Xano Machado, Académica: “O futebol é todo igual, as intensidades é que são diferentes” 

Xano Machado é o treinador da equipa da Académica, na 4.ª Divisão. O grupo continua invicto, só vitórias esta época, está focado em subir. Prepara um treino para o plantel da Briosa da mesma forma como quando estava no futebol masculino. Com as componentes técnicas, físicas, táticas. Às quintas-feiras, dá uma conferência de imprensa juntamente com uma jogadora.

Xano Machado, Académica
Fotos: Maria João Gala/Magriça

Xano Machado pegou na equipa em novembro de 2024, continuou com ela, iniciou esta época com o mesmo clube ao peito. Zero derrotas até agora. Não há nenhum segredo, há sim muito trabalho, garante. As características das suas jogadoras, as disponíveis, as lesionadas, o jogo que se segue, são fatores que entram na sua gestão. A parte mental também é importante. E a ambição é atitude que valoriza nas atletas.  

Ser treinador, admite, é uma posição ingrata, sobretudo quando todas as jogadoras estão ao mesmo nível. Deixar alguém de fora de uma convocatória é sempre difícil. O futebol feminino tem crescido em Portugal, e não só, diz Xano Machado que considera que pode evoluir mais. Mas, para isso, é preciso olhar com atenção para reformulações a fazer, nomeadamente na reestruturação dos quadros competitivos. Não concorda com uma 4.ª Divisão com 70 equipas. Torna tudo mais difícil, só sobe uma equipa. 

Tem uma equipa invicta, só vitórias. Há algum segredo?
Não. O segredo é sempre o trabalho, sempre o trabalho. Tenho um plantel muito dedicado, tenho excelentes atletas com uma qualidade espetacular e que têm vindo a evoluir ao longo desta época. 

Para um plantel de boa qualidade, como é que prepara os treinos? 
Antes de estar no futebol feminino, estava no futebol masculino. Os treinos são preparados da mesma forma. Dizem que o futebol feminino é diferente do futebol masculino. O futebol é todo igual, agora as intensidades é que são diferentes. Preparo um treino para este plantel da mesma forma que preparo um treino para o futebol masculino, tendo em conta as características das atletas, tendo em conta o adversário que vamos encontrar, tendo em conta as jogadoras que temos disponíveis e as que estão lesionadas.
Fazemos sempre o nosso microciclo, tendo em conta o adversário que vamos encontrar no fim de semana. Iniciamos a semana com uma gestão de cargas e nos dias seguintes preparamo-nos consoante o adversário. 

Treinos mais técnicos ou mais táticos? 
Tem de tudo. Tem a parte técnica, tem a parte física, tem a parte tática, tem  tudo. Ou seja, o microciclo tem de englobar todos estes parâmetros. 

O que é, para si, uma boa jogadora? Quais as qualidades que uma atleta de futebol deve ter?
Acima de tudo, uma atleta tem de ser ambiciosa, tem de gostar daquilo que faz, tem de vir para o treino com prazer de vir treinar, de vir a ter um lugar na convocatória e de ter um lugar no 11 ao domingo. Todas as atletas, umas mais evoluídas, outras menos evoluídas, desde que trabalhem, conseguem evoluir. 
Portanto, uma atleta que tenha ambição, que goste de futebol, que goste de trabalhar e que tenha alguma qualidade, conseguimos sempre potenciá-la. 

Uma atleta tem de ser ambiciosa, gostar daquilo que faz, vir para o treino com prazer de vir treinar, de vir a ter um lugar na convocatória, de ter um lugar no 11 ao domingo.

Xano Machado

A atitude é sempre importante?
A atitude é sempre importante. Aliás, diria que a atitude talvez seja o ponto mais importante. Uma atleta que não tenha atitude não consegue evoluir, nem consegue acompanhar o crescimento da equipa e o crescimento das outras jogadoras. 

Há a parte física e a parte mental, não é? 
Há vários treinos que temos de fazer. O treino mental também é importante, é muito importante. Tê-las preparadas mentalmente para jogar, para não jogar, para entrar, para não ser a opção de convocatória. Todos esses pormenores são muito importantes. E saber gerir isso é importante para que não se perca a atleta, para que não desmotive e continue a trabalhar para poder evoluir e ter lugar no grupo. 

