Mariana Cabral não esconde as ambições que tem para o futebol feminino. Quer mais e melhor. Ainda se lembra de jogos em sintéticos com buracos e balneários com baratas. Faz-lhe imensa impressão o discurso que transmite a ideia de que é quase um favor ter uma equipa feminina num clube. Causa-lhe comichão. E tem dúvidas de que essa narrativa acabe nos tempos mais próximos. É uma questão de mentalidade. E isso não se muda de um dia para o outro.
Em Portugal, garante que há talento nas jogadoras, árbitras, equipas técnicas, dirigentes. Há gente que sabe o que faz. Mas falta profissionalizar a Liga, insiste, e investir como deve ser. E dar espaço a ex-jogadoras que podem ter um papel importante nas estruturas de futebol feminino, porque já lá estiveram, porque sabem como é. Esta é a segunda e última parte da entrevista dada à Magriça.
As jogadoras entram e saem dos clubes a custo zero, salvo raras exceções. O mercado do futebol feminino funciona ou não funciona?
Depende do que se considera o mercado, depende do que se considera funcionar bem ou não funcionar bem. É preciso ter pessoas certas no lugar certo, identificar o talento certo. Falo do Sporting porque estava lá, e porque sei como funcionavam as coisas, e a ideia era ir buscar jogadoras jovens, com potencial e com qualidade, que pudéssemos trabalhar dentro do clube, e conseguir ter um retorno com estas transferências. E isso aconteceu com a Olívia, aconteceu com a Maiara, com algumas jogadoras, houve outras que tiveram propostas e que o clube entendeu que não era para sair. E, com certeza, algumas estiveram agora neste mercado e o Sporting fez o que entendeu.
O mercado está agora a mexer-se mais de forma global, há mais transferências por dinheiro. Em Portugal, há algumas, não muitas, tem um bocado a ver com a forma como se olha ou não para o futebol feminino, de forma séria, profissional, pensada, estruturada, quase como se fosse um negócio, no fundo. Para abrir uma empresa, é preciso ter um plano de negócios, não se pode abrir à toa. E, muitas vezes, no futebol, as equipas estão um bocado à toa, há equipas que não sabem o que vão fazer na próxima época.
É verdade que, em Portugal, há muitas transferências que não têm valores envolvidos, mas têm os valores para as jogadoras, para os empresários, para tudo o resto que já anda à volta deste negócio.
Em várias entrevistas, dizes que ter uma equipa feminina é quase estar a fazer um favor. Daqui a uns anos, estaremos a falar de outra forma ou essa ideia está muito enraizada?
É uma ideia que sinto e que senti desde há muito tempo, desde que era jogadora e agora também, e que não gosto nada. Há pessoas que não se importam, que não querem saber, que estão lá para fazerem o seu trabalho, para receberem o dinheiro, seja staff, sejam jogadoras, e acabou-se. A mim, importa-me, não gosto, essa sensação faz-me comichão e tenho dúvidas de que isso vá mudar nos próximos tempos. Acho que vai demorar porque é uma questão de mentalidade, de levar as coisas com seriedade, com estrutura.
Olha-se para uma equipa e é preciso perguntar: temos esta equipa porquê, qual é o objetivo. Se calhar, há clubes que querem apenas o apoio para dizerem que têm uma equipa e já está. E isso não dá.
O futebol feminino, o desporto feminino em geral em Portugal, não é visto como uma coisa séria, como um investimento, como um negócio, como algo que tem uma capacidade de entretenimento para as pessoas. Enquanto não houver investimento à séria, toda essa reestruturação, é difícil. E continua essa sensação de que se está a fazer um favor e, para mim, não faz sentido, especialmente depois de ter estado nos Estados Unidos e de ver o completo oposto disso. A principal pergunta lá é como se pode dar uma melhor experiência ao adepto e como se pode monetizar tudo. E isso dá coisas muito boas, também dá coisas que não são assim tão boas.
Lembro-me de estar num jogo, íamos aquecer, e estavam pessoas sentadas no nosso banco, literalmente no nosso banco, eram adeptos que pagaram para assistir ao aquecimento. E outras coisas. Muitas vezes, durante ou depois do aquecimento, ao intervalo, depois do jogo, há uma série de coisas, ou danças ou no final do jogo deixarem os adeptos entrarem no relvado. Em Portugal, colocar o pezinho no relvado é quase milagre. Nos Estados Unidos, fazem todas essas coisas porque querem que as pessoas se sintam conectadas com o que está a acontecer, também porque conseguem monetizar algumas dessas coisas, e isso é a parte boa. As pessoas sentirem-se parte de algo muito grande.
Se uma equipa for tratada como coitadinha, uma coisinha ali e tal, as pessoas também a tratam assim.
Mariana Cabral
A entrada do Porto veio, de alguma forma, mudar o paradigma do futebol feminino? Ou será exagerado falar dessa forma?
Precisamos de mais clubes que tenham essa vontade e essa força de querer que haja melhores condições para as jogadoras, para as equipas, para o campeonato, e especialmente que levem o futebol feminino a sério. Vendo apenas de fora, o que vejo é uma equipa nova que começou, que teve o apoio muito claro do presidente e da direção de uma forma muito interessada, que construiu as coisas com pés e cabeça, chamou imensas pessoas a apoiar esta equipa, tratou esta equipa tal e qual como trata a equipa masculina, com a transmissão de jogos, com as redes sociais, com a venda de bilhetes, com tudo isso. E acho que isso faz toda a diferença.
