Aos sete anos, Leonor Granja começou a jogar futsal com rapazes. Ficou quatro anos até que passou para uma equipa de futebol feminino do Rio Tinto, depois de ter ido a um open day do clube e ter gostado da experiência e das colegas. Tem 18 anos, joga no meio-campo, é uma jogadora criativa e uma das capitãs. A equipa prepara-se para o play-off para tentar garantir a manutenção na 2.ª Divisão. Garante que o grupo está motivado e focado no objetivo.
Na sua opinião, o futebol feminino tem evoluído e conquistado visibilidade nos últimos anos. Lembra-se de não ter referências quando era mais pequena. No entanto, é preciso continuar a caminhada, comenta. Gostava de chegar à seleção nacional A e jogar lá fora, se possível no campeonato inglês. “Em Inglaterra, enchem-se estádios, aqui ainda não. É essa atmosfera que eu quero viver”, confessa.
Começas a jogar futebol no Rio Tinto, antes jogaste futsal. Como passas do futsal para futebol?
Estava numa época normal de futsal e aleijei-me num treino. Não fui convocada para um jogo, mas sentia-me bem para jogar. Nesse fim de semana, como não fui convocada, a minha mãe viu nas redes sociais o Open Day do Rio Tinto. Acordei, nesse dia de manhã, e a minha mãe veio ter comigo e perguntou-me se queria experimentar futebol ou se não me interessava. Como no futsal jogava com rapazes, também queria perceber qual era a realidade de jogar com raparigas, estar no mesmo balneário e até mesmo a realidade do futebol, relva, um campo maior. E disse que sim, claro, experimentar também não custa nada.
Cheguei, dei-me logo bem com todas as colegas, adorei. E, realmente, faz muita diferença ter um balneário só de raparigas do que, com os rapazes, ter um balneário só para mim ou ter de esperar para eles tomarem banho ou ao contrário. Foi logo uma abordagem incrível e adorei.
Não voltaste ao futsal?
Não.
Foi natural passares do contexto do futsal para o contexto do futebol?
Sim. As colegas facilitaram esse processo, sinceramente. Se não me tivesse dado bem com toda a gente logo no início, se calhar teria sido um bocado mais difícil, mas como não foi o caso, tornou-se tudo muito mais fácil.
O facto de teres começado a jogar com rapazes deu-te capacidades para começares a jogar futebol com raparigas? Ou isso não foi determinante?
Acho que sim, mas como éramos muito novos nessas idades, não há muita diferença entre os rapazes e as raparigas. Mas sim, posso dizer que sim, no contacto físico.

Jogas no meio-campo, neste momento. Antes disso, experimentaste outras posições?
Ainda hoje experimento várias posições, já joguei a central.
E há alguma que prefiras?
Eu prefiro jogar no meio-campo.
Porquê? Pela oportunidade de construir o jogo?
Sim. É o passe decisivo, é a visão de jogo.
Como jogadora, como és dentro de campo?
Acho que sou uma jogadora criativa, gosto de fazer coisas bonitas, digamos assim. Às vezes, opto pelo mais difícil do que pelo mais simples. Gosto de criar.
Gosto de fazer coisas bonitas, digamos assim. Às vezes, opto pelo mais difícil do que pelo mais simples. Gosto de criar.
Leonor Granja
Tens estado nas seleções nacionais jovens. Lembras-te onde é que estavas na primeira vez que soubeste que tinhas sido convocada?
Em casa. O míster André ligou à minha mãe a dizer que tinha uma notícia – eu não tinha sido convocada logo na primeira convocatória, mas uma jogadora lesionou-se e fui chamada para o lugar dela. Ele já me tinha dado umas dicas nos treinos, a dizer que só tinha de continuar a lutar porque o meu sonho estava mais perto do que eu esperava. Ligou à minha mãe e deu a notícia. No dia seguinte, fui logo para a seleção Sub-15.
E chegaste à seleção nacional Sub-19 que ficou à porta do apuramento para o Euro, depois do empate com a seleção espanhola. Esses momentos são duros para ti?
Não fui convocada para a qualificação para o Europeu, mas sim, é, mesmo ver em casa porque eu sei o quão trabalho elas tiveram. É muito duro porque é um trabalho de muito tempo, estamos juntas há muito tempo e por um empate não passar é muito complicado.
É ingrato, depois de tanto esforço…
É, mas o futebol é assim.
Como vês o crescimento do futebol feminino nos últimos anos? Tem mais visibilidade?
Muito mais visibilidade. Por exemplo, mesmo eu sendo nova, quando era pequena não tinha uma jogadora favorita porque não havia essa realidade. Eu só via o futebol masculino. Para mim, o futebol feminino era a Jéssica Silva, a Ana Borges, e nem sequer conhecia mais nenhuma jogadora.
Agora o mundo do futebol feminino é completamente diferente. Até acompanho mais as jogadoras do futebol feminino do que os jogadores do futebol masculino, sem dúvida.

Quais as tuas referências no futebol feminino?
Kika Nazareth, Alexia Putellas.
Tens algum sonho no futebol?
Eu quero chegar à seleção A e ir para fora a curto prazo.
Qual o campeonato que preferes?
O campeonato inglês. Acho que é um mundo completamente diferente. O Chelsea, na próxima época, vai jogar no estádio principal. É outro mundo, completamente. O futebol feminino lá é realmente valorizado. Em Portugal acho que ainda não estamos nessa fase. Em Inglaterra, enchem estádios, aqui ainda não. É essa atmosfera que eu quero viver, é o profissionalismo que aqui não há.
Caminhamos para esse profissionalismo?
Sim, isso sem dúvida.
Estamos muito focadas. O nosso objetivo é, sem dúvida, ficar na 2.ª Divisão. Não se fala noutra coisa.
Ainda é difícil, em Portugal, raparigas e mulheres conseguirem viver só do futebol…
Sim, é. Lá está, só no Benfica, nessas equipas grandes. Mas, por exemplo, nem sei se nas equipas que estão um bocado mais abaixo na Liga BPI conseguem. E na 2.ª Divisão muito menos.
O Rio Tinto está, neste momento, a lutar pela manutenção na 2.ª Divisão, irá a play-off. Como é que está o ambiente da equipa? Tudo concentrado para dar o melhor?
Claro, sempre. Estamos muito focadas. O nosso objetivo é, sem dúvida, ficar na 2.ª Divisão. Não se fala noutra coisa.
És uma jogadora que absorve o que os treinadores dizem. Ou às vezes, és um bocadinho crítica e colocas em causa algumas coisas?
Consigo ser um bocadinho dos dois. Absorvo, claro, o que os treinadores me dizem, mas também gosto de ter a minha opinião. Acho que consigo ser os dois.
Como é que lidas com uma derrota?
Muito mal. Gosto de refletir. E depois é para trás das costas e trabalhar.
Como é que festejas as vitórias?
Com muita festa.
O que é que o futebol te tem dado?
Muita felicidade. Acima de tudo, amizades.
Leonor, o que é, para ti, um bom jogo?
Boa pergunta. É sofrer até ao final. Ao último minuto é que se decide o jogo. Não é sofrer com 0-0, é com golos bonitos, coisas bonitas. Por exemplo, o jogo do PSG-Bayern, muitos golos, coisas bonitas.