Xano Machado, Académica

Para um treinador é ingrato fazer essa gestão?
É uma posição ingrata quando temos todas as atletas ao mesmo nível porque temos de fazer escolhas. E essas escolhas são feitas mediante o rendimento que elas nos dão, que nos apresentam durante a semana. E também consoante o adversário que encontramos ao fim de semana. 
Sim, é uma posição ingrata porque deixar alguém de fora de uma convocatória, só utilizar uma ou duas jogadoras – podemos fazer até cinco substituições, não quer dizer que seja obrigatório fazê-las, podemos não as fazer todas, mas há sempre atletas que não jogam – é sempre complicado fazer essa gestão. 

Só sobe uma equipa para a 3.ª Divisão. Será a Académica? 
Estamos a trabalhar todos os dias para que seja a Académica. Confiamos muito no plantel, confiamos muito no nosso trabalho. Estamos muito empenhados em fazer uma 2.ª fase tão boa, ou melhor, e o melhor vai culminar com a subida da divisão, do que a 1.ª fase. Vai ser uma tarefa complicada, que requer muito trabalho e que requer a mesma dedicação ou mais do que aquilo que elas tiveram até agora. 

Quanto mais divisões existirem, mais difícil se torna os clubes chegarem a patamares superiores. Os quadros competitivos do futebol feminino deveriam ser iguais aos do futebol masculino.

Não é habitual uma equipa da 4.ª Divisão fazer uma conferência de imprensa todas as semanas. 
Não, efetivamente, não é muito usual. No ano passado, fui surpreendido com as conferências de imprensa, na altura, ainda só havia as três divisões. Mas é uma forma de projetar o futebol feminino. É uma forma de dar a conhecer não só o futebol feminino, mas também aos adeptos, aos sócios, neste caso da Académica, que o futebol feminino existe em Coimbra, que existe na Académica, que está a ter um crescimento muito bom. E elas têm tido o apoio todos os fins de semana dos sócios, dos adeptos. 

Como analisa o crescimento do futebol feminino em Portugal?
Não há dúvida de que o futebol feminino tem crescido e não só em Portugal. Pode crescer mais? Pode, pode crescer muito mais, nomeadamente com algumas reformulações que acho que devem ser feitas, que não me compete dizer nem fazer, como uma reestruturação dos quadros competitivos, por exemplo. Tudo isso leva ao crescimento do futebol feminino. 
Nos últimos anos, tem havido uma evolução grande do futebol feminino, tanto que estamos nesta divisão e temos 70 equipas a competir. 

Foi numa boa ideia criar uma 4.ª Divisão?
Na minha opinião, não, porque pode envolver vários fatores. Quanto mais divisões existirem, mais difícil se torna os clubes chegarem a patamares superiores. Na minha opinião, os quadros competitivos do futebol feminino deveriam ser pelo menos iguais aos do futebol masculino. Ou seja, haver uma Liga 3 com 2 zonas, onde pudessem estar a disputar mais equipas do que aquelas que estão neste momento em prova. E depois, talvez, um campeonato nacional, como existe no futebol masculino. Para mim, é o que faria mais sentido. 

A seleção feminina nacional vai em breve ao apuramento para o Mundial. Portugal tem talento e capacidade para lá chegar? 
Acho que sim. Talento está à vista que temos. Agora, lá está, requer muitos outros fatores, a continuidade do futebol feminino, o apoio ao futebol feminino, o desenvolvimento do futebol feminino e aproveitar todo este talento que existe. 

Míster, o que é, para si, um bom jogo? 
Um bom jogo, normalmente, para todos os adeptos de futebol, para todos os treinadores, tem de culminar com uma vitória. Mas nem sempre um bom jogo conseguido, por parte de qualquer que seja a equipa. termina com uma vitória. Um bom jogo é um jogo em que as atletas entram, do primeiro minuto até ao árbitro apitar, com espírito de sacrifício, com entrega, com dedicação. Não dar o jogo nunca por perdido e sempre em busca de mais. Acho que isso torna o jogo mais interessante.