficar nos três primeiros lugares da nossa série. Para já, estamos bem, estamos a crescer, que é também o que se pretende. Tudo o que temos feito, até ao momento, tem como principal objetivo prepararmo-nos para uma segunda fase que sabemos que vai ser mais complicada. Os adversários terão outro tipo de argumentos e os pontos serão mais difíceis de obter. Mas, para já, as coisas estão a correr dentro do que pretendíamos.
Tem uma equipa motivada e unida ou ainda precisa de alguns ajustes?
Verdade seja dita, nós “herdámos” um bom grupo do ponto de vista humano. Nesse aspeto, não nos podemos queixar minimamente. A ideia foi reforçar também esse lado que, para nós, é muito importante. Enquanto equipa técnica valorizamos muito isso. Acho que temos conseguido com que o grupo cresça do ponto de vista humano.
A nossa forma de liderar pretende que o crescimento seja simultâneo, individual e coletivo, humano e futebolístico. Acreditamos muito neste processo de humanização do futebol, achamos que é a melhor forma de podermos extrair aquilo que cada uma das jogadoras individualmente tem de melhor.
É uma equipa de continuidade, não houve muitas mudanças?
Houve sete ou oito alterações apenas, grande parte do grupo manteve-se. O grupo tinha qualidade já na época passada, saíram algumas das jogadoras mais experientes, mas, grosso modo, ficou boa parte do plantel que transitou da época passada. E isso também nos ajuda porque são jogadoras que têm qualidade, são jogadoras que conhecem a casa, são jogadoras que têm um pouco da mística feirense. Depois é conjugar com aquilo que trouxemos de reforços e com a nossa forma de ver o futebol.
São jogadoras que têm qualidade, são jogadoras que conhecem a casa, são jogadoras que têm um pouco da mística feirense
Laurindo Filho
Qual é o seu método de trabalho? Como prepara os treinos?
Preparamos as coisas de forma normal. Inicialmente, pretendemos sempre trabalhar com meso ciclos, ou seja, tentamos identificar para cada mês, dentro daquilo que encontramos ou achamos que vamos encontrar, características coletivas. Depois, preparamos exercícios que nos permitam a cada mês crescer em determinado sentido.
Ao fim de algum tempo, sentimos a necessidade de olhar para as coisas de uma forma um bocadinho mais micro, ou seja, passamos a trabalhar mais com microciclos semanais, o que significa que, no final de cada sessão de treino, fazemos uma análise daquilo que correu bem, daquilo que correu menos bem, daquilo que podemos continuar a trabalhar, daquilo que já está assimilado e que, se calhar, já não necessita de tanto cuidado da nossa parte. Mas temos trabalhado muito dia a dia, olhar sempre para aquilo que foi feito, perceber que margem houve de progressão e de evolução, tendo em conta a nossa forma de olhar para o futebol.
Obviamente que nos interessa saber aquilo que os adversários fazem, mas estamos muito mais preocupados com a nossa identidade e com a nossa forma de jogar. Não atacamos nem defendemos mediante o que os outros fazem, estamos muito mais interessados em fortalecer aqueles que são os nossos pontos mais fortes e tentar esconder aqueles que são os nossos pontos menos fortes, para depois chegar aos jogos, seja ao sábado ou ao domingo, e, independentemente da forma como o adversário se apresenta em campo, sermos capazes de levar a nossa adiante. Ou seja, fazer com que a nossa ideia de jogo seja mais forte para podermos vencer.
Não faz aquelas palestras sobre o que a equipa adversária faz, as jogadoras mais fortes e os pontos mais fracos?
Não falamos sobre o adversário. É uma estratégia, digamos assim. Nós, a equipa técnica, sabemos o que é que o adversário faz. Ultimamente, o que acontece é, no dia do jogo, uma pequena nota, atenção, esta jogadora costuma fazer isto, ou estas duas jogadoras fazem aquilo, mas muito mais centrados naquilo que nós somos, naquilo que podemos e que devemos fazer, porque, verdade seja dita, é aquilo que nós controlamos. É aquilo que fazemos durante a semana, para depois transferir para os jogos.
O que é que mais valoriza nas jogadoras num dia de treino? A parte física, técnica, a parte emocional também?
