Mariana Cabral foi jogadora, jornalista, tornou-se treinadora de futebol. Um trabalho difícil e ingrato, admite, nos tempos que correm, com comentários, observações e críticas constantes nas redes sociais. Das duas uma: é lidar ou ignorar. O Sporting foi a última equipa portuguesa que treinou. Saiu em outubro de 2024 desencantada e cansada de lutar por melhores condições de trabalho e de treino, como explicou em várias entrevistas que deu.
Voou para os Estados Unidos, para a equipa do Utah Royals, na principal liga de futebol do país, como treinadora-adjunta. Uma experiência bem diferente de cá que terminou em dezembro do ano passado. Neste momento, desconhece-se para onde irá. Na entrevista à Magriça, analisa a arquitetura do campeonato nacional: 10 equipas na 1.ª Liga, 70 na 4.ª Divisão, e só uma é que sobe. Não faz qualquer sentido, em sua opinião. Aborda a falta de investimento e de interesse no futebol feminino. E quer voltar a ser treinadora principal num clube grande e ambicioso. Tudo dito com a frontalidade que lhe é conhecida.
Nota-se uma certa contestação, sobretudo nas redes sociais, ao novo treinador do Benfica. Nos comentários, o teu nome, volta e meia, aparece. Se houver essa possibilidade, é uma questão que ponderarias?
Existe e vai existir sempre contestação em qualquer clube grande porque os adeptos são muito exigentes. Agora o meu nome ser falado para um clube tão grande, obviamente é sempre uma honra. O que mais quero é treinar em clubes grandes, que tenham grandes ambições, e que queiram coisas boas para o futebol feminino, porque é isso que quero também. E é isto que posso dizer.
Lê-se nas entrelinhas que não fechas a porta a nada que possa surgir?
Não fecho a porta a nada, nem há nenhuma razão para fazê-lo. E digo isto com todo o respeito pelo Ivan. Lembro-me do Ivan quando era jogadora, já foi há muito tempo, no 1.º de Dezembro.
Tenho todo o respeito pelo trabalho do Ivan e de qualquer colega, desejando o melhor, porque ser treinador é um trabalho muito difícil e muito ingrato. Toda a gente sabe mais do que o treinador nas redes sociais e é difícil ser constantemente avaliado, na grande maioria por pessoas que não têm conhecimento suficiente para o fazer. Mas faz parte do ser humano, faz parte da vida. Hoje tudo tem de ser avaliado, tudo tem de ter uma review, uma avaliação é bom ou é mau, não há meio-termo, não há um vamos pensar, vamos analisar, vamos ver. As pessoas não têm paciência e tem de ser tudo muito claro, ou odeiam ou amam, não há aqui um vamos compreender, vamos ver, vamos ter paciência. Faz parte e nós que somos treinadores sabemos isso. Temos de ou saber lidar ou ignorar totalmente.
Neste momento, a Liga ficou muito mais pequena, 10 clubes, só desce um, é uma coisa absurda.
Mariana Cabral
Tens agora uma experiência nos Estados Unidos. Ainda assim a Liga portuguesa continua a ser um espaço apetecível para uma treinadora de futebol?
Obviamente eu quero voltar a ser treinadora principal, obviamente há clubes, em Portugal, que têm mais condições do que outros e que têm mais ambições do que outros. Um clube que está a surpreender bastante é o FC Porto. A entrada do FC Porto foi excecional, a forma como tudo foi feito. Mas há outros projetos muito bons, o Torreense, uma série de clubes que apostam no futebol feminino, cada um no seu nível e na sua aptidão.
O que vivi nos Estados Unidos não tem qualquer comparação possível com o que se vive em Portugal. A importância que o futebol feminino tem lá é gigantesca, a capacidade de transformar ideias em coisas verdadeiras é gigante, há muito dinheiro, há muitas infraestruturas, há capacidade para fazer quase tudo.
Noutro dia, estava a dar o jogo do Torreense com o Benfica para a Taça de Portugal. Faltavam 3 ou 4 minutos para o final, o jogo estava empatado, ia haver prolongamento, melhor parte do jogo. E, de repente, o Canal 11 começa a dar um jogo de futsal em grande plano e fica um quadradinho para o jogo do Torreense e Benfica. E eu penso, isto é para ver? Como é que conseguimos ver aqui? Este é só um pequeno exemplo para dizer que acho que é a forma como o futebol feminino é visto aqui em Portugal: um pequeno quadradinho, às vezes, fica um quadradinho maior, mas, em geral, é uma coisa em segundo plano. E isso não me agrada, faz-me impressão de que não haja esse respeito ou esse interesse.

O que falta, em Portugal, para que o futebol feminino deixe de ser esse pequeno quadradinho? O que falta para que tenha o respeito que merece?
É preciso que haja alguém que efetivamente se interesse e que diga que tem de andar, tem de avançar, puxar outras coisas, outras pessoas, e trazer dinheiro também, que não há muito. Tudo isto é muito difícil, é uma coisa grande, não é uma coisa pequena.
