Sara, Ouriense: “Sou raçuda, vou aos lances como se fossem os últimos”

Sara Coutinho jogou como lateral na última época no Ouriense, na 2.ª Divisão. É uma jogadora confiante, tem um ano de experiência na Liga BPI, e duas internacionalizações pela seleção nacional Sub-18. A parte mental é, na sua opinião, fundamental no futebol.

Aprecia a posse de bola, o saber jogar em equipa, variar o jogo de um lado para o outro. Aprecia os lances individuais, as fintas e os golos. Sara Coutinho começou a jogar futebol aos 10 anos, depois de insistir com os pais. Tem agora 21 anos e gostaria de voltar à 1.ª Divisão ou ter uma experiência internacional em Espanha, num contexto de alta intensidade e mais agressivo.

“Gosto mais de fazer golos, mas desde que esteja a jogar, estou bem”, confessa. De avançada passou para lateral. Fala das condições que são dadas às jogadoras e que a aposta dos clubes devia ser maior e melhor. “Não é só pegar na bola e fazer golos”, repara. São precisas muitas outras coisas. É ambiciosa, o seu objetivo é chegar à seleção principal feminina. E é para isso que está a trabalhar.



Como te defines como jogadora? 
Sou uma jogadora ambiciosa. Tento sempre ir até ao fim, levar cada lance como se fosse o último. Só paro quando consigo a bola e quando consigo fazer o meu melhor. É basicamente isso. Sou muito ambiciosa e muito disponível. 

Como foi a tua primeira época no Ouriense?
Uma experiência muito engraçada, vivemos todas juntas, algo que não é normal. No início da época, eu estava um bocado com receio, como seria conviver com tanta gente todos os dias, mas acho que foi algo positivo, que até nos ajudou dentro de campo.

Como és dentro de campo? 
Sou raçuda, vou sempre aos lances como se fossem os últimos, e sou confiante. Sou uma jogadora que gosta de ir para cima, gosta de jogar, gosta de ter bola no pé.

O que mais aprecias no jogo jogado? 
Aprecio muito a posse de bola, saber jogar em equipa, variar o jogo de um lado para o outro. Mas também gosto muito de lances individuais, as fintas e os golos.

Tens experiência de seleção nacional jovem.
Sim, estive nas Sub-18, em 2023, tive duas internacionalizações, e alguns estágios preparatórios. 

E como é estar na seleção nacional?
É incrível, sempre foi o meu sonho, consegui alcançar esse sonho de representar a seleção portuguesa, mas estou sempre a pensar em mais. E agora o meu objetivo é conseguir um dia estar na seleção A, representar o nosso país da melhor maneira. E é para isso que estou a trabalhar agora. 

Continua a valer a pena estar no futebol feminino? 
Claro, o futebol é o que eu mais gosto, basicamente é o que me dá vontade de estar aqui.

E de acordar todos os dias?
Exato, é o que me dá “vontade de viver”. Eu gosto muito de futebol, sempre gostei desde pequenininha. 

Começaste a jogar com que idade? 
Comecei a jogar com 10 anos. Quis jogar mais cedo, mas, na altura, era mais difícil jogar contra meninos, os meus pais não gostavam muito, tinham medo que me aleijasse, mas aos 10 lá consegui convencê-los.

Só paro quando consigo a bola e quando consigo fazer o meu melhor. Sou muito ambiciosa e muito disponível

Sara Coutinho, Ouriense

O que gostarias de melhorar em ti como jogadora?
Principalmente o meu físico e os duelos, acho que são os aspetos que gostava mais de melhorar. E estou a trabalhar para isso neste momento. 

E o que é que fazes? 
Fora do treino, faço ginásio para melhorar a minha condição física, a alimentação também é muito importante. Nos treinos, é tentar disputar sempre as bolas sem medo e ir para a frente. 

Há parte física, há parte técnica e tática. E a parte mental é importante? 
É muito importante. Na minha opinião, é a chave para o sucesso do futebol, é preciso ter uma mentalidade muito forte e saber lidar com as coisas quando não estão tão boas. Acho que é mesmo a parte essencial no futebol.

O futebol feminino tem crescido?
Tem crescido imenso. 

Ficas contente com esse crescimento, e com a atenção que está a ser dada, ou achas que ainda há muito para fazer? 
Acredito que ainda há muito para fazer, mas também temos de ter noção de que as coisas não eram como estão agora e temos de apreciar as coisinhas que foram melhorando. Mas, sim, ainda há muito que se possa fazer, principalmente no futebol português feminino, ainda temos muito para melhorar, muito para crescer. 

Por exemplo, as condições e os horários dos treinos, podiam ser melhores?
Sim. Por exemplo, estamos numa 2.ª Divisão, e em termos de horários, de salários mesmo, comparando se calhar a uma distrital masculina, não tem nada a ver, talvez recebam tanto quanto nós, treinam como nós, e nós estamos numa 2.ª Divisão de Portugal.
Portanto, é algo que temos de melhorar, o futebol feminino tem ainda muito que crescer, mas já vem melhorando. A 1.ª Divisão já treina de manhã, o que é bastante importante, já tem salários muito melhores, condições melhores para as atletas, para poderem estar no seu melhor, como é óbvio, mas aos pouquinhos penso que as coisas vão melhorar. 

Gostava imenso que todas as equipas tivessem boas condições, um bom campo de futebol para jogar, nutrientes e proteínas para comer à vontade

Sara Coutinho, Ouriense

Vês-te novamente na 1.ª Divisão?
Sim, gostava de estar lá um dia, gostava sim.

E já pensaste numa experiência internacional?
Acho que era uma experiência engraçada, é óbvio que fora de país temos coisas que não existem em Portugal, o futebol é completamente diferente. Gostava muito, por exemplo, de jogar em Espanha, iria ser interessante, é um jogo muito mais intenso, muito mais agressivo, acho que ia gostar bastante.

O que é que te aborrece no mundo do futebol?
São mesmo as condições que são dadas ao futebol feminino. É algo que me deixa triste porque nós realmente só queremos jogar, queremos divertir-nos e, claro, trabalhar. E as pessoas pensam que, para isso, é só ir lá para dentro, mas não, é preciso muita coisa por trás, mesmo a alimentação, mesmo em termos psicológicos, a mentalidade, ginásio. São condições que é preciso um clube saber dar e ainda há muitos que pecam nesses aspetos. Mas, como digo, as coisas já melhoraram imenso desde o passado e acredito que vão continuar a melhorar. 

Se pudesses mudar alguma coisa, o que mudarias? 
Seria esse aspeto das condições. Gostava imenso que todas as equipas tivessem boas condições, um bom campo de futebol para jogar, nutrientes e proteínas para poderem comer à vontade.

O futebol acaba por ser um desporto completo? Não basta pegar numa bola e está feito.
Exatamente, não é só pegar na bola e fazer golos, é preciso muitas coisas por trás. 

Sara, o que é, para ti, um bom jogo? 
Um bom jogo é quando o treinador nos dá objetivos e eles são todos alcançados. Claro que o ideal seria conseguir alcançar esses objetivos com a vitória, como é óbvio. Mas nem sempre é preciso a vitória, se aqueles objetivos estiverem alcançados, acho que é um bom jogo.