Serginho, Tirsense: “Quando o treino, às vezes, não é tão intenso, reclamam. É isso que valorizo nelas”

Serginho é o treinador da equipa do Tirsense, na 2.ª Divisão. É calmo, é nervoso, é exigente. Acredita que o trabalho dá frutos e que o compromisso é fundamental. E faz vários reparos à forma como o campeonato está dividido. Na 2.ª, comenta, os moldes são duros.

Serginho, Tirsense
Fotos: Maria João Gala/Magriça

Tem assistido ao crescimento do futebol feminino, acredita que há talento em Portugal, assumiu a equipa do Tirsense e, nessa época, subiu da 3.ª para a 2.ª. Defende que a 1.ª e a 2.ª divisões deviam ser profissionais até porque as condições são bastante desiguais. Tem consciência de que joga numa divisão muito competitiva que já cheira à 1.ª. E faz várias observações sobre o assunto. 

Serginho não abranda o ritmo, tem um grupo coeso e dedicado que quer intensidade. Muitas das suas jogadoras treinam depois de oito horas de trabalho. São amadoras e comportam-se como profissionais, garante, e está muito orgulhoso dessa postura. Continua na luta pela manutenção, a dar tudo o que está ao seu alcance para, no fim, saber que a equipa deu o máximo, o seu melhor. Como treinador que é, quer sempre mais, sempre mais.  

Abraçou este projeto na equipa feminina do Tirsense. Nunca se arrependeu? 
Não. No primeiro ano, foi logo um ano de sucesso, conseguimos uma subida de divisão, da 3.ª para a 2.ª, com um grupo de atletas onde muitas eram amigas e nem tinham tido grande formação do que era o futebol 11, vinham do futsal. Uma trazia outra, outra trazia outra. O projeto tinha nascido cerca de dois anos antes da minha entrada, foi continuar o trabalho, acreditar e conseguimos esse feito.

A equipa está agora na fase de manutenção. A 2.ª Divisão está bastante puxada? 
Sim. Felizmente, o futebol feminino teve um crescimento brutal. E, neste momento, a 2.ª Divisão é uma 2.ª Divisão já a cheirar a 1.ª Divisão, de equipas muito fortes, com orçamentos enormes. Competimos com equipas que recentemente estiveram na 1.ª Divisão, nós nunca estivemos nesse patamar. Vimos de baixo, o nosso trabalho tem sido, ano após ano, crescimento, valorização de atletas que, muitas vezes, não são felizes noutros clubes com maiores orçamentos. A gente acolhe aqui as atletas, tenta proporcionar um bom ambiente, sabendo que não temos tantas condições como esses clubes, mas temos outras coisas. E, felizmente, há atletas que têm sido valorizadas e depois vão para clubes melhores. Outras que até saem e depois voltam porque não foram felizes. O nosso trajeto tem sido esse.

Tem um grupo coeso? 
Sim, temos. Felizmente, podemos dizer que sim. Sabemos que o futebol feminino não é fácil. A forma de lidar com o futebol feminino para o masculino é diferente, é preciso mais sensibilidade, a própria natureza das mulheres também assim o exige. 
Nesse sentido, temos de encontrar o nosso equilíbrio e tentar que o grupo se ligue porque isto é um processo, são ligações. Hoje, o futebol é muito isso, são emoções, e se não tivermos um grupo forte, unido, coeso, as coisas não acontecem. É mesmo assim.

E estão reunidas as condições para se manterem na 2ª Divisão e não descerem? 
Sabemos que os moldes definidos para a 2.ª Divisão são um bocado duros.

Por descerem muitas equipas? 
Oito equipas, descem cinco diretas, duas ficam, as duas primeiras, e depois a terceira vai ao play-off com o segundo melhor da 3.ª Divisão, play-off que já, por si, não é nada fácil porque as equipas que vêm de baixo vêm com dinâmica de vitória e também querem uma subida à 2.ª Divisão. Por isso, é difícil, ainda para mais sabendo que temos a competir, no nosso campeonato, um Braga B, um Sporting B. Só a olhar para aí já sabemos que vai ser muito difícil. Mas é o caminho.  
No ano passado, tivemos a felicidade de ficar em 1.º no campeonato da manutenção. Sabemos que, este ano, as dificuldades vão ser muito maiores, mas, se calhar, também estamos mais preparados do que estávamos no ano passado. Sabemos que a exigência também é maior. 
Temos de chegar ao final do campeonato e, aconteça o que acontecer, termos o sentimento de que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Trabalhámos, lutámos, demos o máximo, o nosso melhor. E se, porventura, as coisas não acontecerem para o nosso lado, sairmos com a realização pessoal de que fizemos o nosso melhor. 

Às vezes, exijo demasiado delas, sabendo que vêm de 8 horas de trabalho, algumas até mais. Elas já fazem quilómetros após o trabalho, chegam aqui, muitas vezes, fatigadas.

Serginho

É um treinador exigente? 
Sim.

Calmo, nervoso? 
Tenho as duas facetas. Há momentos em que, como não somos profissionais, na nossa divisão já há clubes quase profissionais, esqueço um pouco disso. Às vezes, exijo demasiado delas, sabendo que vêm de 8 horas de trabalho, algumas até mais, vêm de Braga, do Porto, de Caminha, de Ponte de Lima, de Guimarães. Elas já fazem quilómetros após o trabalho, chegam aqui, muitas vezes, fatigadas. Depois sabem que têm de treinar, têm de competir, porque pelo volume de treino que temos, temos de exigir, não podemos abrandar.