Trabalhamos tudo em conjunto, não conseguimos compartimentar os exercícios. Temos sempre a preocupação de todos os exercícios terem conteúdos que têm muito a ver com a nossa forma de jogar. Ou seja, todos os objetivos dos exercícios têm claramente como principal função levar as jogadoras para uma situação de treino muito semelhante àquilo que vão encontrar em jogo. Obviamente não sabemos como é que o adversário vai procurar condicionar a nossa forma de jogar, mas, ainda assim, a nossa preocupação é que o treino seja o mais aproximado possível daquilo que é o jogo. E depois, obviamente, aquilo que valorizamos mais é a capacidade de trabalho, dentro de tudo o que lhes pedimos. Sabemos que para conseguirem apresentar índices satisfatórios, em termos de capacidade de trabalho, elas têm de estar bem do ponto de vista físico, do ponto de vista mental, psicológico, emocional, etc.

E que mensagens transmite nas suas palestras?
Parafraseando uma das nossas capitãs, costumo transmitir emoção de forma racional.
O que é que isso quer dizer?
Sou uma pessoa muito racional. Gosto de saber os quês e os porquês de tudo e mais alguma coisa. Sou um bocado chato nesse aspeto, admito, sou um bocadinho exaustivo porque vou mesmo ao pormenor. Mas tenho a noção de que em dias de jogo, o jogo, por si só, já tem uma carga emocional elevada. E eu tento tirar um bocadinho dessa carga, que elas racionalizem e percebam que se nós fizermos aquilo que fazemos durante a semana, estamos sempre muito mais próximos de conseguir vencer o adversário, seja ele qual for. É por aí que tento passar a mensagem. Obviamente que, por norma, antes do grito, há sempre ali uma coisinha um bocadinho mais emocional, seja algo que li algures, seja uma lembrança que, entretanto, me ocorre.
Por norma, as palestras não são sempre tão preparadas quanto isso. Eu gosto muito mais de falar com o coração no momento do que estar ali com o texto decorado. Tento falar de forma racional tudo aquilo que tem a ver com sentimentos e emoções.
Sou uma pessoa muito racional. Gosto de saber os quês e os porquês de tudo e mais alguma coisa. Sou um bocado chato nesse aspeto, admito, sou um bocadinho exaustivo porque vou mesmo ao pormenor
Está na terceira época a treinar uma equipa de futebol feminino. Como olha para este crescimento de futebol feminino em Portugal nos últimos anos? Tem sido consistente ou há ainda algumas fissuras?
Não diria consistente. O facto de termos cada vez mais equipas não significa que haja um crescimento. É óbvio que há cada vez mais praticantes, é óbvio também que em algumas zonas do país, porque isto não é algo transversal, há cada vez mais praticantes ao nível da formação, e isso é muito importante.
Mas, a meu ver, a nossa federação não tem feito um bom trabalho naquela que é a base de futebol feminino em Portugal, ou seja, na 4.ª e na 3.ª divisão. As medidas tomadas, os apoios dados, estão muito mais direcionados para a Liga BPI e para a 2ª Liga. Eu percebo, por um lado, mas entendo que, numa sociedade, para quem está no topo da pirâmide estar bem, a base tem de estar muito sólida. Penso que o futebol feminino em Portugal ainda não tem essa solidez, ainda não está devidamente bem consolidado, porque há um desfasamento muito grande, não só ao nível das infraestruturas e dos investimentos, mas também da própria qualidade das intervenientes, da própria qualidade também dos treinadores. É necessário fazer um investimento muito grande, muito avultado. É preciso que haja aqui um projeto bem pensado, bem estruturado, porque senão este trabalho que foi desenvolvido nos últimos 15 anos, pela Federação Portuguesa de Futebol com a liderança de Fernando Gomes, vai ficar um pouco para trás. Se não for bem aproveitado seria um crime de lesa-pátria.
Ainda falta talento ao futebol feminino em Portugal? É por isso que temos várias jogadoras estrangeiras?
A jogadora portuguesa, futebolisticamente falando, tem aqui um atraso significativo com as principais potências do futebol europeu e mundial, 15, 20, 25 anos, se quisermos comparar com Espanha, com os países nórdicos, com a Alemanha, Estados Unidos, Brasil. Estamos muito atrasados a esse nível. Agora, aquilo que se passa, no que diz respeito à entrada de jogadoras estrangeiras, é um dos vícios que o futebol feminino está a buscar ao futebol masculino.