A primeira coisa essencial é profissionalizar a Liga, enquanto não for profissional, é muito difícil as coisas andarem. A Liga, neste momento, é um pequeno pontinho que está lá no meio dos escritórios da Federação Portuguesa de Futebol, como estão outras ligas, Liga 3, Liga Revelação, as competições que a Federação organiza. Se a Liga não é profissional, se não é uma entidade independente, que tenha pessoas que só pensem na Liga, o que é, as suas regras, o marketing, como vai ter patrocinadores, como vai ter retorno para os clubes, etc., é complicado. Se isso não existe, obviamente que também é difícil os clubes investirem.
Imaginemos uma equipa do meio da tabela, seja qual for, se percebe que investindo 100 euros, número completamente aleatório, fica em 7.º lugar da Liga – e, neste momento, a Liga ficou muito mais pequena, 10 clubes, só desce um, é uma coisa absurda –, esse clube pensa que investindo menos para o ano consegue ficar na mesma na Liga, escusa de gastar dinheiro. Porquê? Porque quase não há retorno e não há assim tanto interesse também, não vamos aqui mentir, em investir no desporto feminino em Portugal. É um bocado isto, é um assunto difícil.
Muitas vezes, os feitos da seleção puxam um bocadinho as coisas para a frente, as pessoas ficam mais interessadas, gostam mais, olham mais para o jogo. E, sem falsa modéstia, porque acho que é verdade, tanto com o Benfica como com o Sporting, na minha altura e na altura da Filipa, tínhamos grandes jogos, chamávamos muitas pessoas, jogos bons de se ver, competitivos, interessantes, com muita coisa a acontecer taticamente e não só. Agora não vejo tanto isso, honestamente, acho que a qualidade é um bocadinho mais baixa e é difícil chamar as pessoas assim.
A Liga, neste momento, é um pequeno pontinho que está lá no meio dos escritórios da Federação Portuguesa de Futebol.
Falas na perda de qualidade e de competitividade. Percebes este desenho do campeonato nacional feminino com uma 1.ª Liga com 10 equipas e uma 4.ª divisão com 70 clubes? Esta arquitetura faz algum sentido?
Acho que não. Percebo que haja uma boa intenção por trás da redução. Pela minha interpretação, acho que o objetivo será tentar que as equipas que estão na 1.ª divisão sejam, entre elas, mais competitivas. Mas ficamos com muito menos jogos, menos competição, e com essa coisa estranha de haver muitos clubes para baixo, e é muito difícil esses clubes subirem porque só desce uma equipa. Os outros clubes andam ali a época toda a tentar subir, mas só um é que vai conseguir e é muito pouco.
O que faz mais sentido foi o que se passou na altura em que a Liga foi renovada pela Federação e se mandaram convites ao Benfica, ao Sporting, ao Braga, a toda a gente para entrar. Dizia-se, na altura, coitados dos clubes mais pequenos. Não são coitados. Se querem estar na 1.ª Liga, então para estarem lá, têm de cumprir os pressupostos X, Y, Z, que a Federação terá de impor. Ter um orçamento X para as jogadoras, ter um orçamento X para o staff, ter um orçamento total para o marketing, ter capacidade para vender bilhetes, ter capacidade para o que seja. Cumprir uma série de pressupostos. A partir do momento em que isso é feito, podemos ter um clube na 2.ª Divisão que foi campeão ou ficou em 2.º ou 3.º, que vai subir, mas diz que não tem orçamento para ir para a 1.ª, e paciência, não há problema, continua na 2.ª, não sobe. Acho que isso faz sentido.
Podemos vir a ter na 1.ª Liga os clubes de futebol feminino que têm grande projeção no masculino, até pelas condições que proporcionam?
Sim, porque tem muito a ver com as infraestruturas também. Eu até acho que é mais difícil uma equipa feminina ter alguma independência quando está ligada a um clube que tenha uma equipa masculina porque não tem, mesmo que tenha um diretor de futebol feminino.
Nos Estados Unidos, eu chegava ao pé da minha diretora e dizia ‘precisamos de um iPad novo’, ok, está bem, amanhã está lá o iPad. E aqui, quando se está ligado a um clube masculino, como a parte feminina é sempre uma pequena perninha de tudo o resto, não se consegue fazer nada de forma independente. Ninguém toma decisões independentes, ou vai perguntar ao vice-presidente, ou vai perguntar ao presidente, ou vai perguntar ao diretor de recursos humanos, ou vai perguntar ao diretor da academia, ou vai perguntar isto ou aquilo. E é muito mais difícil as coisas serem feitas, mesmo que haja ideias, e que haja vontade, depois as outras pessoas são as que tomam decisões. E isto complica a vida, complica o que se quer fazer, mesmo na questão do orçamento.
Esses clubes têm é mais facilidade nas infraestruturas porque precisam de sítio para treinar, precisam de sítio para jogar. E hoje, em Portugal, é muito difícil ter campos. Se quiseres abrir um clube agora, podes abrir, mas depois onde é que vais treinar? Está tudo cheio, é difícil que haja sítios para fazê-lo.



