“Quando o mérito não chega” é o título do comunicado do Vitória Clube do Pico da Pedra, da Ribeira Grande, ilha de São Miguel, Açores, partilhado nas redes sociais. Nesse texto, relata a falta de apoio ao futebol feminino por parte do Governo Regional dos Açores (GRA), conta que fez tudo e não recebeu nada. “Criou uma equipa sénior feminina sem qualquer apoio do GRA, competiu, venceu e conquistou, dentro de campo, todos os objetivos desportivos ao seu alcance. Campeãs de São Miguel. Campeãs Regionais dos Açores.” Apesar disso, foi informado de que não terá qualquer apoio do GRA para participar no Campeonato Nacional da 4.ª Divisão e na Taça Nacional Feminina de Promoção.
Qual a explicação? “A justificação apresentada é meramente burocrática: a ausência de um convite formal por parte da Federação Portuguesa de Futebol ao campeão regional dos Açores. Um argumento que ignora por completo o mérito desportivo conquistado em campo e penaliza um clube e um grupo de atletas por um processo que não controlam e que lhes é totalmente alheio”, afirma o clube.
Na época passada, o Pico da Pedra lembra que a equipa sénior feminina, composta exclusivamente por atletas açorianas, “jovens mulheres que treinam, trabalham e representam os Açores fora da ilha, sem privilégios e sem ajudas”, competiu sem qualquer comparticipação financeira do GRA. “Não houve apoio para combustíveis, nem compensações pelas faltas ao trabalho resultantes das deslocações ao continente. Todos os encargos logísticos foram suportados pelo clube, com enormes dificuldades, mas com sentido de responsabilidade e compromisso com o projeto”, adianta. Nada mudou nesta época.
O futebol feminino não se promove com discursos nem intenções. Promove-se com decisões concretas. O Vitória Clube do Pico da Pedra não pede favores. Exige justiça, coerência e respeito pelo mérito conquistado em campo.
refere o clube em comunicado
Ricardo Estrela é o presidente do clube e lamenta a postura do GRA. O Pico da Pedra entende que o Campeonato de Portugal no futebol masculino está ao mesmo nível da 4.ª Divisão feminina, por ambos serem os últimos escalões das competições nacionais. Os Açores têm duas equipas masculinas no Campeonato de Portugal. “O GRA paga tudo o que é transporte, alojamento e alimentação, e dá 108 mil euros para terem a palavra Açores escrita nas costas”, revela. São 108 mil euros por época para cada equipa. Ricardo Estrela tem uma pergunta e considerações a fazer. “Porque dão aos homens e não dão às mulheres? O mundo hoje não é isso. A gente não se pode conformar com isso, a gente só quer igualdade de tratamento.”

A equipa sénior feminina do Pico da Pedra tem 26 jogadoras, dos 15 aos 39 anos, e vai agora disputar a Taça de Promoção da 4.ª Divisão Nacional. O que implica pelo menos cinco viagens ao continente. “Somos açorianos, não temos culpa de estarmos à distância do continente”, repara Ricardo Estrela que garante que o clube vai estar nessa competição, fez as contas, e garantiu apoios da Câmara Municipal da Ribeira Grande, que tem atribuído ao clube uma verba ao abrigo da promoção turística do concelho, bem como de várias empresas locais. “O projeto não pode parar.” O clube não se conforma e não desiste. “Estamos a preparar a próxima época para continuar a participar na 4.ª Divisão, quer seja com apoios, quer seja sem apoios do Governo”, avisa Ricardo Estrela.

No comunicado, o clube sublinha que, enquanto o Instituto Português do Desporto e Juventude reconhece e apoia logisticamente a presença de equipas do continente nos Açores, o GRA nega apoio a uma equipa açoriana campeã, que precisa de se deslocar ao continente para competir. “Esta assimetria não é defensável, nem do ponto de vista desportivo, nem do ponto de vista da equidade territorial.” “Há dinheiro público para importar atletas, mas não há apoio para quem é da terra. Há financiamento para projetos sem sustentabilidade social, mas não há resposta para quem ganha dentro do campo.