Serginho, Tirsense

Não abranda o ritmo? 
Não, não se pode abrandar. 

Como é o seu método de treino? 
Temos 3 treinos. O primeiro treino para as que jogam mais devia ser um trabalho mais de recuperação e pouco treino, fazer a gestão daquilo que foi o jogo anterior. Mas, como só temos 3 treinos, temos já de introduzir uma recuperação ativa, que é reduzir o volume às que jogaram mais, as outras acelerarem mais e terem um trabalho mais intenso e, depois, na parte final, já encaixar todas. 

É uma gestão complexa? 
É, muito. É uma gestão complexa. 

O que é que valoriza numa jogadora? 
Há meia dúzia de anos, já existia o futebol feminino, já existia a 1.ª Divisão, como é óbvio, mas esta transformação radical que houve na jogadora em si, e eu já passei pelo masculino, homem e jovens, vejo que elas são muito profissionais. Elas querem competir, exigem, exigem, quando o treino, às vezes, não é tão intenso, reclamam. É isso que valorizo nelas. 

Compromisso? 
Compromisso. Não sendo profissionais, elas comportam-se como profissionais, como há profissionais que se comportam como amadoras. Aqui, felizmente, eu estou orgulhoso nesse sentido. Agora um treinador nunca está satisfeito, quer sempre mais, quer sempre mais.

A Federação devia ter mais sensibilidade e perceber que se quer realmente que o futebol feminino chegue mais à frente, não pode ter campeonatos com 10 equipas, nem pode ter uma 2.ª Divisão desta forma.

A profissionalização deveria ter começado mais cedo?
Vemos a nossa seleção que tem dado passos, aos poucos, para tentar ombrear com as melhores equipas da Europa e do mundo. Mas a forma como está distribuído o campeonato… A 1.ª Divisão só tem 10 equipas. 

É pouco? 
É muito pouco. Como é que as jogadoras vão poder competir com as maiores potências? O andamento e a intensidade vão ser muito menores porque o volume de jogos vai ser muito menor. A 2.ª Divisão é igual. A 1.ª e a 2.ª divisões, para mim, tinham de ser profissionais, há viagens norte-sul, trabalhos, gastos. Nós, por exemplo, nesta fase, quando formos ao Guia, a Faro, vamos ter de sair no dia anterior, as jogadoras vêm a correr do trabalho. No ano passado, foi assim, reunimos, a concentração foi às duas da tarde, arrancámos lá para baixo, chegámos à noite, jantámos, quarto, descanso que é para competir.
Acho que a Federação devia ter um bocado mais de sensibilidade e perceber que se quer realmente que o futebol feminino chegue mais à frente, não pode ter campeonatos com 10 equipas, nem pode ter uma 2.ª Divisão desta forma, 8 equipas a competir, a 14 jornadas, e descerem 5. Isto é matar o futebol. E é quase inglório, acaba por ser inglório para as equipas.
Ganhámos o jogo contra o Estoril, pelo menos entrámos bem, e nem tivemos tempo de saborear essa vitória, já estávamos a pensar no que vem para a frente, no próximo jogo. E vai ser sempre assim, é muito violento da forma como está distribuído, devia ser diferente. Deviam alargar 1.ª Divisão, a 2.ª também, já há uma 3.ª, uma 4.ª, daqui a pouco haverá uma 5.ª. E essas mais baixas, se calhar, são para as jogadoras que não se querem profissionalizar, para quem o futebol não é uma profissão. Mas aquelas que querem e ainda sonham deviam ser profissionais, ou mesmo semiprofissionais. 

Serginho, Tirsense

Há talento em Portugal? 
Há muito talento. Aliás, somos um país muito pequeno em relação à maior parte dos países a nível mundial e a nível europeu, e o que vamos reparando é que Portugal vai chegando a finais de campeonatos do mundo, os Sub-17 ganharam o campeonato do mundo, e no futebol feminino também já começa, a seleção de futsal, por exemplo, chegou a uma final. 
Há talento e o talento vai-se trabalhando aqui, em Portugal. Felizmente, também a nível de formação de treinadores, acho que estamos um passo à frente dos outros países, por isso é que estamos distribuídos por todo o mundo. O talento existe, vai existir cada vez mais, está a ser bem trabalhado, penso que são precisas mais condições, mais campos. Há muitas equipas que treinam em metade do campo porque não há campos suficientes para tantas equipas em Portugal. E no futebol feminino, no futebol de formação, vai haver mais equipas, tem de haver melhores condições. 

Míster, o que é, para si, um bom jogo? 
Um bom jogo, para mim, é quando as equipas vão para dentro do campo com um sentimento único: proporcionar um bom jogo de futebol, não só para quem vai competir para os três pontos, mas também para as pessoas que estão fora a apoiar-nos e merecem um bom espetáculo de futebol. 
É levarem para dentro do campo o que trabalham à semana, no sentido de ganharem, vencerem e competirem, respeitando sempre o adversário, sabendo que as duas equipas não podem vencer, só pode vencer uma. Basicamente é isso.