Maternidade no futebol. Não tem de ser um desafio ou um ato de coragem, defende sindicato

Sindicato dos Jogadores insiste no Acordo Coletivo de Trabalho para o futebol feminino, proposto há mais de três anos e meio. “Em Portugal, a mentalidade ainda não é a normalização do direito inalienável à maternidade pelas jogadoras de futebol”, escreve Joaquim Evangelista num artigo de opinião.

Redação
Joana Gomes joga futebol e é mãe. “Tinha intenção de pendurar as chuteiras quando fui mãe, mas decidi continuar”, disse à Magriça, quando jogava no Feirense, na época passada (Foto: Maria João Gala)

“Ser mãe tem de deixar de ser um desafio ou ato de coragem; enquanto o for, o sistema precisa de melhorias.” A frase é de Joaquim Evangelista, presidente do Sindicado dos Jogadores Profissionais de Futebol, em declarações à agência Lusa, que lembra, a propósito, o Acordo Coletivo de Trabalho, apresentado à Federação Portuguesa de Futebol em fevereiro de 2023, e que não reúne consenso. Evangelista insiste neste ponto, nessa proposta que inclui proteção na maternidade e prevenção do assédio, equiparação salarial, salários mínimos e prémios, requisitos mínimos para contratos de trabalho, proteção na doença e deveres especiais dos clubes como, por exemplo, no acompanhamento dos filhos, entre outros aspetos.

“O problema está a montante, a própria decisão das jogadoras avançarem com a gravidez, tendo um conjunto de direitos assegurados, é condicionada com o receio que têm das consequências para a sua estabilidade contratual e carreira nos clubes”, referiu o presidente do sindicato à Lusa. “Existe espaço para aperfeiçoar a regulamentação e acredito que a contratação coletiva, nomeadamente o Acordo Coletivo de Trabalho, proposto pelo Sindicato dos Jogadores, seria o instrumento adequado para regular este tema de forma eficaz”, acrescentou.

Joaquim Evangelista deu nota de muitas jogadoras que partilham o sentimento de insegurança por sentirem que não terão condições contratuais, logísticas e financeiras, e sobretudo apoio dos clubes, para darem o passo de serem mães. “As infraestruturas são, sem dúvida, um dos calcanhares de Aquiles do desporto. O acompanhamento dos filhos, em especial na fase de amamentação, exige essas condições e uma política interna de efetivo apoio à maternidade, o que nem sempre acontece”, disse.

(…) a falta de segurança e condições para ser mãe é um fator que temos de erradicar

Joaquim Evangelista,
presidente do Sindicato dos Jogadores,
num artigo de opinião publicado no jornal Record



Antes destas declarações, Joaquim Evangelista escreveu um artigo de opinião, publicado no jornal Record a 30 de agosto. “Por mais Dianas” é o título do seu texto que começa com o anúncio da gravidez da jogadora Diana Silva e o apoio dado pelo Benfica, como um excelente exemplo para a normalização da maternidade no futebol.

“Os casos de atletas profissionais que tomam a decisão de engravidar são, ainda, demasiado incomuns e se a perspetiva pessoal de escolher o momento indicado e fazer a gestão dos objetivos de carreira é algo que podemos compreender, a falta de segurança e condições para ser mãe é um fator que temos de erradicar”, escreveu.

Joaquim Evangelista sublinha que ainda há muitos passos a dar para melhorar a situação e as atuais condições. “Em Portugal, a mentalidade ainda não é a normalização do direito inalienável à maternidade pelas jogadoras de futebol”, realça. “Temos sido claramente empurrados pelas boas práticas internacionais e, passo a passo, trabalhando estas matérias com clubes e órgãos reguladores, acredito que chegaremos ao patamar necessário.”