Tixa, treinadora do Amora: “Evito ser como aqueles treinadores que jogam Playstation”

Tixa Azevedo é treinadora da equipa do Amora. Aprecia jogadoras motivadas, que se superam, que saem da sua zona de conforto, que se interessam pelo jogo. Os seus treinos nunca são fechados, faz os devidos ajustes, gosta de perceber o momento de quem joga. Um bom treino é quando sente que todas deram tudo e que querem mais no dia seguinte.

Tixa, Amora
Fotos: Maria João Gala/Magriça

Assumiu a equipa do Amora, na 2.ª Divisão, no início de março. Viu muita qualidade, muita capacidade, muita vontade. Um grupo com jogadoras motivadas, que não dizem não, que não fazem cara feia, que querem mais e mais, que calçam as chuteiras com gosto de treinar e jogar. Considera que há muito talento na jogadora portuguesa, que é uma jogadora que entende o jogo.

Tixa Azevedo prepara os treinos, pensa nos jogos, não tem um comando para dar instruções a régua e esquadro, do tipo chuta, passa, remata, corre, vai e faz. O importante é ter confiança no trabalho que é feito durante a semana, no que aprenderam, no que levam para o campo. O formato dos campeonatos merece-lhe alguns reparos. Na sua opinião, hipotecam-se sonhos e investimentos e a gestão de expetativas torna-se complicada. “Porque é que nós temos de fazer uma Liga BPI a 10 equipas?”, questiona. 

Que qualidades mais aprecias numa jogadora? 
Principalmente uma jogadora que se mantenha motivada, que consiga se desafiar todos os dias, que saia da zona de conforto, que não se contente com o ok, já cheguei aqui, já sei fazer isto, que procure sempre mais. Uma jogadora que procure melhorar não só durante os treinos, mas no treino fora do treino, nos cuidados com a sua saúde, controlo do peso, tudo o que são questões físicas. Uma jogadora que se interesse pelo jogo, e no futebol feminino é mais fácil encontrar alguém que queira perceber o jogo, não só jogar por jogar. Acima de tudo, uma jogadora que consiga manter-se motivada, para quem ainda faça sentido calçar as chuteiras, vir treinar e jogar.

Há talento na jogadora portuguesa?
Há muito talento e cada vez mais conseguimos encontrar isso. Tenho a felicidade de já ter tido experiências na formação, e ainda estar a acompanhar uma equipa de formação, e há muito talento, muito talento. Já trabalhei com o masculino e posso dizer que de um ao outro o talento existe da mesma forma. A diferença está na perspetiva futura, naquilo que pensam que podem investir, os limites para o masculino e para o feminino estão ainda em zonas diferentes, porque o talento existe. 
A jogadora portuguesa é uma jogadora que entende o jogo, que procura mais do que só a técnica, a parte tática que é importante. Não é uma jogadora fisicamente forte, mas compensa na técnica e na perceção do jogo. 

Como treinadora, o que privilegias no treino? Técnica, tática?
Depende porque todos os grupos são diferentes. Há grupos que precisam de mais técnica, há grupos que precisam de mais tática. Há alturas na época que precisamos dar um ajuste à técnica individual, há outros momentos em que precisamos trabalhar a técnica coletiva, a tática. Ou seja, nunca é fechado porque temos de perceber qual é o momento da equipa, qual é o momento da jogadora e do grupo em si. 

Trazes as coisas preparadas?
Claro, sempre, é sempre pensado. 

No papel, na cabeça?
Na cabeça, há sempre muita coisa a acontecer. Fazer este exercício, aplicar isto ou aquilo, depois tem de se passar para o papel até porque tenho uma equipa técnica. Ter uma ideia só na cabeça não me serve para nada porque eles precisam de saber o que vai acontecer. E passar para o papel acaba por alinhar alguns pormenores que na cabeça, às vezes, podem estar meio perdidos. E no papel fica tudo mais certinho. 

E o que é um bom treino? Aquele treino em que sais e dizes isto hoje correu mesmo bem? 
Um bom treino, para já, é um treino em que eu e as jogadoras consigamos sair sem haver a frustração de que as coisas não correram bem. A frustração é algo que existe no futebol, principalmente no feminino, nós mulheres ficamos a pensar e a remoer nas coisas. É sentir que os objetivos foram cumpridos, sentir que todas deram tudo e que querem mais no dia a seguir. 

Ter jogadoras que estão com a cabeça limpa, motivadas e com vontade é fulcral para se conseguir fazer um bom trabalho.

Tixa, Amora

A parte mental é importante. Tentas ter esse aspeto sempre presente e que as jogadoras percebam isso? 
Para além do trabalho que temos aqui no Amora, felizmente temos o apoio de uma psicóloga e já fizemos algumas sessões com ela, só para as jogadoras, jogadoras juntamente com a equipa técnica, algumas individualmente têm também esse acompanhamento. 
Tendo alguns anos de futebol como treinadora, mas principalmente porque também já fui jogadora, e de vez em quando ainda jogo, consigo compreender muita coisa que sei que, às vezes, outros treinadores não entendem. Não por serem melhores ou piores, mas como não vivem essa parte, a perceção é diferente. 
Tenho sempre muito em conta o que as jogadoras estão a sentir, quais as suas perspetivas, o que vem de trás. Por exemplo, o que é que aquela equipa adversária representa para elas, o que é que aquele momento do mês representa para elas. Claro que é impossível controlar tudo, mas ter uma pequena atenção perante aquilo que nos é possível ajudar, para mim, é importante. Ter jogadoras que estão com a cabeça limpa, motivadas e com vontade é fulcral para se conseguir fazer um bom trabalho. 

