É licenciada em Educação Física para dar aulas no Ensino Básico e Secundário, nunca exerceu, gostaria de ensinar, mas a conjuntura não ajuda. Neste momento, trabalha numa serralharia. Desde sempre apaixonada por desporto, praticou várias modalidades. Há 13 anos começou a jogar futebol. Quando era criança, não havia clube com equipa feminina perto de sua casa.
Tem 31 anos e não tem um sonho individual no futebol, o sonho é coletivo. Admite que o seu prazo de validade aproxima-se do fim neste meio. Olha para o crescimento do futebol feminino com algumas interrogações e observações. Em seu entender, é uma evolução que peca por tardia, lenta e pouco objetiva. Os apoios vão sobretudo para cima e não se alimenta quem está mais abaixo.
Como surge a paixão pelo futebol?
Surgiu como a paixão pelo desporto. Sempre pratiquei desporto, desde pequenina. Já fiz quase todas as modalidades que existem. A nível federado, não. Só mesmo futebol e natação. E o futebol sempre foi a modalidade que mais me atraiu. Infelizmente, na zona onde eu morava não havia clubes, só havia clubes de futebol masculino. Não havia nenhuma equipa que tivesse futebol feminino. Então, assim que soube de uma equipa, neste caso o Valadares, fui para lá desde o segundo treino de captações. Continuei lá e foi lá que comecei o meu percurso.
Ser capitã é uma responsabilidade acrescida para “gerir” a equipa?
Sim e não, porque as capitãs não são mais nem melhores do que ninguém na equipa. Apenas tentamos ser mais um elo de ligação entre as diferentes entidades do clube, seja a equipa técnica, seja a direção, seja qualquer tipo de departamento relacionado com o clube. Tentamos também ser uma ponte próxima, principalmente do treinador para as jogadoras. Tentar ser uma extensão do treinador dentro de campo e tentar passar as ideias que ele pretende que se coloquem em prática.
És capitã insistente e crítica ou capitã calma que mantém a tranquilidade dentro de campo?
Tento manter a calma. Às vezes, nem sempre é isso que se passa no interior, mas o meu exterior tenta sempre passar uma perceção de calma. Até porque se os ânimos, muitas vezes, já estão exaltados, se vou pôr mais lenha na fogueira, ainda é pior. Por isso, tento sempre acalmar um bocadinho a situação, mas o sangue é quente e corre cá dentro, não é? Vamos levando as coisas a bom porto.
O que mais gostas do jogo jogado, de estar em campo?
Pergunta difícil. Um bocadinho de tudo. Gosto de ser a pessoa que faz aquele corte quando já parece impossível. Dou mais valor a isso do que a marcar um golo. Gosto mais de fazer a assistência do que marcar o golo. Por isso, a utilidade que tenho dentro de campo é o que eu mais gosto.
Tento sempre acalmar um bocadinho a situação, mas o sangue é quente e corre cá dentro, não é? Vamos levando as coisas a bom porto
Cláudia Machado
Acreditas que o Feirense vai subir à 2.ª Divisão?
Quero acreditar que sim. Temos trabalhado e vamos continuar a trabalhar para isso. Temos condições e isto não é um sprint, é uma maratona. Acredito que sim, que somos capazes, mas nunca podemos desleixar, nem tomar nada como garantido, porque ainda não está nada ganho e o caminho ainda é longo.
A equipa está motivada para esse objetivo?
Sim, acredito que sim.
O que é que mais te aborrece num treino?
Exercícios parados porque gosto de movimento, gosto de estar sempre em movimento. Quando é um treino um pouco mais tático, mais posicional, acho que não sou só eu que fico um bocadinho mais aborrecida, mas grande parte das jogadoras porque gostam é de ter a bola no pé e de usufruir do jogo.
Tens algum sonho no futebol?
Já tive, neste momento não, não tanto. Tenho mais um sonho coletivo do que individual porque sei que o meu prazo de validade também está a chegar ao fim.

Pensas muito nisso, no prazo de validade?
Penso um pouco. Acho que o meu corpo ainda dá uma boa resposta, não dá uma resposta tão boa quanto dava há uns anos. Sei que não vou continuar aqui durante muito tempo, por isso, tento aproveitar o tempo que tenho aqui.
O meu sonho é mais coletivo. Sonho que a equipa consiga atingir o seu objetivo, que as jogadoras que têm o objetivo de conseguir algo, em relação ao futebol, também consigam. Se eu conseguir ajudar nisso, já estou satisfeita.
