O gosto pela modalidade e pela Sociologia, o interesse pelo estudo das noções de género e de como elas se constroem, a vontade de sair de pensamentos e teorias soltas, foram o ponto de partida da tese “Futebol no Feminino: O Papel do Género em Querer Jogar à Bola”. Rita Morgado investigou este mundo na sua dissertação de mestrado em Sociologia, Comunidades e Dinâmicas Sociais, apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa.
É uma investigação apurada e uma análise sociológica sobre o futebol feminino. Rita Morgado quis perceber como é ser rapariga no contexto do futebol, entrevistou várias jogadoras, tem registos na primeira pessoa. Antes de tudo, um enquadramento. O futebol é historicamente padronizado e orientado para que seja uma prática associada ao género masculino. Está escrito na literatura mais antiga. Durante o crescimento de uma criança, o futebol é maioritariamente praticado por rapazes. E os dados recolhidos por Rita Morgado permitem concluir que o início da experiência dá-se sempre com rapazes.
“Quer em contexto escolar, quer em contexto de rua, em nenhum dos momentos as atletas afirmam ter tido qualquer problema de integração, quer junto dos rapazes enquanto jogavam à bola, quer junto das pares raparigas”, lê-se na sua tese. No entanto, não sendo um problema enquanto cresciam e jogavam, as jogadoras tinham noção de que havia essa distribuição de brincadeiras por género e que representavam um comportamento desviante dessa norma. Mas sem conflitos.
No que toca ao contexto competitivo, conclui-se que o futebol continua a constituir uma característica associada aos homens e a favorecer a posição masculina em relação à feminina
Rita Morgado
O cenário muda quando, sublinha Rita Morgado, se identifica um claro e evidente condicionamento da vontade de jogar futebol das raparigas e mulheres em termos de competição. Nesse caso, o panorama altera-se. O sistema patriarcal vem ao de cima, porque a mulher entra num domínio considerado masculino, e as desigualdades de género estalam. Por vezes, tudo começa dentro de casa, na própria família.
“Ao entender o contexto familiar como um domínio onde se pode manifestar o sistema patriarcal privado, pode não só concluir-se uma reprodução de uma desigualdade de género (assumindo que estas dificuldades não se apresentariam caso fosse vontade de um rapaz de praticar futebol), como a restrição da participação feminina num domínio público, na estrutura do sistema patriarcal público.” É uma das conclusões a reter.
Se nas brincadeiras de criança, as jogadoras entrevistadas não encontraram qualquer problema de integração com rapazes em jogar à bola, nem qualquer problema de exclusão por parte das raparigas, o olhar muda quando se entra num contexto mais sério, de formação e de competição.
Rita Morgado fez a pergunta. Na perspetiva de uma atleta, como estão as estruturas preparadas para o futebol feminino e quais a diferenças de tratamento entre plantel feminino e masculino? As diferenças notam-se. “No que toca ao contexto competitivo, conclui-se que o futebol continua a constituir uma característica associada aos homens e a favorecer a posição masculina em relação à feminina.”
Quer em termos de utilização de instalações, de apoios monetários ou até de reconhecimento por parte da estrutura do clube, o futebol masculino é favorecido em detrimento do feminino
Rita Morgado
Há evidências recolhidas e analisadas. Desde logo, a presença feminina nas equipas técnicas é quase inexistente – apenas uma das jogadoras entrevistadas teve treinadoras. “Segundo, os comportamentos em termos de arbitragem diferem entre homens e mulheres, subentendendo-se práticas de acordo com as identidades de género durante os jogos (o mesmo se aplica entre homens treinadores e mulheres treinadoras).”
Além disso, em termos de organização interna nos clubes em que as atletas já jogaram, a conclusão é clara: os plantéis masculinos possuem melhores condições e são priorizados em relação aos plantéis femininos. A vários níveis. “Quer em termos de utilização de instalações, de apoios monetários ou até de reconhecimento por parte da estrutura do clube, o futebol masculino é favorecido em detrimento do feminino.” O sistema patriarcal favorece, em todos os aspetos, os homens, reproduzindo, desta forma, desigualdades nas condições para praticar futebol.
Em todo o caso, observa Rita Morgado, os plantéis masculinos podem possuir mais apoios externos para a sua manutenção ou os resultados masculinos podem justificar um maior investimento por parte dos clubes, quando comparado com as equipas femininas. “Em qualquer das hipóteses, não deixam de ser opções pertencentes à reprodução cíclica das desigualdades de género no que toca ao desenvolvimento do futebol feminino”, conclui a socióloga.



