O Rio Tinto é um clube formador, tem desde as Sub-7 à equipa sénior, que conseguiu a manutenção na 2.ª Divisão, depois do play-off alcançado a duas jornadas do fim da época. É um clube que puxa pelas jogadoras com um nível elevado de exigência e de adversidade para trazer à tona as melhores capacidades e competências das suas atletas. É um projeto intenso, não é para todas, é só para algumas. Por isso, as presenças constantes nas convocatórias das seleções nacionais jovens, que são sempre um enorme motivo de orgulho.
Tomás Ferreira chegou ao Rio Tinto há cinco anos. Conhece bem a estrutura, o modo de ser, o modo de estar. Ali, garante, joga-se num contexto de alta competitividade. “É difícil ser uma jogadora a jogar neste projeto por variadíssimas razões, até mesmo treinar não é fácil. Somos exigentes com as nossas atletas”, refere. “O que nós temos é um nível de adversidade muito elevado para oferecer às atletas”, acrescenta. Tomás tem 23 anos e está a acabar a licenciatura de Desporto.
Houve aqui um trabalho de persistência para que a equipa se mantivesse à tona?
Sim. É um campeonato complicado porque a diferença de nível entre as duas melhores equipas, da fase de manutenção, e todas as outras é grande. Ou seja, todas perdem muito poucos pontos. Quando fomos jogar com o Amora, que era o nosso adversário direto, para ficar em quarto lugar, o Amora tinha ganho os jogos todos, estava em primeiro lugar, só não tinha jogado com o Braga, connosco e com o Sporting. E havia aquele sentimento de que se nós perdermos este jogo com o Amora, não vamos recuperar estes pontos nunca mais. Não podíamos perder com ninguém, tínhamos de ganhar os jogos todos, menos ao Sporting e ao Braga. Por isso, nesse momento, saiu-nos um peso.
Como é o vosso método de treino? Muito intenso, muito físico, muito tático?
Todos os nossos treinadores são licenciados, alguns têm mestrado da Faculdade de Desporto. Bebemos muito daquilo que é a visão tática, uma metodologia de treino normal em todos os clubes grandes de futebol, como o Porto, como o Braga. A metodologia é muito semelhante. Dividimos a semana por períodos, um dia de força, um dia de resistência. E depois é tudo com bola.
Temos um preparador físico para a prevenção de lesão. Nos treinos, é sempre tudo com bola, tentar desmontar o jogo em fases e depois uni-las todas no final.

Também valorizam a capacidade mental?
Sim. É difícil ser uma jogadora a jogar neste projeto por variadíssimas razões, até mesmo treinar não é fácil. Somos exigentes com as nossas atletas. A média de idades, neste momento, está nos 18 anos. Ou seja, elas estão num nível que competir com esta idade, no futebol masculino, seria uma coisa completamente impensável. Para já, é possível no futebol feminino e, para isso, é preciso uma força mental e um nível de superação gigantes. E isso começa no treino. Elas têm de ter uma força mental, uma capacidade de superação e uma exigência muito grandes todos os dias porque nós nunca podemos escorregar. Não temos esse espaço para escorregar.
É uma coisa que valorizamos muito até para jogadoras que vêm de fora, jogadoras mais velhas, jogadoras que estão cá só um ano que, muitas vezes, não se conseguem adaptar tão bem, ver essa capacidade mental que, de vez em quando, é mais fraca.
Como é gerir uma equipa tão jovem? Deve ter as suas vantagens e desvantagens…
Gosto de pensar que tem muitas vantagens. Primeiro porque, no fundo, é um projeto de formação. Ou seja, a equipa sénior existe não porque nós gostamos muito de competir na 2.ª Divisão todos os anos, mas sim porque é o melhor sítio para as jogadoras que temos, no grupo de idades que elas têm, terem mais adversidade e continuarem a crescer e a melhorar como jogadoras.