Como reages a um mau jogo, a uma derrota?
Mal, mal.
O que é esse mal?
Fico muito aziada, capaz de partir qualquer coisa, não é o que parece porque fico no meu cantinho, caladinha, mas fico muito aborrecida. Sou capaz de chegar a casa, não falar para ninguém, ficar no meu canto, porque se abrir a boca vai ser para dizer asneiras. Então prefiro estar no meu cantinho.
Como vês o caminho e a evolução que o futebol feminino tem feito em Portugal nos últimos anos?
Vejo que peca por tardia, vejo que continua lenta, que continua pouco objetiva. A 1.ª divisão continua a ter acesso a tudo e a todos os apoios, mas as divisões inferiores não os têm e são elas que precisam de ser alimentadas para conseguir trazer a competitividade necessária à 1.ª divisão. Nem todos os clubes têm a possibilidade de ir buscar jogadoras fora, de contratar jogadoras estrangeiras, o que significa que têm de se alimentar nas divisões inferiores. Mas se estas não forem alimentadas, se não forem compreendidas e apoiadas da forma necessária, vai ser muito difícil ter um caminho sustentável.
Isto não é um sprint, é uma maratona. Acredito que somos capazes, mas nunca podemos desleixar, nem tomar nada como garantido, porque ainda não está nada ganho e o caminho ainda é longo
Agora há uma 4.ª divisão com 70 equipas. Foi uma boa ideia, uma boa decisão?
Sim e não porque as divisões acima partem do pressuposto de que estão mais competitivas, que as equipas mais fortes vão permanecendo nas divisões acima e que as equipas teoricamente menos fortes vão ficando nas divisões abaixo. Mas é a mesma coisa. A divisão abaixo continua a não ter os apoios e as condições e, muitas vezes, as equipas nem têm tanto um objetivo de competição, é quase um objetivo social de permitir que aquelas miúdas tenham um espaço para jogar a bola porque não têm mais lado nenhum, ou porque as escolas não oferecem desporto escolar, ou porque não têm mais nenhum sítio e aqueles clubes ainda vão mantendo a equipa para dar essa possibilidade às jogadoras.
E é bom ter esse palco?
Sim, isso é bom, mas esse palco não tem olhos porque ninguém olha para ele. Esse palco não tem visualizações, não tem partilhas, porque ninguém quer saber dessas equipas.
A profissionalização do futebol feminino também peca por tardia?
Sim, ainda não temos um futebol profissional. Nós não somos e como nós 99% das equipas da 3.ª e, eventualmente, da 2.ª e metade da 1.ª porque os clubes não têm condições. Lá está, mais uma vez, batemos na mesma tecla, não há apoios, não há patrocínios, porque o futebol feminino é uma despesa, porque os grandes clubes têm os grandes apoios, mas aos clubes mais pequenos ninguém quer dar um patrocínio porque não têm tanto palco.
Vamos sempre voltar à mesma questão, é tudo muito bonito, o sonho é muito bonito, mas vende-se uma ideia que é um bocado enganadora, porque só em alguns casos é que é possível chegar a esse sonho, porque os outros não têm margem de manobra para chegar lá.
As condições do Feirense, as suas instalações, deixam-te satisfeita e são importantes para o rendimento desportivo?
Sim, é sempre de louvar quando um clube consegue dar-se quase ao luxo, digamos assim, de ter umas instalações destas. Claro que não é um clube com umas instalações destas para o futebol feminino. O futebol feminino pode usufruir destas instalações, não foi criado para nós, foi criado pelo clube para os seus atletas. E, depois, também investiu na vertente do futebol feminino, desde as camadas jovens à equipa sénior.
Muitos clubes nem sequer se dão esse trabalho, até podem ter umas instalações fantásticas, mas batem no mesmo ponto de que o feminino só dá despesa, que não traz lucro. Ter umas instalações como o Feirense tem, e continuar a apostar no futebol feminino, é claro que é de louvar.
Qual é a tua maior referência no futebol feminino?
Não tenho, nunca olhei para uma jogadora como referência, até porque na televisão não davam jogos de futebol feminino.
Machado, o que é, para ti, um bom jogo?
Jogar bem, não é preciso ganhar por muitos, não dou tanto valor ao número de golos, dou mais valor à qualidade do futebol que praticamos. Jogar bem, que toda a gente se sinta bem durante o jogo, e que no final se ganhe.



