A equipa do Leixões está na luta pela manutenção na 2.ª divisão nacional. Rui Filipe Magalhães assumiu o grupo depois da época arrancar e começou logo a introduzir novos conceitos, a mudar muita coisa, a correr contra o tempo. A atitude é um dos aspetos que valoriza numa jogadora. A criatividade também. Ainda é do tempo, confessa, do joga bonito. E isso, refere, faz falta ao futebol.
A 2.ª divisão está bastante competitiva, é cada vez mais difícil fazer bons resultados, admite que é uma responsabilidade acrescida para si e para as atletas. E deixa um reparo à forma como as competições estão organizadas. A descida de seis equipas é exagerada, não ajuda, e quem sobe dificilmente tem condições de se aguentar. Para si, um bom jogo é um jogo com golos, com fair-play, e jogadoras que defendem a camisola até ao último minuto.
Está a treinar a equipa há relativamente pouco tempo. Tem sido difícil mantê-la motivada nas atuais circunstâncias?
Eu sinto a equipa motivada. É importante termos um balneário forte, essa tem sido uma das precauções, e não foi difícil conseguir isso. É um grupo que tem trabalhado bem nesse sentido.
O que privilegia num treino?
Tudo é importante. Desde a forma como está organizado, desde a forma como as atletas entram no treino, tudo o que é preconizado acontecer. E é importante que as atletas saibam aquilo que vão fazer, saibam aquilo que estão a fazer, e saibam para aquilo que estão a fazer.
Como tem sido o seu método de trabalho?
Estamos a trabalhar muita coisa. Estamos a introduzir uma data de conceitos em pouquíssimo tempo. Tive o primeiro jogo com dois treinos. Portanto, estamos a mudar muita coisa. Temos pouco tempo e estamos a correr contra o tempo nas circunstâncias em que estamos. E é uma luta para conseguir que isso aconteça em tão pouco tempo. Precisamos de resultados com o objetivo de poder garantir a manutenção. É um processo que estamos a acelerar e temos tentado introduzir esses novos conceitos.
Dentro do grupo, quais as mais-valias, as maiores qualidades das jogadoras?
São jogadoras jovens com uma grande margem de progressão, o que também permite que haja uma maior aceitação de novas metodologias. Estão mais predispostas a trabalhar novos conteúdos. E como têm uma grande margem de progressão, nós também conseguimos trabalhá-las de uma forma diferente. Obviamente que a experiência também é importante. Mas o facto de serem jogadoras jovens, temos aqui uma margem para poder trabalhar de outra forma, são mais recetivas a novas mudanças, a novos conteúdos.

O seu plano de treino adapta-se às circunstâncias ou é bastante fechado e dificilmente muda?
O treino é sempre feito em função das atletas que vamos ter. É preparado ao pormenor, nós sabemos exatamente quem vamos ter. Portanto, preparamos o treino em função de cada atleta. Por isso é que, às vezes, é chato quando há uma baixa de última hora e temos de ajustar o treino. O treino é mudado em função da falha dessa atleta. Os exercícios são preparados em função do número de atletas. Se temos 17, vamos ter um treino. Se temos 8, vai ser um treino completamente diferente. Portanto, há sempre essa preocupação.
Os exercícios são preparados em função do número de atletas. Se temos 17, vamos ter um treino. Se temos 8, vai ser um treino completamente diferente
Rui Magalhães
A massa associativa tem sido importante?
Sim. Estamos focados naquilo que é o jogo, essa tem sido a nossa preocupação, consolidar aquilo que é o nosso processo de jogo. Pela grandeza do clube e da sua massa associativa, sabemos que são adeptos que puxam, que estão sempre presentes, e que são importantes para a equipa.
Como treinador, e vendo de fora, o que é que mais aprecia no jogo jogado?
Eu ainda sou do tempo em que tínhamos o joga bonito. Eu gosto de um jogo atrativo, obviamente que temos regras e conceitos táticos que estão implícitos, mas esse lado tem de estar presente. Portanto, eu gosto que as minhas jogadoras também tenham espaço para a criatividade. Porque a criatividade, por vezes, é o elo que vai desbloquear um jogo.
E isso não se ensina.
Isso não se ensina. Podemos dar-lhes um caminho para o fazerem e é uma coisa que é trabalhada com rotinas. Mas a criatividade é uma coisa que é inerente à pessoa e que faz falta no futebol. Nós vemos que, hoje, cada vez há menos criatividade e os jogos são todos demasiado táticos. Portanto, o criativo tem que lá estar. Eu, sendo arquiteto, também gosto desse lado.
Como arquiteto, faz desenhos nos planos de treino?
