Saraiva: “Tive um treinador que dizia: até ao pescoço é canela”

Ana Saraiva joga no Cucujães, na 4.ª Divisão, é avançada, tem 27 anos. Começou no futebol de rua, a jogar com rapazes. Gostava dessa adrenalina, dessa intensidade. Admite que tem um remate forte e que não mede a força. Cristiano Ronaldo é o seu ídolo.

Saraiva, Cucujães
Foto: Maria João Gala

Saraiva é o seu apelido e é assim que é tratada no Cucujães, a disputar a 4.ª divisão no campeonato nacional. Mas, no mundo do futebol, conta que é conhecida como “cigana”. Não gosta de perder, nem que seja a feijões. Lida bem com a crítica, sabe que faz parte do jogo, e defende que o futebol feminino tem de ser mais valorizado, sobretudo as equipas mais pequenas. 

Tem 27 anos, joga futebol, e trabalha numa empresa, faz peças de automóveis. As suas tatuagens têm significado: a hora a que nasceu, intuição e sorte, e o número 7, o número que escolhe sempre para jogar. “Cristiano Ronaldo é o meu ídolo e sempre será”, garante. Tem chuteiras autografadas por ele. Gosta de jogos intensos, disputados, rói as unhas de raiva quando está no banco. O futebol é a sua paixão desde sempre. 

Como começaste a jogar futebol? 
Comecei a jogar com rapazes, a jogar futebol de rua. Depois contrataram-me para a Oliveirense. Sou de Oliveira. Jogávamos com um dos treinadores dos pequeninos, na rua, e ele disse-me para ir jogar para lá que eu tinha boa habilidade e tal. Comecei a jogar futebol de rua. Mas sempre tive uma paixão pelo futebol. 

Há alguma história? 
Quando fui jogar para a Oliveirense, a primeira equipa em que joguei, não chamei raparigas para irem jogar para lá, eu só queria jogar com homens. Quando comecei a ser maior é que me disseram que não podia. A minha paixão era jogar com os homens. Sempre. 

Por ser mais físico? 
Porque há mais adrenalina. Gosto disso, não gosto que seja parado, gosto que seja mais intenso. 

É a primeira vez que jogas no Cucujães? 
Não é a primeira vez. Não estive um ano completo, lesionei-me num jogo, chamaram a ambulância. A partir daí, não vim mais jogar. Este ano, vim para o Cucujães. Antes de vir, perguntei se a equipa técnica era a mesma, se a presidência era a mesma, se fosse, não vinha. Mudou tudo. Se mudou, vou arriscar. Não quer dizer que fique aqui, mas por agora vou jogar aqui. 

Como está a correr?
Não está a correr muito bem, temos poucas jogadoras. A maior parte está lesionada. Estive lesionada e, mesmo assim, fui jogar. Temos de nos adaptar a tudo. 
A equipa é nova, a maior parte das jogadoras vieram do futsal, nem todas jogavam futebol. É uma dinâmica diferente para essas jogadoras, espero que aproveitem bem. 

Dentro de campo, como és? Só vês baliza?
Não, não vejo só baliza. Não sou egoísta, tento sempre jogar com a equipa. A nível de pé, sou a que tem mais força na equipa. Livres, sou eu que bato. Cantos, sou eu que bato, de um lado e do outro. Não temos jogadoras ainda com força de pé. 

A nível de pé, sou a que tem mais força na equipa. Livres, sou eu que bato. Cantos, sou eu que bato, de um lado e do outro

Saraiva

Como lidas com o jogo? Como lidas com uma derrota? 
Não gosto de perder. Tive um treinador no Cesar que dizia: até ao pescoço é canela. Não gosto de perder por nada. Não lido muito bem com o facto de perder. Temos perdido jogos, mas também tenho de perceber que estamos numa equipa nova, temos a maior parte das jogadoras lesionadas. O míster está a jogar com o que tem, não pode fazer milagres se não tem jogadoras. 
Mas eu e o perder não somos muito favoráveis. E eu, que sou sportinguista, não gosto de perder nem a feijões. Fui ver um jogo de Portugal a Lisboa e estava a roer as unhas de raiva. Quando estou no banco, é pior, estou sempre a roer as unhas. Vibro muito com o futebol. Há dois anos, deixei de jogar por causa de uma lesão. 

Lesão grave?
Tive uma lesão no joelho, estive dois anos parada. 

E os clubes pequenos terão menos condições para o acompanhamento físico…
Temos acompanhamento físico, sim, temos massagista, temos tudo. Só que acho que o clube devia valorizar mais o feminino. Não há massagista para o feminino. Neste caso, temos um massagista que é dos juniores. E há dois massagistas nos seniores, dois acho desnecessário aqui, neste clube. Joguei no Cesar, joguei na Ovarense, e o massagista é para todos, não é só para os seniores ou para os juniores. Desvalorizam muito as equipas mais pequenas e não é de agora. E acho que não vai mudar enquanto isto não levar um rumo diferente. 

Saraiva, Cucujães

Como vês a evolução do futebol feminino em Portugal, está a ser valorizado? 
Nem todos os clubes valorizam o futebol feminino. Joguei na Ovarense, joguei muito tempo no Cesar, e vejo que o futebol feminino não é valorizado em todos os clubes, apesar deste ano ter muito mais equipas, inscreveram-se muito mais equipas. A nível da 1.ª Liga, acho que estão muito bem classificadas, o Sporting, o Benfica, estão a valorizar muito o futebol feminino, não só a valorizar os rapazes. Devia ser parte a parte porque as mulheres vão lá chegar e não as valorizaram enquanto não chegarem lá. 

Devemos ouvir a bancada. Não devemos reagir ao que dizem, mas devemos ouvir

A tua família sempre te apoiou no futebol?
Sempre me apoiou, sempre. 

Vêm ver os jogos?
Vêm ver os jogos, sempre me apoiaram. Se tiverem de criticar, eu ouço as críticas. Nem tudo é bom, mas também nem tudo é mau. Temos de ouvir as duas partes. Eu posso estar a jogar mal, o treinador estar a ver isso, mas acho que também devemos ouvir a bancada. Não devemos reagir, mas devemos ouvir a bancada porque os adeptos estão a ver de fora. O míster está a ver de dentro, eles a ver de fora. É como em todos os jogos: o treinador é criticado, não pelos jogadores, é pelos de fora. Acho que é assim que devemos lidar com o futebol. 

Ou seja, devem ouvir a bancada? 
Devemos ouvir. Não devemos reagir ao que dizem, mas devemos ouvir. Eles estão a ver de fora. Uma coisa é nós estarmos a viver o jogo, porque estamos naquela indução de que queremos ganhar, queremos fazer melhor, fazer o que o míster manda, mas devemos ouvir também quem está a ver o jogo de fora.

Como lidas com a crítica? 
Tento lidar bem porque nem tudo é mau no futebol. Sou criticada, posso ser criticada ao máximo, já fui criticada muitas vezes, e lido bem com isso. Sou criticada, mas depois marcas golo e já vais ser aplaudida. 

A crítica faz parte? 
A crítica faz parte do jogo. 

Saraiva, o que é, para ti, um bom jogo? 
Um bom jogo é termos uma tática diferente e vermos o jogo sempre como um jogo que vamos ganhar. Devemos levantar a cabeça, não é porque estamos a perder que vamos baixá-la, e esforçarmo-nos.