Tens asma e jogas futebol? Nem tudo é bom, nem tudo é mau 

Jogar futebol traz benefícios a quem tem asma porque melhora a função e a capacidade pulmonar e cardiorrespiratória. Mas há cuidados a ter: aquecimentos adequados antes dos treinos e dos jogos, controlar bem a respiração. A intensidade é a chave que determina os limites.

Asma, Futebol

Comecemos pelo início. O que é a asma? É uma doença de obstrução dos bronquíolos (vias aéreas periféricas), que passa por um processo de inflamação dos brônquios, levando a um aperto que dificulta a receção do ar aos pulmões. Os brônquios ficam muito reativos, principalmente por causa das mudanças de temperatura. Se com o passar do tempo a asma não for tratada, entra-se então numa fase da doença considerada perigosa porque os brônquios podem cicatrizar de forma anómala e a situação pode não ser revertida.

Tiago Esteves, fisiologista do exercício da Clínica Espregueira, explica o que esta condição implica. “O diagnóstico da asma é determinado pelo histórico de sintomas respiratórios, tais como pieira, falta de ar, angina de peito e tosse, que varia ao longo dos anos, juntamente com limitações variáveis do fluxo aéreo expiratório.” É uma doença influenciada por diversos fatores, como a própria genética, exposição ambiental, fatores hormonais, sexo e género. Cerca de 10% da população portuguesa tem asma, é considerada a doença respiratória crónica com maior prevalência na idade pediátrica – 75% das asmas surgem na infância. 

Enquadramento feito, a pergunta que se impõe. Que tipo de complicações e constrangimentos a asma provoca a uma jogadora de futebol? Desde logo, há vários sintomas: tosse, chiadeira, falta de ar, opressão torácica, fadiga, dor ou ardor na garganta, dores de cabeça e no abdominal. “Habitualmente não existe a presença de sintomas durante a prática desportiva. Geralmente os sintomas ocorrem 5–30 minutos após o término do exercício e têm melhoria espontânea gradual”, refere o fisiologista. Mas há um dado bastante importante. “Além disso, a asma pode diminuir a performance durante os jogos e pode afetar a autoestima e autoconfiança da atleta por não conseguir produzir os melhores resultados”, acrescenta o especialista. 

A asma pode diminuir a performance durante os jogos e pode afetar a autoestima e autoconfiança da atleta por não conseguir produzir os melhores resultados.

Tiago Esteves, fisiologista do exercício 

Há, portanto, cuidados a ter para quem joga futebol. Até porque o exercício físico é um dos fatores que provoca hiper reatividade brônquica nos doentes asmáticos. Ou seja, as vias aéreas estreitam e isso ocorre de forma mais frequente em atletas do que em não atletas. “O aumento da reatividade brônquica e a asma estão fortemente associados a doenças atópicas e ao seu agravamento em atletas de elite.”

Há, aliás, uma condição que se chama asma induzida pelo exercício, isto é, tal como o próprio nome indica, uma crise de asma que surge com a atividade do corpo, nomeadamente em intensidades muito altas. “Cerca de 90% das pessoas com asma podem ter sintomas com a prática de exercício físico. Em crianças e adolescentes, os sintomas, apenas com o exercício físico, podem ser as primeiras e únicas manifestações de asma”, adianta Tiago Esteves.  

Uma jogadora de futebol asmática deve ter vários cuidados. Ter consigo e sempre ao alcance medicação preventiva, obedecer à prescrição feita, evitar ambientes que possam dar início à crise, ser acompanhada de forma regular pelo médico e pelo treinador. Fazer aquecimentos adequados antes dos treinos e dos jogos, manter um bom controlo da respiração, evitar realizar exercício físico quando a doença está descontrolada. Quando fizer sentido, utilizar proteções em condições ambientais adversas, como cachecóis e golas de pescoço. 

Uma atleta asmática pode correr e sprintar em altas intensidades, se a doença se encontrar controlada e tiver os cuidados assegurados.

Tiago Esteves

A utilização de bomba antes dos treinos e dos jogos não é obrigatória para todas, mas pode ser recomendada de forma a prevenir e diminuir eventos relacionados com a asma induzida pelo exercício. Uma jogadora de futebol pode fazer todos os exercícios, mas com o devido controlo da asma e tendo em conta a intensidade aplicada no exercício. “A intensidade que uma atleta ou uma não atleta asmática aplica é a chave para determinar os seus limites no exercício físico. Uma atleta asmática pode correr e sprintar em altas intensidades, se a doença se encontrar controlada e tiver os cuidados assegurados.” As restrições variam de jogadora para jogadora e têm como base o estilo de atividade que pratica, a intensidade exercida, o meio ambiente. É sempre preciso ter atenção às mudanças de temperatura. 

A capacidade pulmonar e respiratória também é importante. “Com um bom controlo da asma e com o treino adequado, o paciente asmático pode e deve praticar a sua atividade desportiva preferida, ao mesmo nível de um indivíduo não asmático, inclusive a nível competitivo e olímpico”, garante o fisiologista do exercício.

Há boas notícias, portanto. Tiago Esteves explica que jogar futebol proporciona diversos benefícios a quem tem asma, pois melhora a função e a capacidade pulmonar e cardiorrespiratória, aumenta a tolerância ao exercício, melhora a confiança e a capacidade de participação em atividades em equipa e diminui a gravidade da asma. Além disso, aumenta a qualidade de vida das atletas e diminui e previne a ocorrência de eventos adversos relacionados com a doença, proporcionando um melhor controlo.