Começou como analista no Varzim e assumiu a função de treinador depois da época arrancar. É observador, bastante atento, fala com a equipa técnica, tenta perceber as perspetivas das jogadoras que estão dentro de campo quando o jogo está a acontecer. Nesta altura do campeonato, assegurar a manutenção é o maior objetivo.
Pedro Viana vê talento na jogadora portuguesa, vê o futebol feminino a crescer, fala da qualidade de Kika Nazareth, da sua inteligência de jogo. A entrega, o empenho e o gosto por treinar são qualidades que valoriza numa atleta. Adapta a sua palestra ao que a equipa precisa a cada momento. Ora mais analítico para acalmar os ânimos, ora mais enérgico para puxar pelas suas jogadoras.
Um analista que está a treinar.
Sim. Já tinha treinado. Eu gosto bastante da parte da análise porque obriga-nos a entender o jogo. Ou seja, é preciso chegar a casa e refletir não só sobre o jogo, mas sobre os treinos, que é trabalho de treinador, mas assim é quase obrigatório.
Treinador observador. Qual o método, qual o processo?
Há duas vertentes: há a vertente individual e há a vertente coletiva. Treinamos três vezes por semana, à segunda-feira é mais individual, mais coletivo a meio da semana, e depois um misto no final. Na análise em vídeo tentamos fazer das duas formas, primeiro coletivo, depois individual. À quarta-feira, o treino é mais coletivo para as jogadoras perceberem o que têm de perfeiçoar em prol da equipa, não só a nível individual.
O método vem um bocadinho de Vítor Frade, não vou mentir, um pouco de priorização tática, seja tensão, depois resistência, depois velocidade. Não fazemos a 100% porque acredito que no equilíbrio é que está a virtude.
Tudo isso também vem um bocadinho do que aprendi tanto na FADEUP (Faculdade de Desporto da Universidade do Porto), como na Universidade Lusófona. Ou seja, vai buscar o melhor dos dois mundos.
Também gosto muito do campeonato espanhol, por isso, utilizo quase sempre em todos os treinos, de início, o meiinho para trabalhar espaços curtos, decisão rápida. E aplico também o método da priorização tática porque realmente acho que faz sentido os ensinamentos do Vítor.
O que valorizas numa jogadora?
Depende da posição, mas principalmente muita entrega, muito empenho e que tenha gosto por vir treinar. Uma atleta que gosta de treinar consegue atingir potenciais que outra atleta que seja melhor tecnicamente não vai atingir. Entrega-se mais, consegue perceber melhor o que é pedido, e consegue ser muito melhor para a equipa.
Em termos de mensagens, de palestras, o que tentas transmitir às jogadoras?
Ao contrário de alguns treinadores que tive, vou variando e dou o que acho que elas precisam. Nem sempre muito emotivo, nem sempre muito tático. Ou seja, se acho que elas precisam de acalmar, vou mais frio, mais analítico, e tento acalmar os ânimos. Se acho que a equipa está um bocadinho adormecida, aí sim, apelo à paixão, à vontade, ao querer. É tentar dar resposta às necessidades da equipa.
O discurso é preparado ou surge no momento?
Normalmente, surge no momento.
Acho que o futuro passará por fazer como o que acontece no futebol masculino: um campeonato com 16 ou 18 equipas a duas voltas
Pedro Viana
Relativamente à jogadora portuguesa, há talento suficiente no nosso país?
Em Portugal, cada vez há mais talento nas jogadoras. Tecnicamente, as jogadoras portuguesas estão a evoluir bastante. Comparando até um bocadinho com o voleibol, acho que o mercado do futebol feminino vai ser muito semelhante ao do voleibol. No voleibol, no masculino, acontecem jogadas muito rápidas, com muita força, tal como acontece no futebol. Muita velocidade, muito duelo, a transição muito rápida. E no voleibol feminino, as jogadas têm de ser mais técnicas, mais elaboradas. Acho que o futebol feminino passa por aí.