A forma como se trata uma equipa é a forma como depois as pessoas vão ver esta equipa. Se uma equipa for tratada como uma coitadinha, uma coisinha ali e tal, as pessoas também a tratam assim. Por isso, é que hoje as pessoas também têm muita expectativa de ir ao futebol feminino e não pagar porque sempre foi assim, é tudo grátis, e não pode ser. O futebol feminino não deve ser grátis. Temos de criar a ideia e a perceção de que é importante, que tem qualidade, que também se paga. Tem de ser assim.
A equipa do Porto foi tratada de forma, parece-me pelo menos de fora, muito interessante e isso é bom para o futebol feminino em Portugal. Até porque são estes grupos que depois têm poder para impor as suas opiniões junto das pessoas da Federação e de tudo o que entendem que deve ser a evolução do futebol feminino em Portugal.
Nos Estados Unidos, a Liga é independente, todos os donos e diretores dos clubes juntam-se e falam com a Liga, há também a associação de jogadoras, e toda a gente dá opinião e as coisas decidem-se para trás, para a frente, para o lado, às vezes gostam mais, outras não gostam.
Em Portugal, a grande dificuldade do futebol feminino, mesmo que haja pessoas que são interessadas e que estão dentro das coisas, diretores, as diretoras, o que for, não tem um peso, não é independente. O que acontece é que a direção desses clubes, normalmente associados a uma equipa masculina, não quer ter problemas para o lado masculino e, portanto, quer ter boas relações com as pessoas da Federação, do sindicato dos jogadores e de tudo, e, portanto, os interesses do futebol feminino não são importantes, são passados para o lado. As coisas em Portugal, às vezes, são um bocadinho tratadas nos bastidores.
Precisamos de mais clubes que tenham vontade e força de querer que haja melhores condições para as jogadoras, para as equipas e para o campeonato, e especialmente que levem o futebol feminino a sério.
Se tivesses todo o poder do mundo e pudesses mudar uma coisa no futebol feminino em Portugal, o que seria?
Só uma coisa não é fácil. Mas, atenção, também é culpa minha. Há muitas pessoas que gostam de dizer que as coisas estão muito melhores e cresceram. Percebo que isso é verdade, sem dúvida, mas eu quero mais, olho para a frente, porque sou uma pessoa ambiciosa e quero as coisas melhores e porque sei como é que se faz noutros sítios e quero que também seja assim. Não me chega como está, quero que seja melhor. Às vezes, pareço um bocadinho ingrata, mas não é isso. Obviamente gosto que as coisas estejam melhores e há coisas boas em Portugal.
Trabalhamos muito bem em Portugal, há treinadores muito bons, treina-se muito bem, joga-se muito bem em determinados campos, em determinadas equipas. A jogadora portuguesa tem qualidade, a árbitra portuguesa tem qualidade. Há dirigentes também muito bons, a questão do VAR também, nem sempre funciona bem, é verdade, mas acho que foi uma boa adição à Liga. A questão dos relvados também é muito importante. Nós jogámos em sintéticos com buracos, balneários com baratas, há coisas mais difíceis de mudar. Estamos num sítio melhor do que há 5 anos, melhor do que há 10 anos, melhor do que quando eu era jogadora, mas ainda há mais por onde ir.
O que mudava? Não é mudar, a coisa mais importante era ter uma Liga profissional e independente porque isso permite estabelecer pressupostos para os clubes que entram. Ok, esta Liga tem pés e cabeça, tem uma coisa estruturada, tem um orçamento, tem um plano de negócios, tem marketing, tem bilhética, o que for, e então investe-se.
Nos Estados Unidos vemos muito, em Inglaterra também, ex-jogadoras que acabam por ser ou investidoras ou compram uma parte de um clube. E aqui falta essa parte, não de investir, mas que fiquem ligadas ao futebol feminino. Começa a haver mais, houve uma altura em que era só a Carla e a Edite. Há pessoas com experiência e com capacidade que devem estar ligadas ao futebol feminino, são estas pessoas que levam as coisas para a frente porque têm a bagagem de trás, têm a paixão, e isso ajuda. Falta espaço para que ex-jogadoras fiquem ligadas ao futebol feminino.
Mariana, a tua bagagem como jogadora torna-te uma melhor treinadora?
Sim, acho que sim. Não é um pressuposto obrigatório para um treinador, mas é um “plus”, ajuda, dá um conhecimento maior e melhor daquilo que se passa no balneário, da forma como as coisas podem ou não ser recebidas, da forma como as coisas são faladas e vistas dentro de um balneário, especialmente de um balneário feminino, que é diferente de um balneário masculino.
Um balneário feminino em Portugal é muito diferente de um balneário nos Estados Unidos. É uma coisa difícil de explicar, mas, nos Estados Unidos, as jogadoras americanas, especialmente pela forma como são formadas, pela forma como veem o jogo e o desporto em geral, são muito otimistas. Se uma coisa corre mal, não há problema, vamos trabalhar, amanhã vamos ser melhores, para a próxima correr melhor. Portanto, o copo está sempre meio cheio, nunca está meio vazio. Aqui é um bocado a mentalidade latina, isto está a correr mal, temos de culpar alguém, a culpa tem de ser de alguém, temos de apontar o dedo a alguém. E lá, nos Estados Unidos, é mais vamos juntar-nos e vamos trabalhar mais e isto vai melhorar. É uma coisa, não só mais otimista, mas mais aberta no sentido em que elas falam com toda a gente, umas com as outras, com o staff, com o treinador.
Isto também acaba por ser um pouco cultural. Às vezes, temos dificuldade em falar sobre o que não está bem e lá as coisas são diferentes. E é importante ter esse conhecimento e essa noção porque isso depois ajuda a perceber algumas coisas.
Leia a primeira parte da entrevista à Magriça aqui.