No fundo, somos um projeto de desenvolvimento. Nós queremos que estejam cá no Rio Tinto para se desenvolverem e consigam um dia chegar a ser jogadoras de futebol. E o que o projeto se apercebeu há uns tempos é que a partir do momento que uma jogadora deixa de ser sub-15, sub-16 ou sub-17, competir no campeonato distrital sub-19, competir na 3.ª Divisão, para algumas das nossas atletas não era uma adversidade suficiente para crescerem. Então têm de jogar na 2.ª Divisão.
Tem de haver aqui um equilíbrio entre o desenvolvimento das jogadoras e jogar para ganhar todos os jogos para termos um número de pontos assegurados e continuarmos a manter o nosso nível competitivo.
O Rio Tinto coloca sempre muitas jogadoras nas seleções nacionais jovens.
Acredito que aí é que está o segredo. Nós não temos uma estrutura muito grande, nem grandes condições. O que nós temos é um nível de adversidade muito elevado para oferecer às atletas. Uma atleta que cá tem 15 anos e joga na Liga Feminina Sub-19 na 1.ª Divisão, se fosse para outro clube, jogaria nas Sub-17, Sub-15 Distrital. Nós colocamos as meninas logo no máximo daquilo que é a adversidade que elas conseguem aguentar. Por isso é que elas, com essa adversidade e com esses momentos, crescem mais, conseguem potencializar as suas capacidades e acabam por chegar mais à seleção nacional.
Essas convocatórias devem ser um grande motivo de orgulho.
É o maior motivo de orgulho. Sempre que uma jogadora do Rio Tinto é convocada, é um motivo de orgulho, mais do que ganhar um jogo, mais do que permanecer na 2.ª Divisão Nacional. Este ano, tivemos uma jogadora em todos os escalões da seleção nacional, menos na Sub-23. Isso é um motivo de orgulho gigante para aquilo que é a nossa realidade e o nosso contexto do dia a dia.
Ter jogadoras nas seleções nacionais é um motivo de orgulho gigante para aquilo que é a nossa realidade e o nosso contexto do dia a dia.
Tomás Ferreira, Rio Tinto
O que é que valoriza numa jogadora?
A capacidade de superação, a coragem, o compromisso. São características fundamentais. A capacidade técnica e o entendimento tático são coisas que se podem melhorar, onde elas podem crescer. Mas sem compromisso, coragem, intensidade, superação, não dá para trabalhar.

Treinar raparigas tem sido uma experiência bonita?
Sim. O que, no início, mais me atraiu foi quando conheci o projeto e apercebi-me que elas competiam contra rapazes. Eu nunca tinha pensado nisso. Joguei futebol quando era mais novo, jogava com rapazes. Quando tinha 12 anos, havia uma miúda na minha equipa. Mas uma equipa só de raparigas jogar contra rapazes parecia uma coisa que não era possível. Jogavam contra rapazes e ganhavam aos rapazes.
Depois fui treinador da minha própria equipa, uma equipa de Sub-11, jogávamos contra rapazes e ganhávamos aos rapazes. E essa experiência de ver os meninos a chegar, a virarem-se uns para os outros chateados porque iam jogar contra raparigas, que seca, e depois saíam a chorar porque tinham perdido, era extremamente satisfatória. Era uma coisa muito gratificante. É aquele sentimento que parece que estamos sempre a lutar por alguma coisa, ou seja, parece que, do nosso lado, elas entram e têm sempre algo a provar, o que já não faz sentido, na minha opinião, mas estão sempre a provar alguma coisa. Elas têm de competir no jogo para mostrar que quase merecem estar ali a jogar.
Por isso, ainda há muito caminho a fazer no futebol feminino?
Acho que sim.
A que níveis? Nas condições? Nos apoios?
Primeiro, a perceção. Não sei porque no futebol, ao contrário de outros desportos, entra-se sempre nas comparações com o futebol masculino.
E não faz sentido?
