Os irmãos jogavam futebol e ela tanto pediu, e tanto insistiu, para fazer o mesmo que estava a jogar à bola com apenas quatro anos. Nunca mais parou. E sempre com o apoio incondicional da família, com palavras de incentivo da mãe, com viagens para treinar entre Santarém-Lisboa, Lisboa-Santarém com o pai ao volante. “Os meus pais sempre me deixaram ser feliz e jogar futebol”, conta.
Jogou em Santarém, passou para a formação do Sporting, esteve na equipa B do Braga e chegou ao Ouriense na época que agora termina. Todas as experiências, confessa, a fizeram crescer a vários níveis. Pelo meio, lesões para lidar e ultrapassar. Conquistou o seu espaço, jogou mais, e sente a energia que vem de fora do campo. “Somos o clube da terrinha, ou seja, a terrinha está sempre connosco, temos sempre a bancada cheia.”
Com que idade começaste a jogar futebol?
Comecei a jogar futebol com 4 anos na Associação Académica de Santarém. Dos 4 aos 10 anos joguei com rapazes. Depois aparece o Sporting, aparece o início da formação do futebol feminino em Portugal. E foram 8 anos no Sporting, foi muito tempo, cresci muito. No início, éramos uma equipa de futebol feminino em que jogávamos contra rapazes, mas éramos futebol feminino. Depois começou a haver campeonatos de futebol feminino e foi uma realidade diferente para uma menina que só jogava com rapazes. Cresci muito.
Jogar com rapazes deu-te outra preparação para quando começaste a jogar com raparigas?
Deu.
De que forma?
Futebol é o desporto, existe futebol feminino e futebol masculino. Em termos de força, os rapazes têm mais força do que nós. Eu era novinha e, se calhar, não se notava tanto, mas nota-se sempre um bocadinho, para estar no patamar deles ou para lutar contra eles eu tinha de ter essa forcinha a mais. E isso fez-me muito bem, cresci muito.
Quando entrei no Sporting, havia meninas que estavam a começar a jogar e eu senti essa diferença, ou seja, se calhar, tinha uma forcinha extra. Mas em termos técnicos, não. Em termos técnicos, acho que estamos no mesmo patamar.
Sempre jogaste a avançada?
Não. Na Académica sempre fui avançada, no meu primeiro ano de Sporting foi para central porque era preciso.
Adaptaste-te bem?
Correu bem. No primeiro jogo, marquei um autogolo, ainda estive uns aninhos a central, depois voltei para avançada, que é a minha posição favorita. Eu gosto muito de marcar golos, fico muito feliz, mas quando é necessário também jogo a média.
Avançada é a tua praia, portanto?
É o que eu gosto.
Acabas por te destacar porque és chamada à seleção nacional Sub-15. Como é estar na seleção?
Eu nunca senti aquela sensação na minha vida. Nunca tinha sentido. Por um lado, é todo o esforço recompensado. A verdade é que quando somos atletas, de qualquer desporto, gostamos de sentir que o nosso esforço é recompensado. E estar numa seleção como a Sub-15 que é logo no início, onde existe um estágio de 50, um de 30, um de 20, um de 18. Fico nas 18 e penso ok, eu fiquei, eu consigo.
Na minha primeira internacionalização, lembro-me como se fosse hoje, contra o País de Gales, faço uma assistência e marco um golo. Foi inacreditável. Foi mesmo uma sensação que o meu esforço foi recompensado, eu estou aqui porque mereço e, por isso, é continuar.
O sonho é um dia chegar à seleção A?
É, claro. Acho que de todas.
Na minha primeira internacionalização, lembro-me como se fosse hoje, contra o País de Gales, faço uma assistência e marco um golo. Foi inacreditável.
Marta Melão
Depois de saíres do Sporting, o que aconteceu?
Saí do Sporting há dois anos. No ano passado, estive em Braga, na equipa B do Braga, em que pela primeira vez saí da minha praia. Durante os 8 anos de Sporting, o meu pai ia todos os dias comigo, Santarém fica mais ou menos a 80 quilómetros, fazia Santarém-Lisboa, Lisboa-Santarém. Não é uma coisa que eu nunca vou conseguir agradecer, até porque sei que ele fez isto não para eu agradecer, mas é um esforço muito grande, tanto física como economicamente. A verdade é que estamos a evoluir, mas o futebol feminino ainda não abrange estas despesas todas, os nossos salários.