E a palestra sai-te no dia, no momento, ou estruturas o discurso para dizer na altura? 
Normalmente, sai no momento. Por muito que inicialmente tenha as ideias, quando chego ao balneário, lá está, temos de sentir. Tenho de sentir qual é o ambiente, o que é que se passa. Há uma preparação, claro, mas o que sai no momento vai ser sempre mais puro e vai entrar mais facilmente na cabeça delas. 

É uma coisa mais emocional ou mais objetiva? 
Tento não demorar muito tempo. No balneário, temos jogadoras mais emocionais, menos emocionais, se vamos ser muito emocionais, perdemos metade. Mas temos de pôr alguma coisa senão, às vezes, não conseguimos ativar todas. Tem de ser um misto. Depois se sei que há aquela jogadora que precisa daquele toquezinho mais pessoal, mais emocional, aí vou e falo com ela, pequenos pormenores assim. Outras não ligam nenhuma, só querem fones nos ouvidos e siga a banda, é deixá-las estar porque o momento é delas e não são todas iguais. 

É respeitar o espaço de cada uma. 
Exatamente. 

Em dia de jogo, sentadinha no banco ou sempre em pé a dar orientações para o campo?
A minha maior experiência é como treinadora-adjunta, portanto, tenho de saber estar sentada. No entanto, como treinadora principal, não me sento, estou de pé, mas também evito ser como aqueles treinadores que jogam Playstation. Não tenho um comando para lhes dar as indicações todas: chuta, passa, remata, corre, vai e faz. 
Tenho de estar confiante naquilo que já aprenderam porque o meu trabalho é feito durante a semana. Se eu fizer as coisas bem durante a semana, no fim de semana, temos de falar, temos de gritar, temos de dar as indicações, elas não podem estar sem um timoneiro, não se podem sentir perdidas, mas também não as podemos prender. Não temos um chicote e uma régua para: olha é para estar x metros daquela jogadora, o passe deveria ter saído no segundo 35 e não ao segundo 36. 

Esta equipa tem muito valor. (…) Elas não dizem um não, elas não fazem cara feia, elas aceitam o treino, elas querem mais, mais, mais e mais.

A experiência no Amora está a ser gratificante? 
Está a ser uma experiência, acima de tudo, muito desafiante porque o Amora é um clube com muitas condições. É um clube que para o futebol feminino é um nome a considerar. Já passou por aqui muita jogadora e muito treinador com muita qualidade. Infelizmente, a situação não é a melhor neste momento, temos essa noção, as coisas não correram da maneira que estávamos à espera. Mas o Amora continua a ser o Amora, o Amora continua a ter condições brutais, continua a ter muitas jogadoras. 
Eu tenho a felicidade de estar com o escalão mais novo e com o escalão mais velho do Amora. O mais novo é o sub-11, participamos no campeonato de Sub-10 masculino. Ou seja, há muita coisa boa aqui a acontecer. E essas coisas boas que estão a acontecer têm de ser também captadas pela equipa sénior. Esta equipa que está aqui no balneário tem muito valor. As mais velhas, as mais novas, com mais experiência, com diversos tipos de experiência, elas têm muito valor. Acima de tudo, são um grupo com quem que dá vontade de trabalhar. Elas não dizem um não, elas não fazem cara feia, elas aceitam o treino, elas querem mais, mais, mais e mais. Portanto, nesse aspeto tem sido muito revigorante, mesmo sabendo que as coisas não estão fáceis, saber que no dia a seguir vamos tê-las à espera, e a confiar no trabalho que é feito, é positivo. 

Como está a ser aguentar o barco? 
Desafiante, muito desafiante, principalmente porque este ano o campeonato da 2.ª Divisão tem um formato, não só a 2.ª a 3.ª também, que para as equipas que ficaram para a fase de manutenção de descida, acaba por ser um bocado ingrato em 8 descerem 5, tendo em conta que há duas equipas B que têm outra estrutura por trás, ou seja, andámos a lutar por uma vaga no meio de 4 equipas. E não é fácil, não é fácil. 

O futebol feminino está a crescer de uma forma pensada? 
Pensada está a ser, se é bem pensada ou não… Não sou apologista desta Liga BPI com 10 equipas. Não sou apologista que para subir da 4.ª para a 3.ª, suba uma equipa, da 3.ª para a 2ª, uma e meia, digamos assim, e da 2.ª para a Liga BPI idem aspas, enquanto para descer, descem várias. Estamos a hipotecar investimentos, estamos a hipotecar sonhos.  A gestão de expectativas é complicada. 
Um clube que esteja a nascer agora, começar na 4.ª Divisão, olhar e pensar naquilo que tem de fazer, o esforço que tem de fazer para chegar a um patamar superior, comparado com aquilo que um clube tinha de fazer há cinco anos, ok que o desafio tem que de maior, mas terá de ser assim tão grande? As hipóteses fecham-se muito. 
Os campeonatos europeus, os primeiros campeonatos, nenhum é a 10 equipas. Nenhum campeonato feminino e masculino, nenhum campeonato é a 10 equipas. Porque é que nós temos de fazer uma Liga BPI a 10 equipas?