Começou a jogar futebol quando tinha 16 anos, tem agora 27. Foi team manager e não foi capaz de dizer que não ao convite para voltar a entrar em campo, o que lhe deu uma perspetiva mais alargada, de um lado e do outro. É a jogadora com mais anos no clube. Confessa que o Amora não é só mais um clube, é o Amora. É essa a mensagem que passa às novas jogadoras que ali chegam. Tae gosta de sentir o jogo e de jogar para a equipa.
Na época que passou, jogou na defesa. Na sua opinião, uma boa defesa é uma defesa estruturada, coesa, inteligente, sempre pronta a ajudar. Vê o futebol feminino crescer em Portugal de uma forma pensada, mas considera que ainda há passos a dar, nomeadamente a nível salarial, olha-se para o teto e não se olha para a base. Tae joga e é administrativa num stand de automóveis.
És a jogadora com mais anos de clube, quase 10, conheces a mística e o modo de trabalhar do Amora. Isso é uma vantagem em campo?
Diria que sim. Não sei se será uma vantagem em campo, mas claramente é uma vantagem para as jogadoras novas que vêm. Mostra um bocadinho aquilo que eu sinto pelo clube, às vezes até demais. Tento passar a mensagem de que não é só mais um clube que elas vieram representar, é o Amora.
E o que é que o Amora tem?
Para mim, tem tudo porque foi o clube que me deu mais oportunidades. Joguei na Liga BPI, com o Amora. Já tive imensos treinadores, alguns estão no estrangeiro, outros estão em equipas de topo da Liga BPI. Já tive colegas que também estão no estrangeiro, que já representaram a seleção. Portanto, para mim, o Amora é tudo no futebol porque foi o clube que me deu a oportunidade de vivenciar um bocadinho de tudo, desde subidas de divisão, descidas de divisão.
Foste team manager e agora jogadora. De que forma ter sido team manager te ajuda a ser jogadora e vice-versa?
Por sentir muito o clube, queria perceber o que é o outro lado e fui para team manager. Como jogadora, nós exigimos muito da estrutura e eu queria entender o que é que a estrutura poderia fazer em relação às exigências da jogadora, o que é que era possível. Muitas vezes, fazia perguntas que vinham sem resposta. E agora, estando do outro lado, percebo também a outra parte. Se calhar, a exigência não deixa de ser exigência, mas passei a entender o lado do clube e não só da jogadora.
Pelas circunstâncias do Amora, foi-me pedido, perguntado, se não me importava de voltar para ajudar. Pelos anos que tenho no clube, e pelo sentimento que tenho, nunca iria dizer que não.
Jogas à defesa. Como és dentro de campo?
Sou uma jogadora de equipa. Se estiver a fazer um mau jogo, mas a minha equipa estiver bem, para mim está tudo bem. Não tenho problema nenhum. Gosto de jogar em prol da minha equipa. Defendo a minha equipa e qualquer jogadora sempre que acontece qualquer coisa. Sou muito exigente também com elas.
Por vezes, vivo demasiado o jogo e acabo por gritar um pouco, nunca mandando abaixo, isso para mim não existe no futebol, mas tentando sempre puxar pelas minhas colegas. E sou muito exigente com a equipa da arbitragem.
A exigência não deixa de ser exigência, mas passei a entender o lado do clube e não só da jogadora”
Tae, Amora
O que é que te irrita dentro de campo, além dos árbitros?
Sim, sou um bocadinho exigente com eles porque não gosto de injustiças. E quando começo a sentir que, por vezes, a equipa de arbitragem pode estar a ser um bocadinho injusta com a minha equipa, posso ser um bocadinho irritante, diria.
Nas minhas colegas, não me irrita nada porque para mim está tudo bem, mesmo que cheguem à frente da baliza e falhem. Fico chateada porque falharam, obviamente, mas fico feliz porque tentaram e porque estamos mais perto de chegar lá. Em jogo jogado com a minha equipa não me irrita muita coisa, fico chateada porque, às vezes, eu falho alguma coisa, alguma colega falha alguma coisa, mas não ao ponto de me irritar.
O que é, para ti, uma boa defesa?
Uma defesa estruturada. Não precisamos ter, falo por mim, a defesa mais alta porque sou das jogadoras mais pequenas da equipa. Acho que precisamos ter pessoas inteligentes, que saibam liderar, pessoas prontas para ajudar a colega, porque se a colega falha nós somos a última linha, a seguir vem a guarda-redes. Uma boa defesa é uma defesa coesa, inteligente, e que esteja pronta para ajudar no que for preciso.

Numa derrota, consegues fechar a porta e seguir em frente ou fica ali a moer?
Fica a moer. E se for uma derrota em que sei que poderíamos fazer muito mais, ainda pior. Se for uma derrota em que tentámos tudo, demos tudo, fico chateada porque é uma derrota, mas temos de avançar porque efetivamente demos tudo, mas o adversário foi superior. Quando corre mal, fica ali a moer um bocadinho.
Numa vitória, há uma grande festa no balneário?
