Aos 18 anos saiu do Brasil para embarcar numa aventura nos EUA, para jogar no futebol universitário e estudar Fisioterapia. Letycia Bonifácio teve de crescer rapidamente, assumir uma independência longe do apoio familiar. A confiança que tem dentro de campo é espelhada na sua vida pessoal. Abraçou o desafio norte-americano, concluiu a sua formação e atravessou o Atlântico para jogar em Portugal, sempre sem a família por perto.
“Foi incrível a aventura nos Estados Unidos. O futebol lá é muito evoluído, tal como a estrutura dos clubes. Em quatro anos, vivi uma experiência de vida que acho que em 10 talvez não conseguisse viver em alguns clubes de primeira liga. Foi um desafio muito bom, mas não foi fácil. Tive de amadurecer rapidamente ao estar longe da família. Ansiava sempre pelas férias para os poder visitar”, conta.

A defesa central foi figura de proa na 2ª jornada da 2ª Divisão Nacional ao apontar os três golos da vitória do Futebol Benfica na receção ao Ouriense (3-1). Todos de penálti. “Só falhei um na época passada e esta foi a primeira vez que fiz três golos de penálti num jogo. Para uma defesa central não é muito comum”, confessa.
O feito invulgar coroou uma tarde perfeita para a camisola 4 do “Fofó”. Com 12 golos assinados na temporada anterior, Letycia leva já quatro remates certeiros na presente época. Primeira escolha da equipa para as grandes penalidades, a capitã afasta o rótulo de batedora infalível, mas não esconde a frieza no momento da decisão. “Não sou especialista, mas sou segura. E se estiver confiante, é dentro”.
A jogadora sublinha o mérito coletivo por detrás do seu hat-trick, num jogo que “correu muito bem, foi bem equilibrado. No final sobressaímos porque houve um trabalho conjunto muito grande”. Para Letycia, o rendimento individual depende sempre da equipa. “Sou uma jogadora segura, confio bastante em mim e na equipa. Uma jogadora não faz uma equipa, por isso a partir do momento em que confio nas pessoas que estão ao meu lado, também confio em mim mesma”, explica.

A cumprir a terceira época no emblema lisboeta, Letycia Bonifácio enverga a braçadeira de capitã num plantel renovado e mais jovem. Uma liderança exercida sem esforço. “Não sinto como um peso liderar a equipa. É normal, é de convívio, acontece naturalmente”, explica a defesa, destacando que o verdadeiro diferencial do “Fofó” reside na sua comunidade: “O que torna o clube diferente dos outros são, com certeza, as pessoas, o convívio e as amizades. Da direção à roupeira, ou quem faz o nosso almoço, todo o mundo é muito unido e conhece-se por nome e sobrenome. Mas isto é a mística de um clube histórico”.
O que torna o clube diferente dos outros são, com certeza, as pessoas, o convívio e as amizades. Mas isto é a mística de um clube histórico.
Letycia Bonifácio
Essa mística sente-se no apoio das bancadas, desde os adeptos seniores às atletas das camadas jovens. “As meninas dos sub-15 e sub-17 vêm sempre apoiar, tal como os pais. Sente-se mesmo que estamos em casa”. Quanto objetivos para esta época, o discurso é pragmático, mas ambicioso. “O primeiro objetivo é chegarmos à fase de apuramento de campeão. Depois logo se vê. Ambicionamos o máximo, mas é um passo de cada vez”, projeta, garantindo acreditar no sucesso do Futebol Benfica. “Já lá estivemos e um dia chegaremos lá de novo. Acredito que o Fofó vai regressar à elite do futebol nacional”, refere
A paixão pelo futebol nasceu cedo no Brasil impulsionada pelo apoio dos pais, que a inscreveram nas primeiras escolinhas federadas aos 12 anos. O grande salto ocorreu aos 18, rumo aos Estados Unidos, sem domínio da língua inglesa mas com determinação intacta. “Nem sabia inglês, não sabia o que queria da vida, só queria jogar futebol. Tive de crescer em todos os aspetos e isso facilitou muito a minha vinda para Portugal, porque já cheguei muito madura e habituada a viver sozinha”, recorda.
Tive de crescer em todos os aspetos e isso facilitou muito a minha vinda para Portugal, porque já cheguei muito madura e habituada a viver sozinha.
Letycia Bonifácio
A transição para a Europa deu-se com a ajuda do pai de uma colega portuguesa dos tempos universitários, estreando-se em solo luso com as cores do Damaiense. Olhando para a evolução da modalidade no país, a central reconhece progressos, mas refere que ainda há passos estruturais a dar na visibilidade. “Tem crescido, mas acho que ainda falta bastante para evoluir, nomeadamente mostrar os jogos com transmissão na televisão acessível a todos. Os meus pais, nos Estados Unidos, conseguiam ver os meus jogos no nível universitário, aqui no escalão sénior é mais difícil conseguirem assistir”.
Longe da família, que continua no Brasil, Letycia encontrou em Lisboa a sua segunda casa, rodeada de amigas que apelida de “família adotiva”. Concilia os relvados com o trabalho numa empresa que localiza de bolsas de estudos em instituições de ensino norte-americanas, encontrando oportunidades a estudantes e atletas que queiram dar continuidade à prática desportiva enquanto concluem os estudos académicos nos Estados Unidos. Também é fisioterapeuta de algumas das equipas jovens do “Fofó” uma experiência que lhe permite “estar mais próxima da juventude do clube e compreender a fundo as metas desportivas da instituição”.

No currículo soma ainda o título de campeã nacional de futebol de praia conquistado no último verão pela AD Pastéis, modalidade que abraçou a convite de Carla Couto. “No começo foi muito difícil, mas tínhamos uma equipa muito boa. Acabou o jogo da final e choramos de gratidão por todo o sacrifício do verão, pelos treinos à noite e viagens. Não era uma paixão no início, mas virou paixão agora”, diz.
Fã confessa da lenda brasileira Formiga e atenta às referências defensivas atuais como Thaís, do Corinthians, Letycia Bonifácio continua a afirmar-se no centro da defesa. Com tranquilidade, voz de comando, a capitã vai desenhando o rumo do “Fofó” na presente temporada.