Um exemplo perfeito é a Kika, que aparece na capa da vossa revista. Uma jogadora muito técnica, que é fabulosa, que não é tão veloz comparativamente com um homem porque fisiologicamente não consegue, mas, tecnicamente, é superior à maior parte.

Como analisas o crescimento do futebol feminino em Portugal?
Começa-se a profissionalizar cada vez mais, o que é ideal. Acontece o que antigamente aconteceu com o futebol. Ou seja, ao início, bastava só as jogadoras e uma bola e agora os treinadores querem preparar os treinos. Houve uma evolução muito maior do que no futebol masculino, o que também é normal quando um processo se inicia.
A Federação conseguiu tomar uma boa posição em preparar as equipas, principalmente pela certificação. A dizer queremos estruturas, queremos saber como são as equipas técnicas, é preciso ter o curso de treinador, é preciso ter um adjunto. Mesmo agora, na 3.ª liga, é preciso ter o grau 2. Acho que vai ser cada vez melhor, não só para os clubes, mas também para a evolução do futebol feminino em si.
Como olhas para uma 1.ª liga com 10 equipas e uma 4.ª com 70?
Eu percebo o lado da Federação. As equipas que estão lá em cima têm um bocadinho mais orçamento, então conseguem fazer as viagens, e as equipas da 4.ª Divisão já não conseguem. Claro que se distribuíssem melhor os orçamentos, seria possível. E acho que seria mais equilibrado e mais rico para as jogadoras, em vez de se fazer duas fases, um campeonato a duas voltas. Isto é só a minha perspetiva. Compreendo, mas acho que o futuro passará por realmente fazer como o que acontece no futebol masculino: um campeonato com 16 ou 18 equipas a duas voltas.
Quando o treinador desiste, mais vale sair, já devia ter saído 5 minutos antes. Como se diz no futebol, o treinador não pode atirar a toalha ao chão
Quais as expectativas do Varzim para esta época?
Assegurar a manutenção, tentar promover as jogadoras, preparar a próxima fase. E que seja também um sítio onde cada vez mais jogadoras queiram integrar o nosso projeto, para as promover, não só noutro patamar, mas também levar o Varzim para outros patamares.
Um treinador não pode ser uma pessoa que atira a toalha ao chão, pois não?
Não. Quando o treinador desiste, mais vale sair, já devia ter saído 5 minutos antes. Como se diz no futebol, o treinador não pode atirar a toalha ao chão, tem de estar sempre a lutar, mesmo que esteja a perder, tem de tentar arranjar soluções para conseguir ajudar a equipa. Às vezes é difícil, claro, mas deve ser mais difícil para quem está dentro de campo. Quem está cá fora, tem de ter frieza e cabeça para conseguir arranjar a solução para promover o jogo.
Em dia de jogo, consegues estar sentado, mais tranquilo, ou estás sempre a mandar orientações para dentro do campo?
Vai um bocadinho de acordo com o discurso, depende do que elas precisam, mas sentado é impossível. Sempre em pé, sempre atento e a falar com a equipa técnica, e a falar principalmente com as jogadoras dentro de campo porque, às vezes, nós podemos ter uma perspetiva, mas quem está dentro de campo tem outra. Obviamente que a solução tem de ser encontrada nos treinos e não durante o jogo.
Contudo, às vezes, é preciso adaptar, mas a ideia passa sempre por passar uma mensagem positiva no dia de jogo, nunca meter para baixo, sempre puxar para cima, porque é realmente o momento que elas precisam de maior confiança para as coisas conseguirem sair.
Se for preciso fazer uma substituição aos 15 minutos, fazes?
Sim.
Pedro, o que é, para ti, um bom jogo?
É um jogo com muitos golos, muito ataque. Não gosto daqueles jogos parados em que há muitas faltas, por vezes faz parte do jogo, mas gosto de um jogo ofensivo, que as equipas estejam a tentar jogar à bola, bola no chão, construir. Claro que não é um mundo idílico à Pep Guardiola, mas gosto de um jogo ofensivo. E se um jogo acabar 4-3 para o Varzim, está perfeito.



