A recordação com a bola nos pés é de sempre, desde que se lembra de ser quem é. O pai percebeu o gosto, trocava bolas nas brincadeiras, incentivou-a a não deixar essa paixão. Começou no futsal numa equipa de rapazes, não sentiu que a tratassem de forma diferente. Aos 10 anos, passou para o futebol com as cores do Rio Tinto. E não passou despercebida, foi chamada às seleções nacionais jovens.
Mariana Alves tem 17 anos, estuda no secundário, está na área de Ciências, quer entrar na universidade, ainda não sabe bem em que curso. O futebol é um grande amor. Na sua opinião, a evolução do futebol feminino vê-se também nas referências que agora existem nesse mundo. Mas ainda faltam passos nessa caminhada. O que é certo é o apoio constante dos adeptos e adeptas do futebol feminino do Rio Tinto. A claque Febre Amarela está sempre na bancada. Em todos os momentos.
Avançada com faro de golo?
Sim.
O que significa, para ti, ter faro de golo?
Sempre que tenho a bola, tentar ir para a baliza, ser objetiva.
Sempre foste avançada ou experimentaste outras posições?
Sempre fui avançada desde que comecei a jogar futebol.
Jogaste futsal.
Também.
Vieste para o futebol do Rio Tinto e nunca mais saíste. Um percurso consistente. Como tem sido a experiência?
Estou muito feliz no Rio Tinto, já estou aqui há muitos anos, sinto-me confortável, já conheço as pessoas, o ambiente. Gosto muito de estar aqui.
E como és dentro de campo?
Acho que sou uma jogadora raçuda. Sou uma jogadora que sempre que tem a bola, tenta ser o mais objetiva possível. Gosto de ir com a bola para a frente.
Quais são as expectativas para esta época no Rio Tinto? É a manutenção?
Exatamente. Nós só pensamos nisso, é o objetivo.

No início da época, seria subir?
Sim, sempre tivemos essa esperança, tentar ficar na fase de campeão, e, se calhar, ir para a 1.ª. Mas não foi possível e, desde aí, ficamos sempre com o objetivo da manutenção.
Tens experiência nas seleções nacionais jovens. Como é vestir a camisola de Portugal e estar neste contexto de estágio?
É um orgulho muito grande porque estamos a representar o nosso país e temos aquela obrigação de dar sempre o nosso máximo.
Também há muita pressão…
Há muita pressão, sim, mas sempre estive envolvida num bom ambiente, as pessoas sempre foram muito simpáticas, eram exigentes, mas também eram muito acolhedoras.
Sou uma jogadora raçuda. Sou uma jogadora que sempre que tem a bola, tenta ser o mais objetiva possível. Gosto de ir com a bola para a frente.
Mariana Alves, Rio Tinto
Como vês o crescimento do futebol feminino nos últimos anos?
Cresceu muito relativamente aos últimos anos. Agora, por exemplo, o Rio Tinto tem as camadas jovens que têm as seniores como referência. Na nossa altura, nós não tínhamos isso. A única equipa do Rio Tinto feminino éramos nós. Nós nunca tivemos essas referências e essa mudança mostra muito como o futebol feminino cresceu, principalmente nestes clubes.
A 2.ª Divisão está bastante competitiva?
Acho que sim.
Os jogos têm sido intensos?
Eu não acho que nenhum jogo até agora tenha sido fácil.
A 2.ª Divisão vai ficar com menos equipas, a Liga BPI tem 10. O menor número de equipas é bom sinal? Aumenta a competitividade?
Se estão a diminuir o número de equipas é porque são mais homogéneas. Se houvesse mais equipas relativamente iguais, o número de competitividade ia ser muito melhor.
Por outro lado, há uma 4.ª Divisão com 70 equipas. O que é que isso mostra?
Tem de haver um crescimento ainda maior em todas as equipas do futebol feminino e ainda pode haver.
Como começas a jogar futebol?
Desde que me lembro, quando era mais pequena, sempre tive uma relação com a bola. O meu pai também sempre me incentivou, viu que gostava e, muitas vezes, jogava comigo.
Como foi a transição do futsal para o futebol? Foi algo natural?
Foi uma coisa natural. Tanto no futsal, como no futebol, fui bem recebida. No futsal, eram todos rapazes, mas eles nunca me desmereceram ou me trataram de forma inferior por ser rapariga. Sempre me trataram bem, sempre me acolheram na equipa. No futebol foi a mesma coisa.

No futsal, tinhas um balneário só para ti?
Tinha. Eles arranjavam maneira. Ou ia tomar banho e eles esperavam, também aconteceu.
Estamos a dar passos importantes na questão da igualdade de género no futebol?
Acho que sim, cada vez mais. Ainda há uma diferença muito grande, mas acho que, ao longo do tempo, tem evoluído.
Esta bancada, de facto, vibra e nós sentimos o apoio dos adeptos, sentimos a energia que eles nos passam para dentro do campo.
Tens algum sonho no futebol?
Eu gostava de fazer do futebol a minha vida profissional.
Em Portugal?
Não sei, é uma coisa que ainda não sei. É o que vier.
Tem de haver condições?
Exatamente. Nós vemos nas notícias que lá fora, noutros países, o futebol feminino tem muito mais investimento, dá muito mais dinheiro. É uma realidade completamente diferente.
Há algum momento especial, nestes anos no futebol, que nunca mais vais esquecer?
Quando marquei o meu primeiro golo pela seleção contra a Bélgica, há 3 anos.
A experiência que tens, nesse contexto de seleção, é importante para ti, enquanto jogadora do Rio Tinto?
Sim, claro que sim, porque num contexto de seleção, nós estamos com as melhores do país.
Têm pouco tempo para funcionarem como equipa? Isso acaba por ser natural?
Sim, mas, às vezes, no início, é um bocado mais complicado porque cada jogadora tem uma ideia diferente. À medida do tempo, vamo-nos habituando.
Tens referências no futebol feminino?
Eu admiro muitas jogadoras, a Aitana, a Alexia, a Kika. Mas uma única referência, não.
Como lidas com a derrota?
Fico muito chateada, muito chateada.
Quão chateada ficas? Não falas com ninguém?
Eu falo, mas evito. Muitas vezes, depende da derrota. Fico chateada em todas as derrotas, mas se perdemos mal, ou seja, não foi o nosso melhor jogo, podíamos ter dado muito mais, aí fico muito mais chateada. Às vezes, perdemos, demos tudo, esforçamo-nos, realmente tentamos, fico chateada, mas pelo menos fico de consciência limpa que demos o nosso melhor.
E como festejas as vitórias?
Depois do jogo, saio com as minhas amigas ou com a minha família para jantar ou algo assim. Vamos comer um sushi.
A massa dos adeptos do Rio Tinto é muito presente. É importante ter esse apoio e suporte?
Muito importante, muito importante, porque esta bancada, de facto, vibra e nós sentimos o apoio dos adeptos, sentimos a energia que eles nos passam para dentro do campo. E isso ainda nos faz querer ser melhores, fazer isto por eles.
Mariana, o que é, para ti, um bom jogo?
Um bom jogo é um jogo com muitos golos. É um jogo muito intenso, ou seja, sempre atacar, defender, atacar, defender, de ambas as equipas. Duas equipas muito intensas a tentar, de facto, ganhar.