Acho que não. Por exemplo, o voleibol feminino é muito respeitado e ninguém olha para uma boa jogada de voleibol feminino e diz que no voleibol masculino é muito melhor. Isso nem sequer é assunto. Agora qualquer vídeo nas redes sociais de futebol feminino, seja uma boa jogada, seja um erro da guarda-redes, seja um erro da central, seja um pontapé de bicicleta, se formos aos comentários, há sempre alguém a dizer que no futebol masculino não é assim… Isso não é assunto. O futebol feminino é diferente do futebol masculino, ok, vai ser sempre diferente. E isso não tem nada a ver.
Está a evoluir muito, já é uma modalidade muito boa de se ver, já há jogos muito bonitos de se ver. O Mundial, que aconteceu recentemente, foi muito apelativo, houve muita gente que viu, muita gente que quis ver. Por isso, acho que essas comparações, aquilo que as pessoas veem nas redes sociais, prejudicam um bocadinho aquilo que é o futebol feminino, aquilo que é a perceção e o valor das atletas e de quem pratica o desporto.
“As comparações, aquilo que as pessoas veem nas redes sociais, prejudicam um bocadinho aquilo que é o futebol feminino, aquilo que é a perceção e o valor das atletas e de quem pratica o desporto”
É um treinador calmo ou desassossegado em dia de jogo?
Em dia de jogo, calmo. Depende. No banco, talvez não. Temos todos uma reputação de berrarmos e sermos um bocadinho mais acesos, mas é por causa da nossa maneira de jogar e da nossa maneira de ser. Nós queremos sempre muita velocidade, muita intensidade, tentamos “afogar” o nosso adversário naquilo que é a velocidade do jogo, até pelo nosso campo.
O nosso campo tem grades à volta, a bola sai, bate e volta a entrar, dá para fazer lançamentos rápidos. Então queremos sempre que aquilo ande, que seja rápido, que seja forte. E isso veio daquilo que eram as nossas equipas de formação. Nós tínhamos de ser assim, tínhamos de passar isso às jogadoras porque estávamos a jogar contra rapazes e elas tinham de ser mais bravas, mais intensas, mais rápidas a pensar porque senão tornava-se difícil competir.
Por dentro, estou calmo. Por fora, às vezes, pode parecer que não estou calmo.
Nas palestras, em dia de jogo, que mensagens tentam passar às jogadoras? Preparam o discurso?
Preparamos o discurso ao longo da semana. No dia do jogo, tudo sai de forma natural. Tudo começa durante a semana. Ou seja, as coisas são preparadas durante a semana, tudo tem um seguimento, quando chegamos ao dia de jogo já está quase tudo dito, é só recapitular aquilo que fizemos e o que fomos dizendo sobre o adversário.
Depois depende de adversário para adversário. Se for um adversário difícil, a palestra será mais sobre superação, sobre aquilo que temos de ter em atenção, sobre o quanto é que temos de acreditar que conseguimos, passar uma mensagem mais de confiança. Se for um adversário um bocadinho mais limitado, uma mensagem mais de concentrem-se, não vai ser fácil, não adormeçam. Ou seja, depende um bocadinho do dia, do adversário, do que estamos a fazer, e para o que estamos a lutar.
Digere bem as derrotas?
Não. Tento que não afetem a minha vida pessoal, talvez quando for mais velho isso não aconteça. Neste momento, afeta tremendamente a minha vida pessoal.
Tomás, o que é, para si, um bom jogo?
Um bom jogo é um jogo em que nós saímos dele sem nos arrependermos de nada. É bom ganhar, mas quando saímos do jogo e ok, demos tudo, isto foi a nossa melhor versão, acho que é a melhor sensação.
Claro que ganhar é sempre muito importante e perder é muito chato, mas a sensação de sair do campo e achar que podíamos ter feito um bocadinho melhor, e que somos capazes de mais e não fizemos, porque perdemos a concentração ou não tivemos vontade suficiente, não é boa.



