Olivia, Amora: “Em Portugal, o jogo é muito mais tático” 

Olivia Tehrani joga no meio-campo do Amora, o seu segundo clube em Portugal. Nasceu e cresceu no Canadá, trocou as ofertas universitárias norte-americanas pelo futebol português, logo a seguir ao secundário. Aprender a língua e o lado tático do futebol europeu foram os maiores desafios da época. O sonho? Continuar a evoluir e fazer de Portugal a sua casa.

Luana Doce
Olivia Tehrani, Amora
Fotos: Maria João Gala/Magriça

Começou a jogar futebol aos três anos, no Canadá. Passou pelas camadas jovens até chegar, no 9.º ano, ao seu primeiro clube de formação: uma equipa sediada no Canadá, mas que viajava e jogava também nos Estados Unidos. Foi praticamente uma experiência norte-americana completa em meio académico. Desde o secundário que sonhava tornar-se profissional.

Teve várias oportunidades de viajar para Portugal ainda durante o secundário, para jogar, participar em academias e fazer testes. No último ano, decidiu arriscar: adiou as ofertas que tinha para jogar na 1.ª divisão universitária, entre as quais uma da American University, e mudou-se para Portugal, logo a seguir ao liceu. E nunca mais voltou.

Chegou ao Amora em janeiro, a meio da época — é o seu segundo clube em Portugal. Médio-centro, garante que o maior desafio tem sido adaptar-se a um futebol muito mais tático do que aquele a que estava habituada na América do Norte. Mudou-se sozinha para Portugal aos 17 anos. A família continua no Canadá.

Este é o teu segundo clube em Portugal. 
Tecnicamente, sim.

Fala-nos da tua experiência antes de Portugal. 
Joguei a vida toda no Canadá. Comecei com três anos e passei pelas camadas jovens, entrei para o meu primeiro clube de formação no meu primeiro ano do secundário. Era uma equipa sediada no Canadá, mas que viajava e jogava nos Estados Unidos. Tive as duas experiências, o que foi praticamente uma experiência norte-americana completa em meio académico.
Desde o secundário que sempre sonhei tornar-me profissional. Sempre adorei futebol e, no final de contas, era esse o meu objetivo, o meu sonho. Penso que, enquanto crescia, um dos principais objetivos de muitas jogadoras norte-americanas era chegar à 1.ª divisão universitária. Mas tive muitas oportunidades de viajar para Portugal durante o secundário, jogar contra equipas de cá, participar em academias, fazer testes. E, no meu último ano, quis mesmo seguir uma carreira profissional. 
Tive a oportunidade de vir para cá logo após o liceu, por isso adiei as minhas ofertas para jogar na 1.ª divisão, na American University e noutras faculdades. Arrisquei e aproveitei a oportunidade de vir para Portugal. E nunca mais voltei.

Gostas de Portugal? 
Enquanto país? Absolutamente lindo.

Sentes muita diferença entre o futebol nos Estados Unidos e no Canadá e o futebol aqui em Portugal? 
Com certeza. Acho que no futebol americano, ou na América do Norte como um todo, é preciso estar em forma, ser uma atleta muito boa. Há muita agressividade, muitos lançamentos longos, coisas do género. Tudo é direcionado para a atleta, mas diria que há muito mais foco na resistência física. Aqui é um jogo muito mais tático. 
Sinto que o grande desafio é aprender táticas, aprender a ler o jogo, a ler a adversária e compreender o ambiente profissional. Ganhar um jogo envolve muito mais do que simplesmente entrar em campo e jogar. Aprendi que há muito mais do que aquilo que se vê em campo: muita preparação, muita tática de equipa, muita construção de jogo, coisas que são mesmo importantes para conquistar os três pontos.

Aprendi que há muito mais do que aquilo que se vê em campo: muita preparação, muita tática de equipa, muita construção de jogo, coisas que são mesmo importantes para conquistar os três pontos.

Olivia Tehrani

Tens alguma jogadora de quem gostes particularmente? 
Em criança, o meu modelo sempre foi a Georgia Stanway. Via-a desde pequena, durante a minha infância e adolescência, no Manchester City. Joga como médio-centro ou número 10, mesmo no meio, e era muito dinâmica com bola, com e sem ela, sempre à procura da vitória. Tinha uma fome e uma paixão incríveis pelo jogo e amor à camisola. Sempre fiquei impressionada com ela, foi sempre uma espécie de referência para mim nessa posição.

