Sandra: “Não falo muito para dentro do campo, mas também não consigo estar sentada”  

Sandra Fernandes é treinadora da equipa da Juveforce, de Vagos, a disputar o apuramento de campeão na 2.ª divisão. Os seus treinos são intensos. Trabalho e compromisso são características que valoriza nas jogadoras.

Sandra Fernandes, Juveforce
Fotos: Igor Martins

É nervosa para dentro e calma para fora para transmitir tranquilidade às jogadoras. Sandra Fernandes conta que os objetivos da 1.ª fase estão cumpridos, a equipa que treina está na fase de apuramento de campeão na 2.ª divisão. Está preparada para jogos físicos e intensos. 

O espírito de equipa, o compromisso do treino de quem joga, de estar sempre presente, esteja em campo ou no banco, são fatores que, em sua opinião, fazem um grupo coeso. Em seu entender, o futebol feminino devia ter mais escalões e mais competições. Além de treinar, trabalha numa empresa de análise de jogos de futebol, em Aveiro. 

A equipa está a cumprir as expectativas, aquilo que tinha planeado?
Sim, era o que tínhamos planeado. Claro que a questão da Taça estava muito dependente do que nos saísse no sorteio, equipas que são acessíveis ou que estão ao nosso nível. Acho que cumprimos a nossa obrigação. 
Em termos de campeonato, era um objetivo ficar logo nos quatro primeiros lugares, para garantir a manutenção esta época, visto que subimos na época passada e acaba por ser muito complicado. 

A experiência que tem na Liga BPI tem sido importante para treinar uma equipa da 2.ª divisão?  
Acho que sim. A experiência traz-nos sempre coisas muito positivas, até porque é uma realidade diferente. Ter acompanhado, na altura, a treinadora Paula foi muito positivo para mim. 

É uma treinadora calma ou nervosa?
Para mim, sou nervosa, para elas tento transparecer que sou calma e que estou calma. Fico muito nervosa, só que tento passar sempre uma postura calma e tranquila para elas porque, nos jogos, são elas que estão lá dentro, são elas que tomam as decisões, elas é que decidem. 
Trabalhamos durante a semana para tentar que tomem as melhores decisões, às vezes acontece, outras vezes não, mas desde que elas deem o seu melhor, está tudo ok. 

Tento passar sempre uma postura calma e tranquila para elas porque, nos jogos, são elas que estão lá dentro, são elas que tomam as decisões

Sandra Fernandes

Como é o seu método de treino? Que exercícios privilegia? 
Sendo uma 2.ª divisão, tentamos incidir muito sobre o fator físico e dar intensidade ao treino, até porque os jogos são sempre muito físicos, muito intensos. Então o nosso objetivo é garantir que elas estão bem fisicamente e depois, claro, taticamente também para cumprirmos com o que 2.ª divisão nos pede atualmente. 

Em dia de jogo, consegue sentar-se durante 5 segundos ou está sempre em pé, sempre a ver o que é que está a acontecer, e sempre a dar orientações para dentro do campo? 
Não falo muito para dentro, mas também não consigo estar sentada. Vou falando, vou dando feedback. Não sinto que seja uma pessoa muito ativa, mas também não consigo estar quieta.

O que é que valoriza numa jogadora? Quais as qualidades que aprecia?
Principalmente, compromisso e trabalho. São fundamentais porque com isso vamos conseguir sempre qualquer coisa. Mesmo que tecnicamente não seja nada de extraordinário, trabalhando dá sempre para garantir qualquer coisa. E o compromisso é sempre importante porque precisamos de pessoas para treinar, precisamos de pessoas para jogar. 
Ter espírito de equipa, o compromisso de vir sempre, estar sempre presente, jogando ou não, é o que faz uma equipa. 

Devíamos ter mais escalões, mais competição para conseguirmos desenvolver o futebol sénior e a jogadora portuguesa

Tem sempre um plano B em dia de jogo? Se, por exemplo, a equipa ficar com 10?
Sim, isso já nos aconteceu. O objetivo não é esse. Vejo a outra equipa, tento pensar o que é que bate certo para nós, consoante o nosso adversário, o que é que temos de fazer. Claro que isso pode acontecer, não é o ideal, mas acontecendo temos de nos adaptar. 
Tal como se estiver 11 para 11 e a coisa não estiver a correr bem, temos de tentar adaptar, temos de tentar arranjar soluções. Acaba por não haver um plano B, mas acaba por acontecer.

Consegue dormir no dia antes do jogo? 
Sim.

Como tem visto o crescimento do futebol feminino?
Tem sido bastante positivo. Eu joguei, há muitos anos, e é uma diferença abismal. Há muito mais clubes, há muito mais escalões de formação, o que é fundamental para depois conseguirmos alimentar os escalões seniores. A formação é o essencial disso tudo, devíamos ter mais escalões, mais competição para conseguirmos desenvolver o futebol sénior e a jogadora portuguesa. 

Só treina ou tem uma atividade profissional? 
Trabalho numa empresa de análise de jogos de futebol. 

Sandra, o que é, para si, um bom jogo? 
Para mim, um bom jogo é um jogo que ganhamos. Jogar bonito é muito interessante, mas o que conta, no fim, acaba por ser o resultado. 
Há jogos que são melhor conseguidos, há outros que não correm tão bem, mas, no fim, o que conta acaba por ser o resultado final.