Sim, mas também viro a página rapidamente porque é uma vitória e no jogo a seguir já precisamos, outra vez, dos três pontos. A derrota é um bocadinho mais pesada para mim.
Jogas e trabalhas. É difícil conciliar tudo?
Sim, diria que sim e diria que não porque tenho a sorte dos meus patrões, da minha entidade patronal, serem pessoas que são 100% a favor do desporto e sempre me disseram que se precisasse de alguma coisa para sair mais cedo, o que fosse, nunca se iriam opor. Quando lhes disse, no ano passado, que iria deixar de jogar para ser team manager, até ficaram um bocadinho desiludidos e disseram: vais deixar de jogar, não pode ser, tens de continuar. Tentam sempre apoiar nisso, portanto. Por um lado, é difícil porque venho cansada, por outro lado, é fácil porque eles também facilitam isso.
“Em muitas equipas, as jogadoras recebiam 20 euros ou uma sande no final do jogo e já estavam a impor um limite do valor que tinham de gastar
Tae, Amora
O futebol feminino tem crescido de uma forma sustentada, robusta e pensada em Portugal?
Tem crescido de uma forma pensada. Acho que exigimos coisas que, se calhar, ainda não estamos nesse patamar porque temos muito menos anos de formação do que futebol masculino, mas dada a altura em que estamos, merecemos esse tipo de exigências e esse tipo de pedidos que fazemos.
Acho que temos evoluído bem estruturalmente, estamos um bocadinho melhor porque começámos, se calhar, pelo teto em vez de pela base, em muitos sentidos. Seja a criar um teto salarial, em vez de criar uma base. Em muitas equipas, as jogadoras recebiam 20 euros ou uma sande no final do jogo e já estavam a impor um limite do valor que tinham de gastar. Percebo, para não criar, se calhar, uma diferença tão grande entre as equipas que estão em cima e as equipas que estão em baixo, mas ao mesmo tempo era importante existir uma base. Na altura em que estive na 1.ª Divisão recebíamos muito pouco e depois jogávamos contra equipas profissionais como o Benfica, o Sporting, que recebiam imenso. Foi imposto um teto salarial, mas não foi imposta uma base, ou seja, não havia um mínimo possível que fosse. Se pagassem zero, pagavam zero. Não existia esse problema. E, portanto, às vezes cometemos alguns erros, mas acho que estamos a conseguir corrigir isso a tempo e a criar uma base boa para que o futebol feminino mereça estar onde tem de estar.
E tem sido reconhecido? A seleção pode estar no Mundial…
Sim, temos jogadoras a jogar nas melhores equipas do mundo, temos portuguesas espalhadas por todo o lado e isso ajuda também a espalhar um bocadinho o que é o futebol português.
O desenho das competições, com a 1.ª Divisão com 10 equipas e com várias a descer nas divisões mais abaixo, aumenta ou retira competitividade?
Acho que tem as duas vertentes. Pode aumentar a competitividade, mas acaba um bocadinho com estes clubes considerados mais pequeninos. Porque são clubes que não vão ter estrutura suficiente para conseguir aguentar uma 2.ª Divisão, que está cada vez mais profissional e uma 1.ª Divisão que vai chegar a um ponto em que vai ser 100% profissional, já está nesse patamar. E os clubes que não têm tanta história, principalmente no futebol masculino, podem descer dos patamares mais altos e acabarem por estar a competir em 3.ª e 4.ª divisões só pelo competir. O que, por um lado, é bom. É bom porque precisamos disto para que a mulher também seja visível no desporto, principalmente no futebol.
Portanto, acredito que há o lado bom e o lado mau. O lado bom porque são clubes obviamente muito profissionais, clubes que têm equipas masculinas na 1.ª Liga, que têm mais nome e que vão chamar mais jogadores para a 1.ª Divisão. E os clubes mais pequeninos, se calhar, vão acabar por ficar um bocadinho mais restringidos. Mas acho que se tiverem as pessoas certas à frente, os clubes considerados mais pequeninos no futebol masculino, se calhar, vão ser vistos como muito grandes no futebol feminino. E a equipa feminina vai acabar por passar à frente da equipa masculina.
Foi uma boa ideia a criação de uma 4.ª Divisão de acesso livre?
Acho que sim porque dá oportunidade a outras jogadoras que querem continuar a jogar e não têm tanta disponibilidade ou formação, que começaram a jogar mais tarde. Toda a gente tem esse direito de jogar, seja mais profissional ou menos profissional. Portanto, acho que uma 4.ª Divisão é sempre uma ótima ideia.
Acreditas que é possível o Amora voltar ao primeiro escalão?
Sim, sem dúvida. Na minha cabeça não passa sequer outra coisa. O Amora, para mim, tem de estar na 1.ª Divisão. Tem de ter as pessoas certas à frente para que isso aconteça. E a equipa certa também.
Tens algum sonho no futebol?
No futebol, o meu sonho é coletivo. Quero que o Amora volte para a 1.ª Divisão. Individual, já não. Sou uma jogadora com os pés na terra.