Então foi a primeira vez que saí de casa, saí do meu ninho, e fui para Braga. E gostei muito, foi um bom ano, cresci muito. Em termos de futebol, tive uma lesão, fiquei 4 meses fora, não correu como queria em termos de futebol, mas em termos de crescimento acho que foi mesmo muito importante para mim.
Esse apoio familiar é absolutamente crucial?
É muito importante. Comecei a jogar futebol porque os meus irmãos jogavam e eu disse mãe, eu quero jogar e ela ok. Então aos 4 anos, meteu-me no clube onde os meus irmãos estavam. Sentir que não estou sozinha, sentir que a minha mãe, por exemplo, quando eu chegava a casa triste, o treino não tinha corrido bem, e a minha mãe, bora. O meu pai ir todos os dias comigo. Sem eles nunca tinha conseguido porque foram mesmo uma base, e são uma base, para eu ainda cá estar. Há momentos maus e, às vezes, não falar com ninguém não é bom, então tenho sempre ali os meus pais, sempre a apoiarem no que toca ao futebol.
A vinda para o Ouriense correspondeu às tuas expectativas?
Correspondeu. É a primeira vez que estou numa equipa A feminina, no Atlético Ouriense só há uma equipa, estive sempre nas equipas B, no Sporting B, no Braga B. Claro que nas outras equipas também somos inspiração, porque as meninas mais novas olham para nós, mas aqui somos a equipa principal. E parecendo que não, somos o clube da terrinha, ou seja, a terrinha está sempre connosco, temos sempre a bancada cheia. Está a ser muito bom e correspondeu às minhas expectativas. E estou a jogar mais.
Conquistaste o teu espaço?
Conquistei o meu espaço. Tive uma lesão no início da época, fiquei alguns jogos fora, quando voltei foi um bocadinho difícil porque era o querer e não estar a conseguir, não podia fazer mais e tinha de respeitar o meu corpo. Mas conquistei o meu espaço e estou muito feliz.
A permanência na 2.ª Divisão está assegurada.
Objetivo cumprido.

Se calhar, até nos esforçamos mais do que os rapazes porque sabemos que é preciso mais para nos verem, é preciso mais para nos ouvirem.
O futebol feminino tem a visibilidade que merece ou ainda há muito caminho a fazer?
Acho que ainda há muito caminho a fazer. É um crescimento, tem de ser, começámos há 10 anos, ou seja, ainda tem muito para crescer, mas a verdade é que esforçamo-nos muito, treinamos muito como os rapazes, é exatamente igual, e não temos o reconhecimento que merecemos. Se calhar, até nos esforçamos mais do que os rapazes porque sabemos que é preciso mais para nos verem, é preciso mais para nos ouvirem. Para o que nos esforçamos ainda não é reconhecido como devia. Há um longo caminho a percorrer, mas acho que estamos a ir no bom caminho.
Acreditas que vai ser possível?
Acredito mesmo. Cada vez mais acredito porque vejo meninas que não têm o medo de dizer que querem e podem jogar e isso é muito importante.
Essa barreira já se quebrou?
Exato. Nunca tive essa barreira porque os meus pais sempre me deixaram ser feliz e jogar futebol, mas sei que há meninas que não tinham essa oportunidade. Acho que estamos no bom caminho, mas ainda temos muito a crescer.
Como és dentro do campo?
Acho que sou uma pessoa muito raçuda, quero muitas coisas, ou seja, não desisto facilmente. Quando corre mal, tento não olhar para os erros, já tive esses momentos que era só errei aquilo, mas agora, não, ok errei, mas vamos continuar porque é um jogo. Acho que sou inteligente a jogar, acho que é uma boa característica, não desisto.
O amargo de derrota passa rápido?
Não, não, de todo. No treino seguinte ainda está aqui entaladinho. Mas também depende das derrotas. Nem sei quais são as piores, se as que fizemos tudo e não deu ou se as que não correram bem simplesmente, mas, por outro lado, nós sabíamos que dava. Não sei quais é que são as piores, mas não passa nada rápido.
Marta, o que é, para ti, um bom jogo?
Ganharmos. Um golinho não faz mal a ninguém, sou avançada. No geral, sentirmos que o nosso trabalho foi cumprido. Durante a semana, trabalhamos muito, cada jogo é um jogo, cada equipa é uma equipa, é sentir ok, ganhámos, fizemos o que tínhamos a fazer, o nosso trabalho durante a semana valeu a pena. E depois um golinho para ficar mais contente.