Há tolerância para excessos no futebol masculino, mas rigor absoluto quando se trata de futebol feminino”, declara.
Porque dão aos homens e não dão às mulheres? O mundo hoje não é isso. A gente não se pode conformar com isso, a gente só quer igualdade de tratamento.
Ricardo Estrela, presidente do Pico da Pedra
O GRA reagiu rapidamente às declarações do Pico da Pedra. A Direção Regional do Desporto emitiu um comunicado com esclarecimentos, reconheceu o percurso desportivo da equipa feminina, garantiu que o mérito nunca esteve em causa, e lembrou que o financiamento público ao desporto está sujeito a um enquadramento legal rigoroso.
“O historial decisório desta Direção Regional tem sido, de forma consistente, o de não atribuir financiamento público a quadros competitivos de acesso aberto e/ou inscrição voluntária, independentemente da modalidade ou do género, por inexistência de enquadramento legal que o permita”, justifica, sublinhando que o Campeonato Nacional Feminino da 4.ª Divisão é “uma competição de acesso aberto, cuja participação resulta da livre e espontânea vontade dos clubes, não se tratando de um quadro competitivo fechado nem de uma competição que promova regularidade anual de deslocações previamente contratualizadas.”
Só há apoios financeiros públicos, adianta, “para participação em quadros competitivos que sejam previamente acordados entre o departamento governamental competente em matéria de desporto e as entidades do movimento associativo desportivo, no âmbito dos respetivos Programas de Desenvolvimento Desportivo.” Não há ajudas, portanto. No entanto, o GRA demonstra disponibilidade para rever os critérios de atribuição de apoios para promover o futebol feminino com “critérios claros, equitativos e legalmente conformes.”
Qualquer decisão no sentido de apoiar esse tipo de participação, constituiria um encargo financeiro não previsto, abriria um precedente aplicável a outros clubes e modalidades em situação semelhante”
lê-se no comunicado do Governo Regional dos Açores
O Pico da Pedra não tardou a responder ao comunicado do GRA. Ricardo Estrela não ficou surpreendido com o seu conteúdo, lê nele a mesma resposta dada em agosto de 2024, e defende que se trabalhe numa nova legislação, num novo regulamento que preveja e acautele essas situações. Para o clube, o crescimento do futebol feminino exige mais do que respostas burocráticas. “Exige medidas estruturais, planeamento e adaptação das políticas públicas, para que a Região Autónoma dos Açores acompanhe a realidade nacional e não fique para trás.”
O clube sabe que a 4.ª Divisão é de acesso aberto. “O Vitória sempre teve essa consciência. Por isso, na primeira época, participou sem qualquer apoio, ao mesmo tempo que competia no Campeonato de Ilha e no Campeonato dos Açores. O clube fez o seu trabalho: planeou, competiu e venceu.” Na segunda época, explica que o contexto é diferente. “O mérito foi conquistado. O Vitória foi campeão regional dos Açores. Não pode agora ser penalizado pela inação ou incompetência de terceiros. O clube cumpriu todas as etapas desportivas que estavam ao seu alcance.”
“É igualmente sabido que as mulheres continuam a apresentar níveis reduzidos de prática de atividade física. O futebol feminino tem-se revelado uma ferramenta poderosa para contrariar essa realidade, promovendo hábitos saudáveis, inclusão social e bem-estar. O GRA deveria ser o primeiro interessado neste fenómeno. Cada cêntimo investido no desporto traduz-se em poupança futura na saúde física e mental da população.”
Seja como for, o clube de São Miguel não baixa os braços. Desde o início, recorda, que quer desenvolver um projeto sólido, sustentado e contínuo no futebol feminino regional. “O Vitória competiu, venceu e chegou onde tinha de chegar. Reconhecer o mérito desportivo não é suficiente se ele não se traduz em decisões concretas. O futebol feminino nos Açores não pode continuar dependente de exceções, improvisos ou leituras administrativas rígidas. Precisa de visão, adaptação e responsabilidade política”, alerta num segundo comunicado. Ricardo Estrela conclui: “A gente quer que olhem com olhos de ver.”



