“Os nomes mais pequeninos fazem parte desta história”

Mary Caiado escreveu o livro “História do Futebol Feminino – A Grande Aventura Portuguesa”, a primeira obra dedicada à trajetória do futebol jogado por mulheres em Portugal. Estivemos à conversa com ela sobre este desafio (e não só).

Mary Caiado

Tinham passado poucos dias da seleção feminina ter garantido a qualificação para o Mundial de 2023, feito histórico após a vitória no play-off com os Camarões. Portugal ainda vibrava. Era fim de tarde, Mary Caiado, com experiência no jornalismo desportivo, tinha saído do trabalho, estava num comboio lotado, o telemóvel tocou, ela atendeu. Era um telefonema da Federação Portuguesa de Futebol para fazer algo que nunca havia sido feito, o convite para escrever um livro sobre a história do futebol feminino em Portugal.

Primeiro, a surpresa, o espanto. Depois, Mary Caiado perguntou se havia material, registos, documentação, o que é que havia. Esse era um problema, não havia quase nada, responderam-lhe do outro lado da linha. “Percebi que ia ser uma tarefa hercúlea e nada fácil, mas aceitei o desafio”, recorda. A aventura de contar o que ainda não estava contado. Escrever o que não estava escrito. Estávamos em março de 2023, o livro foi lançado pouco mais de um ano depois, no dia 25 de novembro de 2024, na Cidade do Futebol, na presença de várias protagonistas dessa história. 

Mary Caiado recorda o caminho percorrido. Arregaçou as mangas, passou meses na recolha de informação, definiu uma estrutura com cabeça, tronco e membros, antes de começar a escrever. Os testemunhos foram fundamentais na construção do livro. Muitas entrevistas, milhares de horas gravadas, escuta atenta, interesse no máximo. E episódios que merecem um lugar na história do futebol feminino, em permanente construção. “Não fazia ideia de que na década de 50 já havia mulheres aqui a jogar, como a história da Adelaide, nem que fosse em Unhais da Serra a jogar com pinhas no pinhal com os primos.” Afinal, havia tanto para escrever. “A professora Graça Simões conta histórias de quando começou a trabalhar, na Federação. Corria o país de norte a sul com chuva e vento e ia para campos absolutamente inenarráveis.” 

Pelo caminho, Mary Caiado encontrou verdadeiras relíquias, autênticos tesouros. Na conversa com Gena, Maria Eugénia Teixeira, uma das primeiras guarda-redes da seleção nacional, soube que o seu pai tinha uma espécie de livros, à moda das enciclopédias antigas, com folhas grossas, tudo ali colado, com toda a história futebolística da filha. A primeira convocatória da primeira seleção principal oficial chegou-lhe às mãos através de Alfredina Silva, uma das pioneiras do futebol feminino, que tinha sido enviada para o Leixões. “Alfredina a falar-me do Boavista, Adelaide Almeida a falar-me do União de Coimbra, António José, antigo dirigente do União de Coimbra, enviou-me todos os registos que tinha.” A matéria-prima aumentava. “Foi um trabalho de minúcia, de perceber quem é que jogou com quem. Foram elas, as jogadoras, que me permitiram desbravar caminho e escrever esta história.”

Este desafio é também, e acima de tudo, uma homenagem às jogadoras, aos dirigentes e a todos os técnicos que, sem vergonha da carolice, sempre alimentaram e jamais desistem da sua paixão

Mary Caiado
História Futebol Feminino
Foto: Maria João Gala

A escrita foi um processo permanente de descoberta, de costurar e entrelaçar histórias, como montar um puzzle. Mary Caiado recuava anos, décadas, séculos, espreitava um passado que a ia encantando e impressionando. Um trabalho exaustivo, completo, profundo e denso. Ir o mais atrás possível, encontrar um início do fio da meada, com carta branca e liberdade total neste trabalho. “A parte mais complicada da escrita era escrever a história quando a história estava a acontecer”, confessa. Fez questão de colocar tudo, todas as equipas, todos os clubes, todo o percurso, todos os detalhes. “Mesmo os nomes mais pequeninos fazem parte desta história”, sublinha. “As pessoas que estão neste livro, as mulheres que estão aqui – não são todas, tenho plena noção disso – representam gerações diferentes. E todas elas tiveram o seu contributo e falam de muitas outras.”

Houve lágrimas, houve risos, houve tudo, nas entrevistas, enquanto escrevia, quando lia coisas e se emocionava, nas conversas com as pessoas que ajudaram a escrever as páginas do futebol feminino em Portugal. Um livro que honra todo esse percurso. “Sobram sempre muitas histórias.” Histórias para que se continue a escrever a bonita história do futebol feminino. “Foi muito importante ir ao passado e perceber porque é que se chegou ao Mundial, sobretudo porque é que se chegou a um Mundial tão tarde. Poderíamos ter chegado mais cedo, não fosse aquele interregno e aquela paragem, e a falta de visão de muita gente”, repara.   

Missão cumprida e ainda muita história por escrever, que acontece neste momento. “Tentei ser o mais fiel possível e honrar esta história, sobretudo isso.” Sente que honrou a missão que lhe foi destinada.” Mary Caiado faz mais uma observação. “Há histórias do passado que, de facto, são muito importantes e que se não fossem elas, hoje não teríamos, se calhar, o futebol feminino que temos hoje.”

“Oito capítulos entrelaçam os testemunhos recolhidos em entrevistas com a informação de milhares de artigos de jornais, revistas, sites, blogues, publicações de redes sociais, mas também de obras literárias, investigações académicas e documentos históricos como a Constituição de 1933 ou a convocatória de estreia para a primeira seleção nacional oficial feminina, formada em 1931

Mary Caiado

Duzentas e trinta e duas páginas, um novo capítulo na literatura desportiva nacional fruto de uma investigação profunda, de um mergulho em dois séculos e várias décadas, de uma pesquisa atenta e apurada que acompanha a evolução do jogo e as transformações políticas, sociais e culturais do país. 

Na contracapa, o resumo “Dos primórdios do futebol feminino, num tempo em que a simples ideia de uma mulher jogar era alvo de escárnio; da formação das primeiras equipas no Boavista e no União de Coimbra; da primeira competição nacional, ainda organizada por clubes; da primeira seleção feminina não oficial; da chegada da Taça de Portugal ao Jamor; até ao estatuto de destaque de projeção internacional conquistado pelas equipas da Federação Portuguesa de Futebol e pelos principais clubes, revela-se um percurso de resiliência, luta e superação”. 

Mary Caiado é licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, com percurso profissional no jornalismo em redações do Maisfutebol, A Bola TV, Público, TVI e CNN. Sempre gostou de desporto. “História do Futebol Feminino – A Grande Aventura Portuguesa” é o seu primeiro livro.