Isso explica-se facilmente porque onde há investimento estrangeiro, há interesses, havendo interesses, a formação deixa de ser olhada da mesma forma, aquilo que é nacional deixa de ser valorizado também da mesma forma e, consequentemente, vão-se buscar jogadoras que, morfologicamente falando, são maiores, são mais potentes, são mais rápidas, são mais agressivas. Algumas têm um entendimento de jogo superior, mas não são todas. Penso que é algo que a nossa federação tem de começar a olhar com especial carinho e atenção porque, se isto continuar assim, qualquer dia olhamos para a 2.ª e para a 1.ª Liga e mais de 50% das jogadoras serão estrangeiras, o que, na minha opinião, será muito mau, será contraproducente para o futebol feminino português, em especial para a formação das jogadoras portuguesas.
Também por isso é que é importante a profissionalização?
Também, também.
Tentamos, dentro daquele que é o nosso contexto, utilizar o maior número de ferramentas para, dentro do amadorismo, sermos o mais profissional possível. Nem sempre é possível, como é óbvio, nem sempre é fácil
Está na 3ª Divisão, tem jogadoras que trabalham, que não podem fazer vida do futebol. Há aqui uma desigualdade considerável?
Sim, isso é óbvio, e também em termos do que são os orçamentos disponíveis para o pagamento de ajudas de custo ou algo do género. A verdade é que tentamos dissipar um pouco essas diferenças através da qualidade do trabalho, através, se calhar, da aposta em coisas que outras equipas técnicas, por exemplo, não apostam. Filmamos os jogos não só por uma questão de análise individual e coletiva. Estamos a fazer um estudo individual de cada uma das jogadoras, mediante as posições que jogam. Quando chegarmos ao final da 1ª fase, vamos conseguir apresentar esse estudo para cada uma delas.
Nós, ao nosso nível, dentro daquilo que nos é possível, temos feito um trabalho no sentido de perceber a massa gorda das jogadoras, as medidas, de que forma podemos ajudar. Tentamos, dentro daquele que é o nosso contexto, utilizar o maior número de ferramentas para, dentro do amadorismo, sermos o mais profissional possível. Nem sempre é possível, como é óbvio, nem sempre é fácil.
Temos 27 jogadoras portuguesas, todas elas trabalham, não há ninguém que viva única e exclusivamente do futebol. Eu e a equipa técnica também temos outros trabalhos, para além de estarmos aqui no Feirense, e seria importante na 1.ª e 2.ª ligas dar esse passo rumo à profissionalização. Mas antes disso, volto a dizer, penso que é mais importante trabalhar naquilo que é a 4ª e 3ª divisões, quando estiverem devidamente consolidadas em termos de infraestruturas, de ideias, de projetos, etc., aí sim, penso que faz sentido olhar para o topo da pirâmide. Se vamos profissionalizar a 1.ª e 2.ª Liga e não fizermos nada relativamente a quem está na 3.ª e na 4.ª divisão, o fosso vai ser cada vez maior, e será cada vez mais difícil para as equipas que estão nestas últimas duas divisões conseguirem ascender às divisões que são profissionais.
Laurindo, o que é, para si, um bom jogo?
Honestamente, para mim, um bom jogo é aquele em que a equipa faz tudo aquilo que nós temos trabalhado desde o dia 19 de agosto, que foi quando começámos a pré-época, independentemente do resultado. Posso dar um exemplo: empatámos no Boavista, 1-1, aqui ganhámos 3-0 ao Romariz, e eu gostei muito mais da nossa exibição frente ao Boavista do que ao Romariz. Tem a ver com aquilo que é o respeito do trabalho que estamos a desenvolver, pela identidade que estamos a tentar criar. Eu sei, por experiência própria, porque já era assim no masculino e também tem sido assim no feminino, que aquilo que nós fazemos é muito diferente daquilo que há por aí. Não há uma única equipa em Portugal que jogue aquilo que o Feirense está a jogar neste momento. Estou à vontade para o dizer, da 4ª Divisão à Liga BPI, não há uma equipa em Portugal que jogue o futebol que estamos a jogar.
Que futebol é esse?
Tem de vir ver.