Tens alguma equipa de que gostes particularmente de ver jogar? 
Diria o Barcelona, no futebol feminino. E também Portugal, Espanha e Inglaterra, seleções que sempre acompanhei. E, claro, a seleção do Canadá. Todas têm algo de especial, adoro a forma como jogam, a ligação entre as jogadoras, a postura, a forma como representam o clube.

Como te descreverias como jogadora? 
Isso é complicado, não tinha pensado nisso. Diria que sou muito dedicada. Desde jovem sabia o que queria, vindo para aqui, estou muito determinada. Tanto dentro como fora de campo, quero o melhor para mim como jogadora. Mas tento liderar o máximo que posso, independentemente da função, da língua ou da idade. Tento ser um exemplo para a minha equipa e, acima de tudo, que nos apoiemos umas às outras, não importa a função, se estamos a ganhar ou a perder. Tenho muita motivação para extrair o melhor de cada uma e, principalmente, da minha equipa. 
Diria que sou um exemplo a seguir, uma líder, e dedico-me ao máximo até ao apito final. Acho que é uma das coisas que tento sempre fazer nos jogos de treino é dar 110%. E trabalhar tudo juntas, como uma só.

Como te sentes quando estás a jogar? Pensas em tudo ou simplesmente as coisas acontecem naturalmente? 
Nos jogos difíceis, quando entro em campo, tenho obviamente muita coisa na cabeça. Mas acho que os melhores jogos acontecem quando isso passa para segundo plano – pensar demais é muito natural para qualquer atleta. 
Quando entro naquele estado de concentração e simplesmente começo a jogar, é quase como estar totalmente imersa nisso: não consigo ver nem ouvir nada, apenas jogo. E, acima de tudo, ouço as minhas colegas de equipa porque isso é muito importante. Quando estou concentrada, só tenho um objetivo: jogar com bola e, no final, ter sucesso.

No final do dia, só quero dar o meu melhor, dar tudo de mim, de segunda a domingo, com afinco. E vencer.

Pensas se a adversária usa mais o pé esquerdo ou o direito? 
Sim. Acho que, para nos prepararmos para o sucesso, é preciso ter estas coisas em mente, é o que permite ter o melhor desempenho possível naquela posição. São coisas muito importantes, mas funcionam como uma segunda camada: não é pensar demasiado, é estar consciente de como a adversária e a própria equipa jogam, e usar isso como base.

Quais são os teus objetivos para a época e também para o futuro? 
Fui contratada em janeiro, a meio da época, estou aqui desde então. Desde que cheguei, tenho-me dedicado ao máximo e tentado aprender o máximo possível. Acho que este grupo de raparigas é absolutamente incrível, tenho o maior respeito por elas, pela equipa técnica e pelo Amora enquanto clube. 
O meu objetivo ao chegar aqui era retribuir o máximo que pudesse. Acho que o Amora confia muito nas suas jogadoras e tem metas bem definidas. No final do dia, só quero dar o meu melhor, dar tudo de mim, de segunda a domingo, com afinco. E vencer. 

E pensas no futuro? No teu futuro em Portugal? 
Sim, penso no futuro, sem dúvida. Desde que cheguei aqui sabia que queria evoluir o mais possível. Os meus objetivos em Portugal passam por continuar a evoluir, adquirir experiência, aproveitar as oportunidades que vão surgindo. Viver o momento e ser grata por tudo. E, em última análise, isso serve para melhorar a minha vida profissional e alcançar os meus objetivos futuros.

Estás aqui sozinha? A tua família não está cá? 
Não, mudei-me quando tinha 17 anos. A minha família está no Canadá.

E é difícil, também por não falares a língua? 
Sim. Diria que agora já compreendo muito melhor. Acho que também é muito importante aprender o idioma. Não tem sido fácil porque não é uma língua que tivesse aprendido antes. Mas, vivendo aqui e querendo ficar e passar o resto da minha vida neste país, a língua é fundamental.