Não, mas ajuda naquilo que é a perceção espacial, a forma como partilhamos as coisas, a imagem. A forma como se apresenta o programa de trabalho tem influência.
Como é que um arquiteto vem parar ao futebol?
Joguei futebol. Futebol, arquitetura, também andei no atletismo, andei no ténis. Gosto muito de desporto. E depois vim parar ao futebol feminino, já aqui estou há 13 anos. O futebol feminino é uma missão, uma missão que ainda tenho, e aqui continuo. Sempre que é preciso, vem ter comigo para tentar mudar as coisas.
Como vê o crescimento e o percurso de futebol feminino em Portugal?
Tem crescido a olhos vistos, é percetível. Não sei se terá sido sempre da melhor maneira. Temos visto um crescimento acelerado, as coisas são bem diferentes do que se pensava há 13 anos, as condições são outras. Mas também há coisas que se estão a perder no futebol feminino. A criatividade, mesmo a forma de estar das atletas no futebol, é diferente.
Como assim? É mais profissional?
Não é só questão profissional, porque isso tem de estar implícito. Se queremos este desenvolvimento, a parte profissional tem de estar implícita. As atletas, ou a maior parte delas, já não jogam com o mesmo gosto que jogavam há uns anos. Há uns anos, como não havia nada, o futebol era muito mais bonito e hoje perdemos um bocadinho isso.
Há atletas que já estão mais preocupadas com outras coisas do que aquilo que mais importa, que é o lado positivo do futebol, a parte genuína do futebol. Foi uma coisa que o futebol feminino sempre teve. Mas não podemos ter o melhor de todos os mundos. E essa profissionalização também ajuda a que isso se perca um bocadinho.

Há talento, não há, se calhar, é talento que se compare àquilo que há noutros países porque são realidades já bem mais evoluídas
A 2.ª divisão está bastante competitiva?
Sim, esta 2.ª divisão, principalmente aqui na Série Norte, é dificílima. Isso também nos vem trazer outra responsabilidade, também traz outra responsabilidade às atletas. Está cada vez mais competitivo e é cada vez mais difícil conseguir fazer bons resultados.
Deixo aqui um reparo à forma como as competições estão organizadas. Descem seis equipas, cinco eventualmente, são muitas equipas a descer de uma 2.ª divisão. Um clube que sobe dificilmente tem a possibilidade de se manter porque descem seis equipas, e já é assim há dois ou três anos.
O que é que valoriza numa jogadora?
Acima de tudo, tem de ser uma pessoa que saiba estar, que goste daquilo que está a fazer, que seja empenhada, que tenha atitude. Uma pessoa que quando está no treino, quando está num jogo, está a dar tudo pela equipa. E quando digo a dar tudo, não somente dentro das quatro linhas, mas em todo o contexto que envolve o treino, o jogo. Essas jogadoras, hoje, são cada vez mais raras.
Acha que não há talento nacional suficiente para não ir buscar jogadoras estrangeiras?
Há talento, não há, se calhar, é talento que se compare àquilo que há noutros países porque são realidades já bem mais evoluídas, já passaram por esse processo há anos. Nós estamos numa fase inicial desta evolução. E, como estamos nessa fase inicial, temos essa necessidade se queremos ter equipas cada vez mais competitivas, entrar nas competições europeias em que conseguimos bater de frente com os grandes clubes. Acaba por ser uma necessidade. Vai também ao encontro da falta de aposta do desporto naquilo que é o percurso escolar, que vemos nos Estados Unidos – e daí os clubes também estarem a apostar nas jogadoras americanas, porque são bem mais completas, fizeram toda essa formação. E, aqui, esse acompanhamento que não existe da parte do desporto, naquilo que é o percurso escolar, acaba também por ter alguma influência. É preciso começar a pegar um bocadinho naquilo que é o desporto escolar para isso também se transpor para o que é o futebol profissional.
Rui, o que é, para si, um bom jogo?
Um jogo com golos. Um jogo sem golos não é jogo. Um jogo em que vemos uma equipa a trocar a bola de forma positiva, em que vemos fair-play, em que vemos as atletas a defenderem a sua camisola até ao último minuto, com boas jogadas, bons princípios. Para mim, isso é um bom jogo.
Às vezes, mais importante do que ganhar, e nós queremos todos ganhar, é também conseguirmos passar isso para as atletas e elas tentarem proporcionar um bom espetáculo, porque nós também gostamos que as pessoas venham ver. Queremos que as pessoas também se divirtam com aquilo que estamos a fazer dentro campo. Nem sempre é possível, mas tentamos.



